Quando o Tempo Aprendeu a Esperar

1602 Words
O tempo passou rápido demais. Rápido como o giro das rodas dos patins descendo a ladeira, como o passo leve de uma dança que termina antes que a música acabe. Parecia que o outono anterior tinha sido ontem, o dia em que um patinador atrevido interrompeu uma menina sonhadora na praça. Agora, seis meses depois, era impossível imaginar aquele lugar sem os dois. A praça já os conhecia: os risos misturados com o som das rodinhas riscando o chão, as conversas intermináveis sentados no mesmo banco, o brilho no olhar quando um chegava antes do outro. Era como se aquele pedaço de mundo tivesse sido feito pra caber os dois. Lia e Gui tinham seus rituais. Os encontros no fim da tarde, o refrigerante morno dividido no mesmo canudo, as risadas que ecoavam no parquinho vazio. As cartas trocadas nos intervalos da escola, cheias de garranchos, corações e palavras que só faziam sentido entre eles. Às vezes um bilhete escondido no estojo, outras, entregue por amigos cúmplices, disfarçando o sorriso. Era um tempo sem pressa. Um tempo em que o amor nascia devagar, nos gestos pequenos, no toque rápido das mãos ao se cumprimentarem, no olhar que demorava um segundo a mais, nas ligações noturnas ao som da linha chiando. — Desliga, Lia! A conta vai vir alta! — gritava a mãe da sala. E ela, com o coração acelerado, respondia baixinho: — Só mais cinco minutos… Mas cinco minutos nunca eram o bastante. Quando a casa dormia, ela pegava o telefone sem fio, abaixava o volume do toque e escondia debaixo do travesseiro, esperando. À meia-noite em ponto, ele ligava. Ela, deitada na cama com o abajur aceso, o cabelo preso num coque frouxo. Ele, no chão do quarto, os patins jogados em baixo da cama e os olhos perdidos no teto. Falavam de tudo e de nada. De sonhos, de medos, de músicas, de um futuro que pareciam acreditar poder inventar juntos. — Você acha que a gente vai ser diferente das outras pessoas? — ela perguntou uma noite. — Acho — ele respondeu sem hesitar. — Porque a gente já é. O som das vozes misturado à estática do telefone criava uma espécie de silêncio confortável, um refúgio que só os dois conheciam. A audição de Lia se aproximava, e ela ensaiava todos os dias. A cada manhã, o corpo dela se movia como se o ar tivesse virado música. Gui, agora seu confidente oficial, acompanhava cada ensaio. Às vezes carregava a mochila dela; outras, filmava com a velha filmadora do pai, uma relíquia que ele cuidava como se fosse tesouro. Fingia desinteresse, mas não perdia um único movimento. Ela usava calça larga, top esportivo e um sorriso que se tornava parte da coreografia. O r**o de cavalo balançava como uma extensão do ritmo, e o suor brilhava no pescoço. Gui observava em silêncio, com aquele olhar escuro e profundo, tentando entender como alguém podia transformar música em corpo, e corpo em sentimento. Não dizia nada, mas dentro dele, algo se movia algo novo, incômodo e bonito demais pra caber no peito. A audição exigia uma gravação: Lia precisava enviar um vídeo dançando uma coreografia inédita. Foi Gui quem insistiu em ajudar. — Eu cuido da filmagem — disse, com uma confiança que disfarçava o nervosismo. — Quero registrar a sua estreia. E naquele dia, sob o sol das quatro da tarde, Lia dançou como nunca. Leve, precisa, entregue. A cada giro, parecia voar. A cada pausa, fazia o tempo parar. Gui, atrás da câmera, tremia sem saber se era emoção ou medo. Medo de que ela fosse embora. Medo de que o mundo fosse grande demais pra ela ficar ali, com ele. Quando a música terminou, Lia se aproximou, ainda ofegante. Os olhos brilhavam, o rosto corado de esforço e alegria. — Ficou bom? Gui a olhou por um segundo que durou uma eternidade. — Ficou perfeito — respondeu, com a voz rouca demais pra disfarçar o que sentia. Naquele instante, ele percebeu. O coração já não era dele. Os dias seguintes ganharam uma cor diferente. As risadas pareciam mais suaves, as caminhadas até a praça mais longas. Havia uma ansiedade boa, quase imperceptível, que os fazia querer estar juntos o tempo todo mesmo em silêncio. Gui começou a reparar em como Lia franzia a testa quando se concentrava. Lia começou a notar como ele mordia o lábio ao tentar acertar uma manobra. E o silêncio entre eles começou a dizer mais do que qualquer palavra. Às vezes, apenas sentavam no chão da praça, dividindo o fone do MP3. O som era baixo, os fios cruzados entre eles, as músicas alternando entre o gosto dos dois. Ela mostrava canções de dança contemporânea; ele faixas de punk e rock que dizia “ter alma”. De