Quando o Tempo Resolve Esperar

1664 Words
“Há promessas que o vento não leva — apenas guarda pra quando o destino lembrar.” Os dias começaram a passar mais lentos, como se o tempo resolvesse esperar por eles. Era como se cada tarde se esticasse só para caber um pouco mais de riso, de conversa, de presença. Agora, Lia e Gui tinham uma rotina que ninguém havia combinado, mas que os dois já sabiam de cor. Depois da escola, Gui aparecia na esquina, encostado no poste de luz, os patins pendurado no ombro e os fones grandes pendurados no pescoço. A mochila, velha e surrada, trazia o zíper quebrado e um punhado de adesivos de bandas colados às pressas — Nirvana, Blink-182, Charlie Brown Jr. — e rabiscos que ele mesmo desenhava durante as aulas entediantes. Às vezes, fazia sol; às vezes, o céu ameaçava chuva. Mas ele sempre estava ali, girando e cima de 8 rodas devagar, observando as pessoas passarem sem realmente vê-las. Lia vinha logo depois. Correndo, com o cabelo solto, o uniforme um pouco amassado e o moletom azul escuro da escola. O mesmo tênis branco de sempre, gasto nas pontas, que ela insistia em usar para dançar. A mochila balançava nas costas, recheada de cadernos, canetas coloridas, elásticos de cabelo e papéis rabiscados com anotações de coreografias. O mp3 — um modelo azul brilhante — pendia do bolso sempre em um volume alto era quase como um batimento cardíaco que a acompanhava por onde fosse. Quando se encontravam, o mundo parecia se ajeitar. Como se a cidade, com todo o seu barulho e pressa, de repente respirasse no mesmo ritmo que eles. Às vezes, Gui a acompanhava até o portão de casa, andando devagar só pra demorar mais um pouco ao lado dela. Outras vezes, paravam na praça, o mesmo canto de sempre e ficavam sentados no banco de madeira gasto, observando o entardecer pintar o céu de rosa e dourado. Ele deixava o boné ao lado, ela amarrava o cabelo num coque improvisado. E, entre um gole d’água e outro, a conversa se estendia até as luzes da praça começarem a piscar. As pessoas começaram a notar. — Vocês são namorados? — perguntavam os colegas, com sorrisos curiosos, cheios de malícia adolescente. Eles riam, meio sem graça, negando. Mas quando voltavam pra casa, deitados cada um na sua cama, o pensamento era o mesmo. E se estivessem? Lia começou a escrever sobre ele em seu diário de capa lilás, cheio de adesivos de corações e estrelinhas. A letra redonda e miúda enchia as páginas com confidências que ela nunca teria coragem de dizer em voz alta. “Ele é diferente. Parece livre de tudo. Quando anda de patins, é como se o mundo obedecesse a ele. E quando ri, o tempo para por um segundo. Talvez o tempo só precise disso: alguém que o faça sorrir.” Gui, por outro lado, não escrevia, mas guardava. Guardava o bilhete que ela tinha lhe dado semanas antes, dobrado em quatro, no bolso da bermuda jeans. O papel já estava amassado, as letras de caneta azul um pouco borradas, mas ainda legíveis: “Pra quando o chão parecer longe demais, lembre-se de que dançar também é cair e recomeçar.” Ele lia aquilo toda vez que errava uma manobra. Às vezes, quando caía e ralava o joelho, ficava olhando o céu e rindo, lembrando da voz dela dizendo “de novo, vai!”. Era como ouvir a presença dela mesmo de longe, como se o incentivo ficasse grudado no vento. As conversas entre eles começaram a mudar. Agora, iam além das risadas, dos tombos e dos desafios. Falavam sobre o futuro, um futuro que parecia grande demais pra caber naquela praça pequena. — Eu quero entrar nesse conservatório de dança — dizia Lia, o olhar perdido no céu, as mãos brincando com o fio do fone. — Viajar, talvez até dançar fora do país. — E eu quero participar de um campeonato grande, desses que passam na TV — respondeu Gui, chutando uma pedrinha. — Mostrar que patins também é arte. Ela sorriu. — É sim. E você é artista. Só ainda não sabe. Ele desviou o olhar, coçando a nuca. — Artista? Eu? Eu só caio com estilo. — Pois é. Isso é arte também — ela respondeu, rindo. A partir daquele dia, o jeito como ele olhava pra Lia mudou. Era diferente. Como quem percebe, sem querer, que algo dentro da gente já não é o mesmo. As tardes seguintes foram pintadas de uma calma bonita. A praça se tornara o ponto de encontro dos dois mundos o do asfalto e o da música. Gui deslizava pelo chão com os patins fazendo as rodas cantarem. Lia rodopiava ao lado, descalça, o corpo leve, como se a música estivesse dentro dela. Às vezes, trocavam olhares no reflexo do chafariz. Outras, riam alto sem motivo, como se bastasse estarem juntos. Um sábado de sol trouxe algo novo. Lia chegou mais cedo, o