CAPÍTULO 1
Morena Flor Narrando
Dizem que amor é coisa bonita, que cura, que acolhe. Eu aprendi cedo que amor é mentira. Amor é a coisa mais dolorida que existe.
Eu fui filha adotiva, criada num lar que nunca me pareceu meu. Cresci no meio de gritos, tapas, desprezo. O meu corpo todo tem marca, mas a pior cicatriz fica aqui dentro, no peito, que ficou quebrado muito antes de eu conhecer o mundo. Aos dezoito anos, eu não aguentei mais. Juntei o pouco que tinha e fugi. Fui tentar a vida no Salgueiro, achando que longe dali eu ia ser feliz, que ia encontrar paz.
Que ingenuidade a minha.
Eu caí num mundo muito pior do que o que eu deixei. E foi lá, no meio do barulho, da luz colorida e do som alto, que eu cruzei com ele. Lenon.
O dono do morro. O dono de tudo. E em pouco tempo, ele também se tornou dono de mim.
Ele chegou chegando, com aquele olhar que parecia ver através da gente, com aquela pose de quem manda. Eu me entreguei sem pensar, sem medir consequências. Amando ele como eu nunca pensei que fosse capaz de amar alguém. Casei. Vivi três anos ao lado dele, achando que no meio daquele inferno, ele era o meu paraíso, a minha proteção. Eu me sentia segura. Eu me sentia amada.
Mas eu esqueci de uma coisa: amor de bandido tem prazo de validade. E o meu venceu. Da pior maneira possível.
Numa tarde, numa missão da facção, o cerco fechou de vez. O BOPE na cola, tiro pra tudo quanto é lado, fuga, desespero. A polícia cercou tudo. Nós corremos, mas não teve jeito.
Ele escapou.
E eu fiquei.
Sozinha. Jogada como um objeto sem valor. Como lixo.
Me algemaram, me arrastaram, me jogaram dentro da viatura. Fui acusada de tráfico, de associação, de tudo quanto é crime. E na hora do julgamento, quem estava lá para me defender? Ninguém. O advogado que ele prometeu nunca apareceu.
Condenada a dez anos de prisão. Dez anos num presídio de segurança máxima aqui no Mato Grosso, longe de tudo, longe de todos.
Eu pensei que ele viria. Pensei que ele ia lutar por mim, que ia arrumar um jeito, que amor de verdade não abandona.
Eu estava errada.
Lenon sumiu. Simplesmente apagou minha existência como se eu nunca tivesse cruzado a vida dele. Nenhuma visita. Nenhuma notícia. Nenhuma carta. Eu apodrecendo atrás das grades, e ele vivendo a vida dele lá fora, solto, dono do mundo.
Foi ali, entre grades frias e paredes sujas, que a Morena Flor morreu de vez. A menina sonhadora, a mulher apaixonada, ela morreu sufocada pela dor e pela decepção.
E no lugar dela, nasceu outra pessoa.
Fria. Vazia. Perigosa.
Sem amor. Sem medo. Sem perdão.
Aqui dentro eu aprendi que só posso confiar em mim mesma. Mas eu não estou sozinha de verdade. Encontrei alguém que virou meu braço direito, minha irmã de alma, e quem diria, talvez a chave para mudar todo esse jogo. Porque o jogo não acabou... ele só ficou mais sujo.
Hoje, finalmente, a porta se abriu.
Eu estou livre.
E a verdade que eu encontrei do lado de fora foi pior do que qualquer sentença.
Lenon já tinha outra.
Seguiu a vida. Casou de novo. Riu, amou, viveu... enquanto eu apodrecia trancada, pagando por um crime que ele mandou eu fazer.
Agora não existe mais aquela mulher boba e apaixonada.
Só existe uma mulher quebrada, mas que se reconstruiu em ódio, com sede de sangue e de vingança.
E dessa vez...
Ninguém vai escapar.