Quando o vento trouxe o que o coração não sabia dizer

1528 Words
O mês de abril chegou como uma promessa tímida. O calor já não era o mesmo de janeiro, e as tardes pareciam suspensas entre o fim do verão e o começo de algo novo. As árvores começavam a perder o verde intenso, e o vento trazia aquele cheiro de mudança o mesmo que vinha antes das chuvas ou das despedidas. Lia acordou cedo naquela terça-feira. O céu estava azul, e o sol atravessava as cortinas em listras douradas. Ela sentia algo diferente no ar, como se o dia estivesse prestes a revelar um segredo. Desde a audição no conservatório de dança em São Paulo, ela vivia entre o medo e a esperança. Às vezes, acreditava ter ido bem. Outras, revivia cada passo que achava imperfeito. Na mesa do café, a mãe folheava um livro de receita distraída, o rádio tocava uma música antiga, e o cheiro de pão recém-tostado se espalhava pela cozinha. Lia pensava em Gui. Pensava sempre. No último mes, depois de terem se reencontrado, ele parecia diferente, mais maduro, mas também mais distante, como se houvesse algo guardado por trás do sorriso. Mesmo assim, estavam bem. Melhor do que antes. O barulho da moto do carteiro cortou o silêncio da rua. Lia nem deu importância no começo, até ouvir o som familiar da buzina curta na porta. A mãe foi atender e, segundos depois, voltou com um envelope pardo nas mãos. — É pra você, Lia. Veio de São Paulo. O coração dela disparou. O mundo pareceu encolher em torno daquele envelope. Os dedos tremiam enquanto abria a dobra e tirava de dentro o papel com o timbre do Conservatório Nacional de Dança Contemporânea. Por um instante, hesitou em ler. Respirou fundo e abriu. “Temos o prazer de informar que você foi selecionada para integrar a turma de Iniciação Profissional em Dança Contemporânea, com início em agosto.” Ela ficou olhando para as palavras, como se precisasse confirmar que eram reais. Os olhos marejaram. O peito se encheu de um calor leve, uma alegria que vinha misturada com incredulidade. — Mãe... eu consegui. — disse baixinho, sem acreditar. — Eu consegui! A mãe a abraçou com força, o sorriso orgulhoso e os olhos brilhando. — Eu sabia, filha. Eu sabia! Lia correu para o quarto, pegou o moletom velho que ainda tinha o cheiro de Gui e o abraçou como quem segura um pedaço de casa. Tudo o que queria naquele momento era contar a ele. Precisava vê-lo, olhar nos olhos dele, dividir aquele instante como sempre fizeram rindo, sonhando, acreditando que o mundo cabia dentro da praça onde tudo começou. Saiu de casa apressada, o envelope dobrado na mão, o coração batendo mais rápido do que seus passos. O vento bagunçava o cabelo, e o sol refletia no chão quente. Ela não sabia, mas aquele mesmo vento carregava uma outra notícia, uma que mudaria tudo. Gui estava sentado na calçada em frente à casa dele, os patins encostado no meio fio. Tinha o olhar perdido, o semblante tenso, e o rosto mais pálido que o habitual. O pai havia lhe contado na noite anterior: seriam transferidos em quinze dias. Destino: uma cidade a mais de oitocentos quilômetros dali. Um novo cargo, um novo endereço, uma nova vida. E ele, sem escolha, iria junto. Tentou fingir naturalidade, mas o estômago doía. Quis contar a Lia, mas não sabia como. Como dizer a alguém que é o seu lugar no mundo que você vai embora? Como prometer amor e ausência na mesma frase? Quando ela apareceu no fim da rua, ele soube que aquele seria um daqueles momentos que a gente nunca esquece. Ela vinha correndo, o cabelo solto, o sorriso largo, o envelope amassado nas mãos. A felicidade estampada no rosto. Ele desejou poder congelar o tempo ali, antes que ela dissesse qualquer coisa. — Gui! — ela gritou, ofegante. — Eu consegui! — Conseguiu o quê? — ele perguntou, tentando parecer natural. — A bolsa! — disse, rindo e chorando ao mesmo tempo. — Fui aceita no conservatório! Em São Paulo! As aulas começam em agosto! Ela esperava que ele pulasse, que sorrisse com ela, que dissesse algo como “eu sabia”. Mas ele ficou quieto. A alegria dela bateu no silêncio dele e se perdeu no ar. — Gui? — perguntou, o sorriso se desfazendo. — O que foi? Ele respirou fundo. O som do vento parecia empurrar as palavras pra fora, mesmo que