A mala pesava, mas não tanto quanto a decisão.
O Conservatório Nacional de Dança parecia mais imponente pessoalmente do que em qualquer fotografia que Lia já tinha visto. Prédio antigo, colunas altíssimas, janelas enfeitadas com grades delicadas… e um letreiro dourado que brilhava como promessa e ameaça ao mesmo tempo.
Ela havia completado 17 anos na semana anterior.
Era oficialmente adulta aos olhos do Conservatório.
Mas por dentro, ainda era a menina da cidade pequena que dançava na sala, no quintal, no mercado, na rua, em qualquer lugar onde coubesse um sonho.
A mãe caminhava ao lado dela devagar, como se cada passo fosse uma despedida.
O pai segurava a mala com força demais, como se a bagagem fosse a única coisa que ainda o mantivesse perto da filha.
No conservatório, descobriu que talento não é o suficiente.
Também era preciso resistência.
Disciplinar o corpo, domar as inseguranças, aprender a continuar apesar de doer.
E doía.
Cada músculo.
Cada lembrança.
Cada saudade.
Às vezes chorava no banheiro frio após os ensaios, exausta.
Às vezes sorria sozinha voltando pra casa, porque aprendera um passo novo.
Porque estava crescendo.
O quarto no alojamento tinha duas camas, espelhos do chão ao teto e um varal cheio de fotos de ex-alunas em palcos internacionais. O piso era de linóleo, para alongamentos. No armário havia uma pasta com seu nome:
Lívia Montes — Turma de Ballet & Contemporâneo — Nível 1
Ver seu nome ali fez tudo se tornar real.
E assustador.
A mãe ajeitou os lençóis.
O pai verificou pela terceira vez se o ventilador funcionava.
Ambos falavam sobre coisas banais com medo de falar sobre a mais óbvia: a partida.
Até que não havia mais nada a fazer além de abraçá-la.
Quando os pais fecharam a porta e os passos se afastaram pelo corredor, Lia sentou-se na cama, sozinha pela primeira vez. A solidão veio com força — quente, crua, esmagadora. Mas junto dela veio outra coisa: a certeza de que estava no lugar certo.
Ela chorou baixinho, sem vergonha, não por saudade… mas pelo tamanho do sonho.
O Conservatório era disciplina.
Era dor.
Era renúncia.
Era brilho e sombra na mesma medida.
O corpo sempre doía, pés sangrando, joelhos roxos, músculos queimando, mas a dor nunca foi inimiga. Era parte do pagamento pelo sonho.
E Lia pagava com prazer.
Quando dançava, era inteira.
Não havia medo, insegurança, cidade natal ou passado.
Havia corpo, música e ar entrando e saindo do pulmão no ritmo perfeito.
Aos vinte e um, fez sua primeira apresentação profissional.
Aos vinte e três, foi chamada para integrar uma companhia independente.
Aos vinte e quatro, descobriu o que era a solidão em uma cidade cheia de gente.
Teve festas, fez amizades, teve amores, despedidas, rachaduras no peito.
Mas nenhuma história interrompeu o ritmo dela até o silêncio entre um ensaio e outro.
Porque às vezes, no vestiário vazio, Lia fechava os olhos por um instante e jurava ouvir o som distante de rodas raspando no asfalto.
Um patins.
Aos vinte e cinco, a primeira grande crítica especializada elogiou seu trabalho.
Aos vinte e seis, decidiu voltar.
A fama nunca foi seu objetivo.
Ela queria raízes.
Trocar o barulho da metrópole pelo cheiro de chuva em paralelepípedo, pelas conversas na padaria, pelo reconhecimento no rosto das pessoas que pronunciam seu nome com afeto — e não com admiração vazia.
Na cidade onde cresceu, abriu sua própria escola de dança com paredes brancas, janelas largas, e um grande espelho na parede principal.
Dizia que queria ensinar as pessoas a “dançar com o coração”, mas, no fundo, talvez ainda buscasse o ritmo que tinha perdido lá atrás.
O tempo, quando passa devagar, muda tudo sem que a gente perceba.
Ele apaga os traços do rosto, muda o tom da voz, mas nunca apaga completamente o que um dia fez o coração bater diferente.
Quando Lia se deu conta, já não era mais a menina de dezesseis anos que ensaiava com o seu velho tênis branco na praça.
Agora tinha vinte e oito anos os cabelo, antes comprido e rebelde, estava curto, com ondas que moldavam o rosto com delicadeza.
O corpo trazia a leveza de quem aprendeu a se equilibrar entre sonhos e cicatrizes.
O olhar, mais firme, escondia histórias que o palco nunca contou
Gui também mudou.
