Penso em quanto tempo faz que não me interesso por ninguém, com todo esse turbilhão em casa m*l sobra ânimo e tempo para essas coisas.
— Devia saber o significado de "ser pontual". – Levanto o olhar, Bernardo está possesso, seu rosto está vermelho de raiva. Ele puxa uma das duas cadeiras em frente a minha mesa de forma impaciente e se senta.
— Perdão. — Ajeito a postura. Ele n**a, ainda irritado.
— "Perdão" vai compensar sim, com certeza.
Giro uma caneta com os dedos.
— Minha mãe tem seis meses de vida. — Levanto os olhos para encará-lo, sua expressão assume o choque. — O médico ligou ontem, não tem mais o que fazer. — Largo a caneta, tento pressionar o espaço entre minhas sobrancelhas para me acalmar.
Bernardo engole seco, muda a postura e passa a mão no rosto, perplexo. Somos amigos desde que tínhamos 8 anos, éramos vizinhos e mesmo depois de mudarmos continuamos a amizade.
Além de amigos agora somos sócios.
Juntamos as empresas há aproximadamente três meses e isso nos fez crescer absurdamente, ele tinha a incorporadora e eu a construtora. Ele também tem um vínculo especial com Helena.
— Tem certeza disso? — Ele junta as sobrancelhas, está em negação, como estive mais cedo.
— Tenho. — Ele suspira e levanta de sua cadeira, dá algumas voltas pela sala.
— Queria ter mais a fazer ou a falar agora, Ryan. Mas eu não tenho, me desculpe. Meu Deus, estou em choque. — Bernardo se aproxima e apóia suas mãos no encosto da cadeira onde antes estava sentado. — Sabe que estou aqui para vocês.
Eu concordo com um aceno.
— Como você está? —
Jamais seria possível expressar como estou.
— Péssimo.— Encaro seus olhos verdes — Mas tomei uma decisão...
Sinto um nó se formando em minha garganta e desvio os olhos para a caneta de novo, preciso me manter forte agora, estou no trabalho, não posso chorar como um bebê.
— Vou aproveitar bem esse tempo. Levá-la para passear, passar mais tempo com ela, fazer suas vontades e trabalhar menos.
— Claro. — Ele concorda fervorosamente.— Se precisar que eu assuma algumas das suas responsabilidades eu faço.
— Provavelmente vou precisar. — Ficamos alguns segundos em silêncio e decido mudar o assunto. — Acertamos isso depois, hoje vou ficar só até o meio dia. Veio falar sobre os contratos, não foi?
— Sim, mas agora...— Ele dá a volta na cadeira e se senta.
— Vamos trabalhar, Bernardo. — O tranquilizo. Preciso me distrair e seu olhar de pena direcionado a mim me incomoda.
Trabalhamos até o meio dia, discutimos alguns grandes contratos, falamos sobre o processo de juntar as empresas, a maior parte já foi feita e ele já tem uma sala só para ele aqui. Com a junção dos empregados talvez precisaremos mudar para um prédio maior.
Bernando insiste em ver minha mãe, e enquanto estamos no carro eu o alerto que ela não sabe da sentença do médico.
— Não vai contar a ela? — Ele fica surpreso com a idéia.
— Não.— Aperto o volante um pouco mais.— Não quero assustá-la, além disso quero preservar ao máximo sua saúde emocional. Uma depressão seria terrível.
— Entendo. — Vejo ele concordar com a visão periférica. — Mas se eu tivesse pouco tempo de vida ia querer saber, para...
Ele para de falar quando o encaro duramente, tomei essa decisão pensando no melhor para ela, talvez não fosse o ideal, mas que d***a seria ideal nessa situação? Essa maldita doença não é o ideal para ninguém. Quando volto a olhar para o trânsito ele continua com mais cautela.
— Você sabe... Para fazer tudo que sempre quis fazer, coisas que gostaria de fazer na vida e essas coisas.
Respiro fundo.
— Só estou pensando no melhor para ela. E eu vou fazer isso, as coisas que ela mais gosta. Ela só não vai saber que tem pouco tempo.
Acredito que a reação de Helena ao receber uma notícia dessas seria péssima. Não posso deixar isso acontecer, se ela tem que ir, que vá feliz e não em depressão e desespero.
Chegamos no condomínio e só no corredor do apartamento percebo que esqueci a chave da porta na empresa. Toco a campainha ainda com Bernardo rindo de mim, me controlo para não socá-lo, sei que esse é seu jeito de tentar me fazer sentir melhor. Bernardo é desses que mesmo na pior tira sarro da situação.
Para minha surpresa quem vem abrir a porta não é Jamily e sim Helena.
Dou-lhe um abraço ao entrar, ela está sorrindo e aparentemente sem nenhuma dor, o que é uma surpresa já que ela teima em não tomar a dosagem correta dos comprimidos, diz que eles vão acabar com seu estômago.
Ela tem razão, mas são necessários e o doutor assegurou que a dosagem é segura, o problema é que dona Helena acha que sabe mais que o médico, desconfio também ela queira diminuir a dose para que a sonolência diminua e ela possa ficar mais tempo acordada.
— Trouxe visita. – Anuncio e ela abre um sorriso enorme, seus olhos brilham em expectativa mas logo as bochechas coram.
— Ah, meu filho. Eu nem me arrumei. – Ela olha para suas roupas e eu n**o. Odeia que a vejam sem a produção toda que faz para receber visitas, incluindo maquiagem para dar um "ar de saúde " como diz.
— Não precisa. — Assim que saio da frente de Bernardo ela o avista, o sorriso diminui drasticamente, ela pisca algumas vezes e as sobrancelhas se juntam em uma careta engraçada.
— Pensei que fosse uma mulher, Ryan. Mas tudo bem.
— Assim vou pensar que não quer me ver, tia. — Bernardo abre os braços para abraçá-la e finge estar ofendido.
— Claro que não, menino. Vê se posso com uma coisa dessas? — Ela o abraça e o enche de perguntas sobre seus pais e sua vida amorosa, ainda tenta arrumar o cabelo com as mãos mesmo.
Me sento no sofá e observo os dois indo até a cozinha e depois voltando com petiscos. Ela sempre teve essa mania de querer casar os outros e Bernardo não é excessão, seria mais fácil casá-lo do que eu. Ele com certeza quer sossegar em algum momento e só ainda não o fez porque não se apaixonou por ninguém ainda, ou melhor, ele se apaixonou uma vez mas o final não foi bom.
Bernardo cresceu em uma realidade diferente da minha, aposto que logo estará amarrado, digo, casado.
Almoçamos juntos e um pouco depois da uma da tarde Bernardo vai embora, ainda passamos pelo início de uma crise de dor, que é contida com um remédio extra antes que piore, Helena dorme por mais duas horas antes de finalmente conseguirmos tomar o café e assistir as novelas.
Ela ri das cenas engraçadas, me conta as histórias por trás das cenas que não entendo, logo chega a hora de outro remédio e ela teima com a enfermeira que não quer tomar. Leva um tempo para que eu a convença, ligo para o doutor pela milésima vez e ele explica de novo que ela pode tomar e que vai apenas dormir.
Após um certo esforço ela aceita tomar o remédio e entra em um sono profundo minutos depois, não acorda para o jantar, dispenso Jamily e acabo comendo sozinho.
Pensar que é assim que vou estar daqui a algum tempo porque não a terei mais parte meu coração.