O Som do Vento e o Ruído da Saudade

1208 Words
No começo, parecia que nada mudaria. O mundo ainda girava no mesmo compasso o cheiro das tardes de outono, o vento brincando com as folhas secas, o som distante dos carros passando na rua de sempre. Mas o coração de Lia já não acompanhava o ritmo. O telefone ainda tocava nas primeiras semanas. Eram ligações curtas, cheias de risadas apressadas e silêncios que diziam mais do que qualquer palavra. Depois, vieram os e-mails. Linhas trocadas pela tela do computador velho, o barulho do modem discado ecoando pela casa, aquele som metálico, meio mágico, que anunciava o início de um novo milagre: estar perto, mesmo longe. Às vezes, ela esperava o relógio marcar onze da noite a hora em que a internet ficava mais barata e corria pro quarto. Fechava a porta devagar, para não acordar a mãe, e ligava o computador. A luz azulada da tela iluminava o rosto, e o coração disparava no mesmo instante em que o ICQ emitia o clássico uh-oh! de uma nova mensagem. Era ele. Sempre ele. Gui Andrade. As mensagens chegavam curtas, misturando gírias, saudades e tentativas de disfarçar o quanto doía estar longe. Gui: “Oi, bailarina. Aqui faz sol o tempo todo, mas parece frio sem você. Tô tentando achar um lugar pra andar de patins, mas nenhum tem o mesmo vento. Às vezes fecho os olhos e quase escuto o barulho da tua risada na praça. Escreve logo, tá? Saudades.” Lia lia e relia a mensagem até decorar cada palavra. Depois respondia devagar, escolhendo as palavras com o mesmo cuidado com que dançava, tentando dizer tudo o que o coração gritava, sem parecer desesperada. Lia: “Oi, patinador. Passei pra segunda fase da audição! Tô ensaiando sem parar. Às vezes danço e penso em você. Acho que as tuas manobras me inspiram. E a praça continua igual, mas tá vazia sem o som das suas rodas.” As trocas de mensagens viraram parte da rotina. Ela chegava da escola e a primeira coisa que fazia era checar o e-mail. O coração batia mais rápido ao ver o nome dele na caixa de entrada, como se o amor tivesse encontrado um novo jeito de atravessar quilômetros. Mas o tempo, aquele mesmo que os uniu começou a brincar de esconder. As respostas passaram a demorar. Primeiro um dia. Depois três. Depois uma semana inteira. A conexão caía, o sinal falhava, e as palavras deles começaram a se perder entre as linhas do tempo e as falhas do provedor. Lia ainda esperava o som do uh-oh! todas as noites. Mas o computador ficava mudo. O relógio avançava, e o coração dela, teimoso, insistia em acreditar que a próxima mensagem viria. As conversas viraram rotina. Ela chegava da escola, fazia os deveres e, à noite, esperava a conexão. O som do uh-oh! virou quase um reflexo do coração. Mas, aos poucos, os sons começaram a rarear. Primeiro ele demorava um pouco mais para responder. Depois sumia por dias. A conexão dele caía, o computador travava, e o tempo foi aprendendo a apagar, aos poucos, o brilho da tela. Lia ainda esperava todas as noites, deitada com o olhar preso ao monitor, o quarto mergulhado em luz fria. A cada vez que a notificação soava, ela sorria mesmo que fosse só uma mensagem de outra pessoa. Um dia, depois de quase duas semanas sem resposta, o uh-oh! ecoou de novo. As mãos dela tremeram ao abrir. Gui: “Desculpa ter sumido. Começou o cursinho, tá puxado. Aqui é tudo diferente. Gente nova, lugares estranhos. Às vezes parece que tô em outro planeta. Mas eu ainda penso em você. Sempre.” Ela respirou fundo. Sorriu. E respondeu na hora: Lia: “Eu também penso em você. Ensaio todos os dias, e às vezes danço imaginando que você tá assistindo. Me escreve sempre que der, tá? A distância não me assusta se ainda tiver você do outro lado.” As mensagens foram ficando mais espaçadas. Ele falava de novas pessoas, de um campeonato de patinação. Ela falava dos ensaios, do conservatório. Os assuntos ainda eram os mesmos, mas o ritmo não. Era como dançar fora do compasso. E, aos poucos, a saudade começou a doer de um jeito diferente. Menos agudo, mais profundo. Um silêncio que não gritava, mas pesava. Em uma madrugada de chuva, Lia esperou até tarde. A internet caía o tempo todo. O relógio marcava 1h43 da madrugada quando o uh-oh! finalmente tocou. Ela sorriu. Gui: “Tava pensando em você agora. Lembra quando a gente caiu na praça e ficou rindo por meia hora? Sinto falta disso. Às vezes parece que o mundo é grande demais.” Lia olhou para a tela por alguns segundos antes de responder. Lia: “O mundo é grande, mas o amor não. Cabe num clique.” Ele respondeu com um coração feito de símbolos, mas o tempo, sempre ele, começou a apagar o brilho das conversas. O uh-oh! parou de tocar. A tela ficou muda. E Lia entendeu que o silêncio também é uma forma de despedida. Mesmo assim, continuou escrevendo e-mails. Palavras que não mandava, só salvava em rascunho. Como se o amor pudesse ser guardado numa pasta. “Hoje dancei com o vento. Ele me lembrou você. Acho que o amor é isso: um vento que nunca fica, mas sempre volta pra bagunçar o cabelo.” O tempo passou. O outono virou inverno. E a saudade virou parte da rotina. O som da internet discada ecoava todas as noites, como uma lembrança insistente. Mas o uh-oh! nunca mais veio. Um dia, ao arrumar o quarto, Lia achou uma velha pasta de papéis impressos, e-mails que ela tinha guardado como se fossem cartas e os bilhetes trocados na escola e no banco da praça. As folhas estavam amareladas, o perfume já apagado, mas o sentimento ainda morava ali. Leu todas, uma por uma. Riu. Chorou. E, ao final, sentiu algo diferente: paz. Guardou tudo numa caixa. Amarrou com uma fita vermelha. E guardou no fundo do armário, junto com o chaveiro de patins que ele tinha dado. O tempo seguiu. Lia terminou o ensino médio, e o conservatório começou em agosto, como prometido. prometido. Ela mergulhou na dança com toda a força que o amor deixou. Dançava como quem tenta traduzir a ausência em movimento. E, de alguma forma, o fazia. Porque, quando o corpo dela se movia no palco, o vento parecia soprar diferente como se, em algum lugar distante, alguém ainda a lembrasse. Às vezes, ela pensava em Gui. Imaginava-o com os patins de sempre, os fones no ouvido, o boné virado pra trás. Será que ele ainda pensava nela? Em alguma noite qualquer, em uma cidade que ela nem sabia o nome, Gui talvez também tenha parado, olhado pro céu e lembrado da praça, do riso dela, do primeiro beijo sob a chuva. Mas o tempo não contou isso a ninguém. E, assim, entre telas, ruídos e silêncios, o amor deles virou lembrança daquelas que o tempo não apaga, só muda de forma. Uma saudade que mora quieta, mas viva, nos espaços onde o vento ainda sopra. Uma saudade que o tempo não apaga, só muda o formato. O centro da dor continua o mesmo só aprende a bater mais devagar.
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