“Há encontros que começam sem pressa, mas que o tempo insiste em guardar no mesmo compasso.”
O sol voltava a se deitar por trás das árvores da praça, espalhando um brilho dourado sobre tudo. As folhas no chão pareciam pequenas chamas tremendo com o vento leve. O ar cheirava a pipoca recém-feita, e as risadas se misturavam ao som distante de uma bola quicando e um cachorro latindo em algum quintal próximo.
Lia chegou com a garrafa de água na mão e o mp3 pendurado no bolso da calça jeans com sua playlist da semana.
Gui já estava lá.
De pé sobre os patins, equilibrava-se com naturalidade, fazendo as rodas girar de um lado pro outro. O boné virado pra trás escondia parte do rosto, mas o sorriso aparecia sempre que ele acertava uma manobra.
Havia algo nele que misturava bagunça e leveza, como se cada movimento fosse improvisado e, ao mesmo tempo, inevitável.
Quando Lia se aproximou, ele fingiu não notar.
Mas assim que ela ligou o mp3 e colocou os fones, ele lançou o comentário de sempre:
— De novo aqui, bailarina?
— De novo aqui ameaçando os velhinhos patinador? — respondeu ela, o mesmo meio sorriso escapando antes que pudesse evitar.
Desde aquele primeiro encontro desastrado, os dois pareciam presos a uma rotina inventada. Nenhum deles combinava nada, mas todo fim de tarde os dois apareciam.
O canto largo da praça, de chão liso e sombra generosa, era perfeito para dançar e, por coincidência (ou destino), o mesmo canto que Gui e os outros patinadores usavam.
O “ritual” começava sempre igual:
Lia colocava a mochila num canto, ajeitava o cabelo, ligava o mp3 e deixava a música tomar conta.
Gui, fingindo distração, passava manobrando bem perto, raspando o chão e fazendo a poeira subir.
Nos primeiros dias, m*l trocavam olhares.
Ela, concentrada nos giros, nos saltos e na postura.
Ele, tentando aperfeiçoar um salto ou um giro errando mais vezes do que admitiria.
Mas, aos poucos, o silêncio começou a ganhar som de conversa.
— Você ensaia pra quê mesmo? — perguntou Gui um dia, sentado na borda do chafariz, enxugando o suor com a camiseta.
— Pra uma bolsa de estudos — respondeu Lia, sem parar de se mover. — Quero entrar num conservatório de dança, em São Paulo.
Gui arqueou uma sobrancelha.
— Conservatório? Tipo... de música?
Ela riu.
— De dança. Um lugar pra quem quer ser profissional.
— Profissional? Tipo... viver dançando?
— Sim. — Ela girou sobre o calcanhar, leve. — E você? Vai ser patinador profissional?
Gui deu de ombros. — Talvez. Ou professor. Ainda não sei.
Lia ajeitou o fone e sorriu.
— Então temos algo em comum. Nenhum dos dois quer parar de se mover.
A frase ficou suspensa entre os dois, como se o vento tivesse parado para escutar.
Nos dias seguintes, a praça virou o palco deles.
Falavam sobre tudo: música, escola, sonhos.
Lia mostrava passos inspirados em trechos de músicas clássicas; Gui dizia que preferia rock pesado, mas, no fim, confessava que ela “tinha estilo”.
E, sem perceber, começaram a aprender um com o outro.
Quando Lia errava um passo, Gui batia palmas, provocando:
— De novo, vai! Tá quase.
Quando ele caía, Lia ria até chorar — mas aplaudia quando ele conseguia.
O tempo passava de um jeito diferente ali.
As tardes se estendiam preguiçosas, e o sol parecia gostar de se demorar, pintando o chão de um dourado quente.
Aos poucos, os dois aprenderam a se reconhecer nos pequenos gestos: no jeito de prender o cabelo, no som das rodinhas no cimento.
Uma tarde, o céu escureceu de repente. As nuvens vieram densas, rápidas, e uma chuva fina começou a cair. As pessoas correram, se abrigando sob as marquises.
Mas Lia e Gui ficaram.
Ela riu, levantando o rosto para o céu, os fios loiros grudando na testa.
Ele deslizava os patins sobre as poças, fazendo a água espirrar.
— Você é louco! — gritou ela, tentando se equilibrar entre risadas.
— E você é corajosa demais pra uma bailarina! — ele respondeu, deslizando ao redor dela como se a chuva fosse parte da coreografia.
A música ainda tocava no fone de Lia, abafada pelo som da chuva.
Ela dançava molhada, sem se importar.
