A luz do sol em minha janela

1249 Words
O sol brilhava alto, aquecendo as ruas da Vila Madalena com uma luz dourada e vibrante. O calor era suave, confortável, e o vento leve carregava o cheiro de flores dos jardins e o rumor distante da cidade despertando devagar. Lia parou diante do prédio antigo: colunas altas, portas de madeira com vidros espessos, janelas largas que refletiam o céu como espelhos vivos. Havia algo ali que parecia chamá-la, sem precisar de palavras. Cada detalhe, a fachada desgastada, os contornos clássicos, o leve rangido do portão trazia a promessa de um novo começo. Ela respirou fundo. A vida que crescia dentro dela pulsava junto com o coração, como se dissesse que aquele era o lugar certo. A esperança dançava com o medo, mas havia coragem naquele ar quente e dourado. Ao abrir a porta, o cheiro de madeira antiga e poeira a envolveu. O sol atravessava os vitrais e derramava-se sobre o chão, criando desenhos dourados que se moviam conforme o vento. O estúdio parecia adormecido, à espera de mãos que o acordassem. Lia deu o primeiro passo. O piso rangeu suavemente, emitindo um som que mais parecia uma saudação. Ela estendeu os dedos, tocando a parede fria sentiu a textura áspera, as marcas do tempo, e imaginou ali as novas histórias que escreveria. Era mais do que um espaço. Era um renascimento. — Bonito, né? — disse uma voz masculina, quebrando o silêncio. Lia se virou, surpresa. Na porta, um homem de uns trinta e poucos anos, pele morena e barba curta, equilibrava uma escada nos ombros. Os olhos castanhos, tranquilos e fundos, tinham algo de acolhedor e uma sombra antiga, daquelas que a vida ensina a carregar em silêncio. — Desculpa... achei que não tinha ninguém. Sou o Joaquim — disse, ajeitando o boné puído. — Cuidava da manutenção aqui quando o prédio ainda funcionava com aulas de música. O síndico pediu pra eu dar uma olhada antes da nova inquilina chegar. Lia sorriu, ajeitando uma mecha de cabelo. — Pois parece que a nova inquilina chegou antes do combinado. Ele deu um meio sorriso, o tipo que acende devagar. — É... parece que sim. — apoiou a escada na parede e limpou as mãos num pano. — Tá com sorte, viu? Esse prédio é cheio de alma boa. Meio torto, mas de coração grande. Ela gostou da definição. — Acho que combina comigo. — respondeu, rindo baixo. Joaquim assentiu, observando o espaço com atenção técnica e ternura contida. — O piso tá firme, mas precisa lixar e envernizar. A luz ali de cima tem uns fios antigos, dá pra trocar sem gastar muito. Aquele quartinho do fundo, dá pra virar uma salinha boa. — Uma sala de ensaio — disse ela, com um brilho no olhar. — Pra aulas menores, mais íntimas. Ele sorriu. — Já vi que você tem visão. Ela sorriu de volta. — E você parece entender de sonhos. Joaquim deu de ombros. — Entendo de martelo e parafuso, mas sonhos, às vezes dá pra ajudar a consertar também. Lia riu. Havia algo nele uma calma que desarmava, uma gentileza sem esforço, um jeito de ocupar o espaço sem invadir. Era um homem inteiro, mas sem a necessidade de provar nada. — Posso te ajudar a ajeitar as coisas, se quiser — continuou ele. — Faço um pouco de tudo: conserto, pintura, elétrica e café. Principalmente café. Ela sorriu, divertida. — Café é essencial. — Então pronto. — Ele tirou o boné e passou a mão pelos cabelos curtos. — Já temos um contrato verbal: eu arrumo o estúdio e você me ensina a dançar. Lia arqueou as sobrancelhas. — Acordo fechado, mas aviso que sou exigente. — E eu sou r**m de ritmo. — Ele piscou, com humor seco. — Vai ser uma parceria equilibrada. O riso deles preencheu o espaço, leve, quase musical. Era a primeira vez em muito tempo que Lia ria sem se sentir culpada por isso. --- Nos dias seguintes, Joca se tornou presença constante. Chegava cedo, rádio no bolso e ferramentas nas mãos. O som do martelo misturava-se às músicas antigas que ele ouvia — Cartola, Elis, Cássia. Entre uma pausa e outra, Lia varria o chão, ajeitava cortinas, passava a mão na barriga redonda e sorria sozinha. Às vezes ele aparecia com pão quente e um copo de café passado na hora. “Pra sustentar vocês”, dizia, apontando a barriga com respeito e ternura. Ela começou a chamá-lo de “Joca”. Ele, simplesmente, chamava ela de “você”. Natural. Próximo. Como se já se conhecessem há tempos. Ele falava pouco do próprio passado, mas Lia percebia nas pausas, nos olhares demorados, que havia dor ali também. Um casamento que não deu certo, uma irmã distante, talvez uma perda antiga, nada explícito, apenas sugerido no silêncio. E talvez por isso os dois se entendessem tão bem: eram duas almas recomeçando, cada uma à sua maneira. --- Quando o estúdio ficou pronto, o dia amanheceu com o céu limpo. O piso recém-envernizado refletia a luz, e o ar tinha cheiro de promessa e café fresco. Joca apareceu com uma pequena muda de planta nas mãos. — Comigo é assim, onde eu trabalho, deixo vida pra trás. — disse, meio tímido. — É um tipo de sorte. Lia segurou o vasinho com cuidado. — Que planta é essa? — Jasmim. Flor que só abre de noite. Demora pra florescer, mas quando floresce... — ele olhou pra ela — perfuma tudo. Lia sentiu os olhos arderem. — Obrigada, Joca. Ele sorriu de canto. — Não precisa agradecer. A vida precisa de flores, ainda mais quando vem uma nova por aí. Lia passou a mão na barriga, emocionada. — Ela vai crescer achando que o mundo é um lugar bonito. — E vai ser. — ele respondeu. — Pelo menos dentro dessas paredes, vai ser. --- No centro do estúdio, Lia girou lentamente, o corpo leve apesar da gravidez avançada. Os raios de sol refletiam nos espelhos e criavam círculos dourados sobre o chão. Ela fechou os olhos e dançou, não uma coreografia, mas um rito silencioso de gratidão. Joca a observava, sem interferir. Havia algo quase sagrado naquela cena: a mulher e o espaço, o corpo e o tempo, o silêncio e o renascimento. E ele entendeu, sem precisar de palavras, que aquele era o lugar certo pra ela, pra criança, e de alguma forma, pra ele também. Quando a música da alma dela cessou, Lia abriu os olhos e sorriu. — Sabe o que eu pensei, Joca? Esse lugar vai ter história. Um dia, ela vai correr por aqui e vai rir de mim dançando assim. Ele encostou na parede, cruzando os braços. — E o tio Joca vai estar aqui pra ver. Ela sorriu com doçura. — Então tá combinado. Ele assentiu, olhando para o teto, fingindo esconder a emoção. — Combinado. Mas aviso: tio Joca é exigente. — Exigente como? — Só vai dançar quem prometer ser feliz. Lia riu, e o som da risada ecoou pelo estúdio, atravessando o sol, as janelas e o coração dos dois. Era o riso de quem, finalmente, começava a acreditar no amanhã. E ali, sob a luz dourada da manhã, Lia sussurrou, com a mão sobre a barriga: — Estamos em casa, minha pequena. O piso estalou de leve, como quem confirma em segredo. E o vento, entrando pelas janelas, fez o jasmim balançar exalando o perfume suave das coisas que acabam de recomeçar.
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