O Dia em que o Tempo se Desfez

1330 Words
O ano era novo, mas os hábitos eram antigos. Na semana seguinte, eles voltaram à praça, o mesmo chão gasto, o mesmo banco de madeira, as mesmas árvores que pareciam guardar segredos de um tempo que só existia entre os dois. Lia dançava para aliviar a ansiedade da espera pela resposta da audição. Cada passo, cada giro, era uma forma de conter o turbilhão dentro dela. O MP3 tocava uma batida suave, o tipo de música que a fazia esquecer o resto do mundo. As mãos seguiam o ritmo, os pés deslizavam pelo chão de pedra, e o vento brincava com os fios soltos do cabelo. Gui, um pouco mais adiante, tentava uma nova manobra. Caía mais do que conseguia, mas insistia como se cada tentativa fosse uma forma de não pensar em nada além dali. Os patins riscando o chão fazia um som seco, que se misturava à música dela. Um diálogo sem palavras, onde o corpo falava tudo o que o coração ainda não sabia nomear. Quando o sol começou a se pôr, os dois se deitaram lado a lado na grama, olhando o céu que se tingia de azul profundo, salpicado de estrelas. O ar tinha cheiro de terra úmida e o zumbido distante de grilos anunciava a chegada da noite. — Acha que o tempo muda as pessoas? — Lia perguntou, num sussurro. Gui pensou por um instante, o olhar perdido nas nuvens que ainda guardavam um pouco da luz do entardecer. — Acho que o tempo só muda o jeito que a gente sente — respondeu ele. — Mas o que é de verdade… fica. Lia sorriu, encostando a cabeça no ombro dele. Gui passou o braço por cima dela, num gesto natural, quase inconsciente. O silêncio entre eles era confortável daqueles que não precisam ser preenchidos, porque já dizem tudo. Depois de um tempo, ela ergueu o rosto e perguntou, com um brilho tímido nos olhos: — Você está sabendo da festa da cidade na semana que vem? Ele fez que sim com a cabeça, girando um galho fino entre os dedos. — Tô. Aquela com fogos e barracas, né? Lia assentiu. Para ela, aquela seria a primeira festa juntos o primeiro “namoro público”, como as amigas brincavam. Estava empolgada há dias. Já havia escolhido o que vestir: calça jeans, tênis branco e uma blusa azul-clara que fazia seus olhos parecerem ainda mais castanhos, quase dourados sob a luz. Queria estar bonita, mas ainda parecer “ela mesma”. Gui fingiu desinteresse, mas por dentro, contava os minutos. — Festa é tudo igual — disse ele, jogando o galho para o lado. — Música alta, gente suando e cheiro de milho queimado. Talvez eu apareça por lá. Lia apenas riu, mas o coração bateu mais rápido. Aquela resposta simples era o suficiente para ela imaginar o momento os dois juntos sob as luzes coloridas, o cheiro de pipoca e o som das músicas do verão. O dia da festa chegou. O vento leve da noite trazia o perfume das árvores e o murmúrio distante das vozes animadas. A praça central estava diferente banhada por luzes piscantes, decorada com bandeirolas coloridas que balançavam sob o brilho dos postes. Barracas de comidas espalhavam cheiros de pipoca, pastel e algodão-doce. Lia chegou acompanhada das amigas. O coração acelerava, as mãos suavam dentro dos bolsos da jaqueta jeans. Procurava Gui entre a multidão. Cada rosto conhecido fazia o coração disparar, mas ele não estava. Fingiu não ligar, mesmo sentindo o peito apertar. Riu das piadas das amigas, fingiu se distrair com os brinquedos e as músicas, mas por dentro, tudo nela esperava. Enquanto conversava, Felipe um garoto simpático do colégio se aproximou, sorrindo. — Ei, Lia! — disse ele, animado. — Tô sabendo que você fez a audição pro conservatório de dança de São Paulo. Já recebeu a resposta? — Ainda não — respondeu ela, tentando disfarçar a ansiedade. — Sai só no fim do mês. — Tenho certeza que