mp3 tocando uma música clássica com um toque melancólico. Gui, quando a viu dançar sozinha, ficou parado por um instante. O vento levantava os fios do cabelo dela, e a fita da fita cassete tremia na cintura. Ele pegou a filmadora do pai, um trambolho pesado que usava fitas VHS e começou a gravar. A lente tremia um pouco. Talvez pela falta de prática. Talvez pelo coração batendo depressa demais. — Vai ser legal ver isso quando a gente for velho — ele disse, rindo, enquanto olhava pelo visor. — Acha que a gente ainda vai se ver quando for velho? — perguntou ela, girando devagar, o olhar curioso. Ele hesitou só um segundo, mas respondeu sem pensar: — Claro que sim. — Promete? — ela perguntou, parando de dançar e o encarando. Dessa vez, Gui abaixou a câmera. Olhou pra ela. E assentiu. — Prometo. O vento soprou, levantando o cabelo molhado de suor dela. Por um instante, ficaram apenas se olhando. O mundo pareceu menor. Só havia o som distante da cidade, o bater do coração e o chiado suave da fita tocando ao fundo. Lia sorriu. E o sorriso dela ficou guardado em algum lugar dentro dele. Nos dias seguintes, o tempo seguiu em ritmo de músicas e rodinhas. Eles se encontravam quase todos os dias. Às vezes, só pra conversar. Outras, pra treinar. Lia ensaiava seus passos de dança e pedia que ele contasse o tempo. — Um, dois, três... agora giro, viu? — dizia ela, e Gui ria, batendo palma. — Você conta errado! — ele zombava. — Você que não entende de compasso! — ela devolvia. Gui observava, sentindo algo diferente crescer dentro dele algo que ele ainda não sabia nomear. À noite, deitado na cama, ficava ouvindo as músicas que Lia emprestava gravadas em CDs, com nomes escritos em caneta permanente colorida: “Músicas pra dançar com o vento”, “Pra quando o mundo for pesado demais”. Ele gostava daquela ideia: que as coisas simples também podiam ser eternas, desde que tivessem trilha sonora. O tempo foi ficando mais frio, e as tardes vinham com um vento que trazia o cheiro das árvores molhadas. Lia começou a usar cachecóis, e Gui passou a emprestar o moletom velho, o que tinha o símbolo de uma banda que ela nunca ouvira, mas achava bonito. Um dia no caminho para casa ela perguntou: — Gui, você acredita que as pessoas se encontram por acaso? Ele pensou um pouco, olhando o chão riscado de folhas secas. — Acho que não. Acho que a gente só esbarra em quem o tempo quer que fique. Ela sorriu, e o silêncio que veio depois não precisava de mais nada. As semanas seguintes foram uma sequência de pequenos milagres. O jeito como ela o esperava na esquina. O modo como ele sempre trazia um chocolate escondido no bolso “pra dar sorte”. Os CDs que ela gravava com novas músicas e entregava como se fosse nada demais. Os bilhetes deixados no banco da praça, dobrados, com frases que só os dois entendiam. Era um amor em construção, ainda sem nome, ainda tateando o próprio espaço. Mas já havia um laço ali, firme e invisível. Algo que o tempo começava a registrar, devagar, como se escrevesse em uma fita que não podia ser apagada. Numa tarde de céu laranja, Gui chegou atrasado. Lia já estava ali, dançando sozinha, os fones no ouvido. Quando o viu, parou e riu. — Achei que tinha me esquecido. — Eu? Nunca. Só perdi a hora. — Você sempre perde a hora. — É porque o tempo corre diferente quando é pra te ver. Ela fingiu não entender, mas o coração deu um salto. E quando ele se aproximou, ela percebeu o quanto gostava daquele sorriso desajeitado, daquele olhar que parecia dizer o que ele ainda não sabia falar. O sol foi descendo, o vento ficou frio. Ele pegou os patins e o colocou entre os dois. — Anda, tenta — disse ele. — Eu? — Lia arregalou os olhos. — Eu vou cair. — E daí? — respondeu Gui, estendendo a mão. — Dançar também é cair e recomeçar, não é? - Talvez outra hora, preciso das minhas pernas inteiras para audição. Na manhã seguinte, o céu amanheceu limpo. O vento soprava leve, e a praça ainda guardava marcas das poças da chuva da véspera. Lia chegou primeiro, os fones no ouvido, dançando devagar. Gui veio logo depois, trazendo um refrigerante e duas balas de morango. — Pra repor as energias — ele disse. Ela riu. — A gente vai precisar de muita energia ainda. Ele não entendeu completamente, mas guardou a frase. Talvez, no fundo, ambos soubessem que o tempo, mesmo quando parece esperar, um dia volta a correr. Mas naquele instante, não havia pressa. Nem futuro, nem passado, só o agora. A música dela misturada ao som das rodas dele. Dois corações descobrindo, sem perceber, o que era amar pela primeira vez.
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