doessem. — Meu pai foi transferido. Ela piscou, sem entender. — Transferido? — Vamos embora... em quinze dias. O sorriso dela se apagou de vez. O envelope escorregou da mão, caindo no chão. O vento soprou, abrindo a carta como se o papel também quisesse fugir dali. Lia se abaixou devagar, pegou o papel e o dobrou sem olhar. O coração batia tão alto que parecia um tambor dentro do peito. — Quinze dias... — ela repetiu, quase sem voz. — Isso é... já. Gui assentiu, os olhos marejados. — Eu juro que não queria. Ela olhou pra ele, e por um instante quis acreditar que nada daquilo era real. Quis fechar os olhos e acordar outra vez na manhã do bilhete, ou do primeiro beijo, ou de qualquer outro dia em que o futuro ainda não existia. — Eu ia te contar hoje — ele continuou, a voz embargada. — Mas não sabia como. Lia respirou fundo, tentando conter o nó que subia pela garganta. — Eu também não sei o que dizer — respondeu. — Parece que o mundo resolveu brincar com a gente. Eles ficaram ali, parados, o sol queimando o chão, o vento soprando entre as árvores. O som distante de um rádio tocava uma música triste demais pra aquela hora do dia. Lia passou a mão pelos cabelos, tentando segurar o choro. — Eu devia estar feliz, sabe? — disse ela, com a voz falhando. — Era pra ser o dia mais bonito do ano. Gui se aproximou e segurou a mão dela. — Ainda é. — sussurrou. — Você conseguiu o que sempre quis, Lia. E eu tô tão orgulhoso. Ela sorriu de leve, mas o sorriso não alcançou os olhos. — Mas e nós? — perguntou. — O que vai ser da gente? Ele ficou em silêncio por um momento. O vento bateu forte, trazendo o cheiro de jasmim das casas vizinhas. — A gente se escreve — ele disse, por fim. — Me liga quando der. Eu também vou te ligar. Ela riu, com ironia e tristeza. — Você promete? — Prometo. — respondeu, sem hesitar. — Nem que minha vida dependa disso. Nos dias que seguiram, tentaram viver o que restava como se o tempo tivesse parado. Voltaram à praça, ao quiosque, ao banco de sempre. Fizeram planos que fingiam acreditar. Falavam de cartas, de telefonemas, de visitas nas férias. Mas havia algo no ar, aquela sensação amarga de quem sabe que o coração está se despedindo antes mesmo de o corpo ir embora. Uma tarde, ela perguntou: — Você tem medo? — De quê? — De me esquecer. Ele riu de leve, mas o olhar era sério. — De te esquecer? Lia... eu não saberia nem por onde começar. O vento soprou outra vez, levantando folhas secas ao redor deles. Ela pensou que o vento era mesmo um mensageiro estranho trazia notícias, lembranças, e agora parecia querer levar o que restava deles também. No último sábado de abril, o céu ficou coberto de nuvens pesadas. A cidade parecia em suspenso, como se soubesse o que estava por vir. Lia foi até a praça. Ele já estava lá, os patins encostado no banco, os olhos perdidos. Quando a viu, abriu um sorriso triste. Ela caminhou até ele, o coração batendo rápido. — Eu queria te dar uma coisa — disse, tirando do bolso uma pequena fita azul. — O que é? — Um pedaço da minha sorte. — respondeu. — Pra você levar quando for. Ele segurou a fita, enrolou no pulso e olhou pra ela com os olhos marejados. — E eu quero que leve isso — disse, entregando o chaveiro em forma de coração que ele mesmo havia feito meses antes. — Assim, a gente se lembra de onde tudo começou. A chuva começou a cair fina, quase invisível. Eles ficaram ali, parados, deixando o tempo escorrer por entre os dedos. — Eu volto, Lia. — ele disse, quase num sussurro. — Pode demorar, mas eu volto. Ela assentiu, sem conseguir falar. O vento soprou de novo, trazendo o cheiro de terra molhada, e foi como se o mundo inteiro prendesse a respiração. Naquela noite, Lia escreveu no diário: “Hoje o vento trouxe a melhor e a pior notícia da minha vida. Fui aceita no conservatório, e ele vai embora. É estranho como a felicidade e a dor podem caber no mesmo coração. Talvez o amor seja isso continuar acreditando, mesmo quando o tempo insiste em levar o que a gente ama.” E quando fechou o caderno, olhou pela janela. O vento ainda soprava lá fora, leve, constante, como se quisesse lembrar que certas promessas, mesmo ditas entre lágrimas, o tempo não apaga.
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