você vai conseguir — disse ele, tocando de leve o braço dela, num gesto rápido de apoio. — Você dança demais. — Obrigada — Lia sorriu, com um leve rubor nas bochechas. — Espero que você esteja certo. Foi nesse instante que Gui chegou. O boné que ela havia lhe dado estava virado para trás, a expressão tensa. De longe, viu o toque leve de Felipe no braço dela, o sorriso, a proximidade. Foi o bastante. O ciúme veio rápido. Quente. Cego. Ele se aproximou, o maxilar travado. — Tá se divertindo? — perguntou, num tom que Lia nunca tinha ouvido antes. Ela se virou, surpresa e feliz por vê-lo ali. — Achei que não vinha! — Eu prometi, não prometi? — respondeu ele, seco. Felipe percebeu o clima e se afastou, desconfortável. Lia cruzou os braços, tentando entender o que estava acontecendo. — O que foi isso, Gui? — Nada. — Ele desviou o olhar. — Só achei que você tivesse vindo comigo. — Com você? — Ela ergueu o queixo. — Até onde lembro, você esqueceu de passar pra me buscar. Nem me convidou pra vir. Me deixou sozinha. O silêncio caiu pesado entre eles. O som do pagode vindo do palco parecia distante agora. As risadas, os gritos, tudo se apagava ao redor. — Eu só… — Gui começou, mas a voz falhou. — Esquece. — Não, não vou esquecer — respondeu Lia, firme. — Você chega aqui todo alterado por nada. Isso é ridículo! Gui respirou fundo, a raiva e o orgulho se misturando. — Ridículo é ver minha namorada toda à v*****e conversando com outro. A frase veio como um soco. Algumas pessoas olharam, curiosas. Outras cochicharam. Lia sentiu o rosto queimar, o coração despencar. — Se você não confia em mim, é melhor nem continuar. Ele hesitou. A v*****e de pedir desculpas lutava com o orgulho que o sufocava. E, por fim, o orgulho venceu. — Talvez você tenha razão — disse ele, a voz fria. O mundo pareceu silenciar. Lia piscou rápido, tentando conter as lágrimas que ardiam nos olhos. Virou as costas e saiu. O som da música ficou distante, misturado ao bater acelerado do próprio coração. Lia tentou seguir com as amigas. Riu das piadas, dançou um pouco, bebeu refrigerante, mas o riso era f*****o. O peito doía. As luzes piscavam sobre seu rosto, e tudo parecia girar depressa demais. Olhou em volta, procurando por ele, mas Gui não estava mais ali. O g***o no palco começou a tocar uma nova música, um pagode leve, romântico, com versos sobre perder um amor no fim da noite e esperar uma volta que talvez nunca aconteça. Lia se deixou levar pela melodia. O refrão parecia escrito pra ela. O som ecoava pela praça e as luzes se tornaram borrões coloridos. Ela tentou segurar o choro, mas as lágrimas vieram quentes, silenciosas. O coração doía de um jeito novo, aquela dor de quem perde o primeiro amor e ainda não entende o porquê. As amigas a abraçaram, tentando consolar. Mas nada preenchia o vazio daquele instante. Não haveria ligação mais tarde. Nem bilhete na segunda-feira. Nem ele esperando na praça no sábado à tarde. O mundo seguiu girando, mas pra ela, aquela noite ficou parada no tempo. Um pedaço de si ficou ali entre as barracas de comida, o cheiro de pipoca e o refrão daquela música. O amor adolescente deles havia tropeçado. E o que restou foi o eco suave da canção, o brilho borrado das luzes da festa e o gosto salgado das lágrimas que Lia prometeu que ninguém veria cair. E, em algum canto da cidade, Gui seguia sozinho, o boné dela nas mãos. O som distante da festa chegava como um fantasma. Ele fechou os olhos e sussurrou o que não teve coragem de dizer: — Desculpa, bailarina. Mas o vento levou as palavras antes que chegassem até ela. E, naquela noite, o tempo, que sempre parecia girar a favor deles, simplesmente se desfez.
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