algum modo, tudo se misturava bem como se a trilha sonora dos dois tivesse sido feita para tocar junto. Num domingo de vento morno, o céu se pintava de dourado e lilás. Sentaram-se no banco de sempre. Ao longe, uma música suave escapava do rádio de um carro estacionado. Gui mexia nas correntes da calça, nervoso. — Você vai rir — começou. — Mas… às vezes, quando você dança, eu esqueço de respirar. Lia virou o rosto, surpresa, o coração batendo forte demais. — E eu, às vezes, quando te vejo andar de patins… esqueço do chão. Riram, envergonhados. O silêncio que veio depois não era vazio, era cheio de nervosismo, calor e descobertas. O vento soprou leve, espalhando os fios de cabelo dela pelo rosto. Gui se aproximou, devagar. O olhar buscava permissão. Ela não recuou. E então aconteceu. O primeiro beijo. Breve, doce, desajeitado como tudo o que é verdadeiro pela primeira vez. O mundo pareceu parar. O vento soprou mais devagar. E o coração dos dois, por um instante, bateu no mesmo ritmo. Depois daquele dia, tudo mudou sem que precisassem dizer. As mãos passaram a se encontrar sem esforço, as cartas ganharam novas palavras, mais sinceras, mais inteiras. Os encontros ficaram mais demorados, e as despedidas, mais difíceis. O tempo entre um “oi” e um “tchau” parecia insuficiente. Gui começou a desenhar Lia no caderno, escondendo os rabiscos entre as folhas de matemática. Lia começou a escrever poemas sobre ele, em letras miúdas, no diário lilás de capa gasta. “Quando ele sorri, o ar muda de lugar.” “Talvez amar seja isso: querer ficar mesmo quando o silêncio é tudo o que existe.” Essas frases nunca chegaram até ele, mas, de algum modo, Gui parecia sentir o que ela escrevia. Porque os olhares entre os dois começaram a carregar um tipo de ternura que dispensava explicações. A fita da audição foi enviada, e os dias seguintes se tornaram uma espera silenciosa. Lia tentava fingir calma, mas cada toque do celular a fazia prender o fôlego. Gui acompanhava tudo, em silêncio, fingindo tranquilidade. Mas à noite, deitado na cama, imaginava o que aconteceria se ela passasse. Se fosse embora. Se ele ficasse ali, com a praça e o patins, sem ela. Na virada do ano, trocaram presentes simples, mas cheios de significado. Lia deu a Gui um boné preto, com o nome dela escrito por dentro, em canetinha colorida. — Pra que eu nunca saia da sua cabeça — disse, sorrindo. Gui riu, meio sem graça, mas usou o boné no mesmo instante. Ele, por sua vez, deu a Lia um chaveiro em forma de patins, com as iniciais “L + G” gravadas à caneta. — Pra te acompanhar quando eu não puder. Ela pendurou o chaveiro na mochila, e por um segundo, ficou olhando pra ele, como quem grava uma lembrança. Ele a abraçou forte, sem pensar, sem pedir. Foi um abraço demorado, inteiro, cheio de orgulho e de medo. Ela sentiu o coração dele bater acelerado contra o peito. E soube, ali, que não importava o que acontecesse eles estavam ligados. À meia-noite, cada um olhou pro céu da própria casa. Separados por algumas ruas, mas conectados pelo mesmo pensamento. Dois corações batendo em sintonia, sob o mesmo céu de fogos e promessas. Gui escreveu, num papel amassado: “Prometo não te deixar. Nunca.” Lia respondeu, no verso: “Prometo te esperar. Sempre.” Eles acreditavam. Porque o primeiro amor é sempre uma certeza. E o futuro, apenas um papel em branco esperando ser desenhado a dois. Nos dias seguintes, nada parecia comum. As músicas soavam mais bonitas, as tardes mais longas, os pequenos detalhes mais vivos. Quando Lia ouvia as faixas do CD que ele havia gravado pra ela com canções rabiscadas de títulos no encarte, “pra quando você sentir saudade”, sorria sozinha. E quando Gui via o chaveiro balançando na mochila dela, sentia como se tivesse deixado ali uma parte de si. Era como se o tempo, por um breve instante, tivesse aprendido a esperar por eles. Mas o tempo, caprichoso como é, nunca espera pra sempre. Ainda assim, naquela fase, tudo parecia possível. E talvez fosse mesmo. Porque há amores que começam pequenos, tímidos, escondidos entre risadas e promessas. Mas crescem, mesmo sem querer, até se tornarem a lembrança mais bonita que o coração aprende a guardar. E enquanto o novo ano se desenhava lá fora, Lia e Gui seguiam acreditando que o mundo cabia dentro de uma praça, que o amor podia durar pra sempre, e que o futuro, de algum modo, os esperaria de volta. O tempo, às vezes, não passa ele apenas muda de forma, guardando no silêncio tudo o que o amor ainda tem coragem de prometer.
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