O que o Silêncio Não Diz

1032 Words
Nos dias que seguiram à festa, a cidade parecia ter mudado de tom. As manhãs tinham um céu cinza e um frio manso que parecia se enroscar em tudo. O barulho dos pássaros soava mais distante. E o cheiro de terra molhada, que antes fazia Lia sorrir, agora apenas lembrava a praça o banco onde eles costumavam se encontrar, o lugar onde o amor parecia simples. Nada de bilhetes dobrados deixados na mochila. Nada de ligações curtas antes de dormir. Nada de Gui. O silêncio era tão alto que parecia gritar. Lia acordava cedo, mas ficava deitada por horas, olhando o teto, tentando entender em que momento tudo desandou. O moletom que ele havia emprestado ainda guardava o cheiro dele. Ela o cheirava às escondidas, com raiva de si mesma como quem cutuca a própria ferida só pra ter certeza de que ainda dói. À noite, escrevia no diário o que não tinha coragem de dizer: “Parece que ele evaporou, mas ficou nas músicas, nas esquinas, no jeito que o vento sopra. Por que ele não veio atrás? Por que eu sinto tanto, e ele parece não ligar?” Enquanto isso, Gui vagava pelas ruas com os patins. O som seco das rodas no asfalto o distraía por alguns segundos, mas logo vinha o vazio um buraco no peito que nem a velocidade conseguia preencher. Ele passava em frente à casa dela, tentando não olhar, mas sempre via a luz do quarto acesa. Imaginava se ela ainda pensava nele ou se já tinha escolhido outro ritmo. Às vezes ficava ali, parado, do outro lado da rua, escondido na sombra de uma árvore, apenas para ouvir o som abafado da música que vinha de dentro. E o coração apertava, como se quisesse sair pela boca. Os amigos tentavam animá-lo, chamavam pra jogar, pra sair, pra rir, mas ele respondia com meio sorriso e olhos baixos. Até a mãe percebeu. Dizia que ele “tava com cara de quem deixou o coração cair no chão e esqueceu de pegar de volta”. O tempo passava devagar. Cada pôr do sol parecia mais frio, mais longo. A praça, o “lugar deles”, agora era só um cenário vazio. O banco onde costumavam rir tinha folhas secas espalhadas e um ar de abandono, como se também sentisse saudade. Até que, semanas depois, num sábado abafado, o destino resolveu cruzar novamente os caminhos dos dois. Foi um encontro acidental ou talvez não. Lia estava numa sorveteria com as amigas, o cabelo solto, o sorriso contido, o olhar que ainda doía. Gui entrou sem pensar. O coração tropeçou dentro do peito quando a viu ali, rindo baixinho, mexendo a colher no copo de morango como se o mundo tivesse voltado a girar sem ele. Por um instante, quis voltar. Mas ficou. Aproximou-se devagar, o medo misturado à esperança. A voz saiu rouca, quase um sussurro: — Podemos conversar? Lia o olhou com surpresa. Havia cansaço em seus olhos e uma saudade que ela tentava esconder. Aquela não era mais a menina da festa. Tinha olheiras fundas, o olhar maduro de quem aprendeu a silenciar o que sente. Gui enfiou as mãos nos bolsos, o coração acelerado. — As coisas saíram do controle… — começou. — Eu fiquei com medo de te perder… e acabei te perdendo. Sinto sua falta. Lia abaixou o olhar, tentando conter as lágrimas que ameaçavam cair. As palavras dele eram o que ela esperava há dias, mas agora soavam distantes, quase irreais. — Amanhã, às cinco, no nosso lugar — disse ele, hesitante. — Eu estarei lá, se você quiser voltar. Ela não respondeu. Não conseguiu. O nó na garganta pesava demais. Gui esperou um instante, mas partiu. Foi embora sem olhar pra trás, como quem deixa um pedido de perdão flutuando no ar, torcendo para que o vento o leve até o coração certo. O dia seguinte amanheceu cinza, com vento frio. Lia passou a manhã indecisa ir ou não ir. Cada parte dela dizia uma coisa diferente. A razão gritava “não”, mas o coração, teimoso como sempre, sussurrava “vai”. No fim, o coração venceu. Quando chegou à praça, ele já estava lá. Sentado no banco, os patins nas mãos, o olhar perdido nas folhas que o vento arrastava. O cheiro do outono misturava terra, lembrança e arrependimento. Gui se levantou assim que a viu. O tempo pareceu parar por um segundo. Os olhos se encontraram e, por um breve instante, era como se nada tivesse acontecido. — Eu fui um i****a — disse ele antes mesmo que ela abrisse a boca. A voz tremia. — É que… nunca senti isso antes. Quando vi outro cara perto de você, fiquei com raiva. Mas o pior foi perceber que o problema não era ele. Era eu. Lia respirou fundo, os olhos marejados. — Depois de tudo, você ainda não confia em mim? — perguntou, num fio de voz. — Achei que a gente fosse mais forte que isso. O silêncio se estendeu. O vento passou entre eles, mexendo nos cabelos, como se tentasse empurrar o tempo de volta. Gui deu um passo à frente. — Podemos começar de novo? Ela o olhou, e por um instante tudo pareceu igual: o mesmo olhar, a mesma v*****e, o mesmo amor. Mas agora doía porque a saudade também deixa cicatriz. — Só se você prometer não me deixar de novo — disse ela, a voz embargada. — Prometo — respondeu ele, e a puxou num abraço que parecia pedir perdão com o corpo inteiro. O cheiro dele a envolveu outra vez, e ela fechou os olhos. Por um segundo, o mundo parou. Uma música distante começou a tocar uma melodia leve, sobre a felicidade ser um castigo por tanto amar. Eles riram baixinho, como se aquela dor finalmente tivesse um som. Ficaram ali, abraçados, tentando costurar o que o orgulho havia rasgado. Dois adolescentes, ainda aprendendo o que é amar e o quanto o amor pode doer. Por ora, tudo parecia bem. Mas o destino… O destino nunca se apressa. Ele apenas espera o momento certo de provar que, às vezes, o amor também precisa do adeus.
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