Os anos esculpiram nele uma calma diferente.
Os cabelos mais curtos, mais ainda precisando de corte, o rosto marcado pelo sol, carregava o charme das experiências vividas.
A adolescência rebelde cedeu lugar à serenidade de quem aprendeu a cair e levantar dentro e fora das pistas.
Aos vinte e oito, trabalhava como instrutor de patinação em um projeto social que ele mesmo ajudou a criar.
O galpão onde ensinava tinha cheiro de madeira e tinta spray.
As risadas dos meninos ecoavam no espaço enquanto ele dizia, com o mesmo brilho nos olhos de antes:
— Patins é equilíbrio. E equilíbrio é o que a vida vive tentando testar.
Os alunos o admiravam.
Para muitos, Gui era mais do que um professor, era um espelho.
Mas, às vezes, quando o sol se punha atrás dos prédios e o vento soprava quente, ele parava por alguns segundos, o olhar perdido no horizonte.
E lembrava-se dela.
De Lia.
Da menina que dançava na praça e ria como se o mundo coubesse na palma das mãos.
Um amor que o tempo nunca levou só transformou em lembrança, mas o destino gosta de brincar com quem acredita que já superou.
Em uma noite quente de quinta-feira, Gui recebeu um convite inesperado: apresentar o projeto de patinação no Festival de Cultura Urbana e Movimento, um evento nacional que reuniria dança, grafite e esporte.
Seria em São Paulo, com artistas de todo o país.
Ele aceitou sem pensar.
Seria sua primeira grande apresentação fora do estado o tipo de oportunidade que o menino de quinze anos, com o patins surrado e os joelhos ralados, jamais teria imaginado.
Enquanto isso, em outra cidade, Lia também se preparava para o mesmo evento.
Havia sido convidada para coreografar uma apresentação especial, reunindo jovens bailarinos e estilos de dança contemporânea.
Passava as noites no estúdio, cercada de espelhos, ensaiando cada passo com a intensidade de quem dançava com o passado.
Até que um dia o material do evento chegou, olhando as informações do evento, algo chamou sua atenção.
Um nome, impresso discretamente no rodapé do cartaz:
Curadoria e Exibição de patinação: Gui Andrade.
O mundo pareceu parar.
Os dedos de Lia tremeram, o coração disparou, e o som da chuva lá fora se misturou ao ruído das lembranças.
O tempo se dobrou sobre si mesmo.
Era ele.
Depois doze anos.
Nos dias seguintes, Lia andava inquieta.
Relia o nome no cartaz dezenas de vezes, como se as letras pudessem mudar de sentido.
Procurou o site do evento, e lá estava uma foto em preto e branco.
Gui, com os patins pendurado no ombro e o mesmo olhar firme de antes.
O cabelo mais curto, o sorriso contido, o tempo marcado no rosto.
Mas era ele.
Inegavelmente ele.
O estômago se revirou.
O que diria se o visse?
Será que ele lembrava dela?
Naquela noite, Lia não dormiu, ficou deitada, olhando o teto, sentindo o perfume leve de lavanda do travesseiro e pensando em tudo que poderiam ter sido.
O tempo não apaga, só muda o formato da saudade. O centro da dor continua o mesmo só aprende a bater mais devagar.
Gui também recebeu o material do evento naquele dia.
Sentou-se na varanda de seu apartamento, o notbook nas mãos, o som distante dos grilos enchendo o ar quente da noite.
Percorreu a lista de apresentações com os olhos cansados até que parou.
Coreografia: Lia Montes
O coração pulou no peito.
O mundo girou devagar, como se o tempo se lembrasse de quem um dia eles foram. Colocou o notbook na mesa e respirou fundo.
Doze anos.
Doze anos desde a última carta, o último abraço, o último olhar.
E agora o destino trazia o nome dela de volta, real, ali diante dele.
Ele passou a mão no cabelo, nervoso.
Riu sozinho, entre surpreso e assustado.
O que o tempo estava querendo dizer?
Nas semanas seguintes, os dois se prepararam.
Sabendo que ensaiavam não apenas para o evento, mas para o reencontro mais importante de suas vidas.
Lia ajustava cada movimento da coreografia, buscando perfeição, talvez para provar a si mesma que havia crescido.
Gui revisava suas manobras, tentando mostrar que o garoto que ela conheceu ainda existia, agora mais forte, mais inteiro.
O festival se aproximava e junto dele o reencontro de duas almas que o tempo afastou, mas nunca desfez.
Porque o amor, às vezes, é como o giro de uma roda, pode rodar quilômetros, atravessar anos, mudar de forma, mas sempre encontra o caminho de volta ao ponto de partida.