Ele a observava, encantado os patins deslizando lento, o olhar preso nela.
Era como se o mundo tivesse parado por alguns minutos.
A chuva, a música, os passos tudo parecia acontecer num mesmo compasso.
Quando o sol voltou, filtrado pelas nuvens, Lia parou, ofegante, e empurrou o cabelo para trás.
Gui se aproximou devagar, os olhos escuros brilhando com algo novo.
— Sabe... você dança até quando o mundo desaba.
Ela sorriu, arqueando uma sobrancelha.
— E você consegue s e manter em pé até quando o chão escorrega.
Os dois riram, cúmplices.
O silêncio que veio depois foi doce e confortável.
A partir daquele dia, a praça deixou de ser apenas um lugar.
Virou ponto de encontro sem hora marcada, sem promessa.
Lia passou a chegar sempre com uma nova playlist diferente a cada semana, às vezes melancólica, às vezes leve, às vezes uma mistura confusa de tudo.
Gui aparecia com os patins pendurada no pescoço pelos cadarços e uma garrafa de refrigerante, dizendo que era “pra repor energia”.
Ficavam ali por horas, vendo o céu mudar de cor, dividindo histórias e risadas.
De vez em quando, algum amigo de Gui passava e gritava:
— Ih, Gui! A bailarina de novo!
Ele só ria, dando de ombros. Lia fingia não ligar, mas o coração acelerava.
Em casa, Lia criava passos novos pensando nas manobras que via dele.
Gui, por sua vez, tentava deixar as manobras mais leve, quase dançando sobre os patins, copiando o jeito dela de se mover.
Sem perceberem, estavam trocando pedaços de si, nos passos, nas quedas, nos sorrisos.
Certa tarde, o vento soprava diferente.
O sol ainda alto tingia tudo de um amarelo quase líquido. Lia chegou um pouco mais tarde que o habitual, ofegante, o cabelo preso às pressas.
Gui já estava sentado no banco, mexendo em algo no bolso.
Quando ela se aproximou, ele levantou e estendeu uma folha dobrada.
— Toma.
Lia olhou curiosa. A letra era meio torta, meio bonita:
"Pra quando você quiser dançar sem música. Me encontra aqui."
Ela levantou o olhar, sem saber o que dizer.
— Isso é... um convite?
— Talvez. — Ele coçou a nuca, envergonhado. — Ou um desafio.
Lia dobrou o bilhete com cuidado e guardou no bolso do moletom.
Não respondeu. Mas o sorriso que deu foi o tipo de resposta que não precisa de palavras.
Aquela parte da praça, a partir dali, tinha dono.
Ou melhor tinha dois corações batendo no mesmo ritmo.
A noite começou a cair. As luzes da praça se acenderam uma a uma, espalhando um brilho amarelado. Um vento frio soprou, trazendo o cheiro de pipoca doce.
— Já tá tarde — ela disse, olhando o relógio digital de pulseira. — Eu preciso ir.
— Onde você mora? — Gui perguntou.
— Aqui perto, próximo ao colégio.
— Então te acompanho até lá.
— Não precisa — respondeu ela, mas o sorriso denunciava que ela queria que ele fosse.
Eles caminharam juntos, falavam de tudo e de nada, dos professores, das músicas da rádio, dos filmes que passavam na Sessão da Tarde. Descobriram que ambos odiavam matemática, adoravam chocolate e passavam horas escolhendo músicas novas para o mp3
Quando chegaram à esquina da casa dela, pararam.
— Então… — ele começou, tentando parecer casual. — Amanhã você vem dançar de novo?
— Talvez — respondeu ela, prendendo uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Vou encarar isso como um sim— disse ele, com um meio sorriso.
Ela riu e deu um passo para trás.
— Boa noite, Gui.
— Boa noite, bailarina.
Lia entrou pelo portão e olhou para trás uma última vez. Ele ainda estava lá, parado, com os patins pendurados no ombro, olhando para ela.
Por um segundo, o tempo pareceu se esticar como se o universo inteiro quisesse guardar aquele instante.
Quando ela fechou o portão, percebeu que ainda sorria.
Lá dentro, a mãe perguntou como tinha sido o ensaio. Lia respondeu “normal”, mas o coração dela sabia que nada mais seria tão normal assim.
Gui, por sua vez, seguiu devagar pela rua. O vento frio batia no rosto, e ele pensava no jeito como ela ria, no brilho dos olhos dela, na leveza dos passos. Não sabia o nome completo dela, nem o número de telefone, mas algo dentro dele dizia que aquele encontro não tinha sido por acaso.