2506 Words
Cedo, no dia seguinte, Sigmund despertou. O corpo ainda doía, mas a cabeça e a garganta estavam melhores. Deixando o quarto, ele olhou para a entrada do monastério e o sol não nascera, apesar do púrpuro amanhecer cobrir o céu, ao longe. — Bom dia! — Ele cumprimentou um dos monges. — Preciso de roupas. Dada a proibição de U Ketu, não posso ir em casa. — Bom dia, Maung Sigmund. Espero que tenha tido um bom sono. Sayadaw Ketu pediu para o levarmos a sua presença. Pode ter com ele, enquanto providencio suas vestes, seu banho e sua refeição? — Tenho escolha!? — perguntou, descontente. O monge não o respondeu, apenas seguiu ao salão onde Ketu estava. — Sayadaw Ketu, Maung Sigmund acabou de deixar seu aposento e conforme fora pedido, o trouxe a sua presença. — Agradeço! — Ketu os cumprimentou. — Aproxime-se. Sigmund aproximou-se, cautelosamente. — Sente. Precisamos conversar sobre o ocorrido ontem. — Não há o que dizer. Daw Ranna Gyi trilhou os caminhos, entre vida e morte, e senti. Foi forte, era um exercício simples, mas a dor chegou e creio ter me afogado dentro de mim. Julgo que a inexperiência é a causa de eu não entender o que acontece e porquê… a única coisa que sei é que não quero isso. Daw Ranna Gyi não parará, então preciso aprender a lidar — disse, apático. — Consegue me dizer o que pensava durante o incidente? — Estava com dor, raiva, frustrado. Triste, angustiado, impotente. Enquanto meu corpo e alma contorciam-se de dor, só conseguia pensar na minha insignificância e incapacidade. Enquanto sinto em minha alma uma necessidade enorme de salvar aquela que me deu a vida, ela está, conscientemente, tentando contra si; desdenhando do amor que sinto. — Protetor Vitorioso! — Riu Ketu. — Um dos motivos pelos quais podemos trocar nosso nome livremente é justamente devido à influência que ele pode exercer sobre nós. Quando nasceu, Sayama Ava nomeou-lhe Sigmund, pois significa Protetor Vitorioso. — Não quero protegê-la porque me chamo Sigmund! Quero protegê-la porque a amo. Ela é minha mãe! É, no mínimo, justo cuidar da vida daquela que me deu a vida. O quão t**o e ingrato seria eu, se simplesmente observasse ela cometer erros que podem matá-la? — O mitridatismo tem riscos. Existe há muitos. Mesmo sem conhecimento sobre o chi, é possível usá-lo. Em Aakash, desenvolvemos nossos métodos com o passar das gerações, aplicando o chi — disse Ketu, levantando. — Enfrentamos guerras e, nelas, lidamos com todo artifício imaginável. Aakash nunca foi tocada por inimigos, mas não deixaríamos os conterrâneos lutarem sós e por isto, nos juntamos a muitos conflitos incluindo, mas não se limitando, ao conflito contra os mongóis. Ketu caminhou até a entrada do grande salão, com calma, em silêncio. Chegando no portal, virou-se na direção de Sigmund e disse: — Os ancestrais, eternos residentes das estupas, construíram, aqui, um ambiente seguro. Protegido de qualquer intempérie, seja frio ou calor, sede ou fome, mesmo a vida selvagem é amansada por este artifício. Ketu voltou a caminhar, próximo às paredes e retomou a fala: — A compreensão do chi nos permitiu lidar com muitas intempéries do exterior, mas precisávamos escolher quando aplicar o chi para evitar a exaustão. Nossos corpos resistiam as doenças espalhadas entre as tropas e o povo, mas os venenos eram difíceis de lidar, principalmente pela falta de contato com peçonhas de qualquer natureza. Parando de caminhar oposto a entrada, Ketu virou-se para o menino, estendendo a mão em sua direção e uma silhueta masculina surgiu. — Este é Kublai Khan. Foi um grande inimigo de Burma. Bem-sucedido em muitos ataques. Poucos lugares resistiram às suas investidas e, no fim, o rei findou a guerra com um acordo. — Sigmund fitou a figura, atento. — O mitridatismo em Aakash desenvolveu-se pela guerra e, por isto, suas graduações referem aos grandes inimigos que enfrentamos. Para que não os esqueçamos e o mitridato entenda o peso de seu dever com o povo. O mitridatismo salvou milhares de vida, não somente entre nós, mas na China, Índia, Tailândia, em solo bengali… O grão-mestre sinalizou, projetando outros, homens e mulheres de idade variada e voltou a caminhar para o centro, silenciosa e calmamente. Ao sentar, ele quebrou o silêncio: — Estes são alguns que conheço. Entendo sua preocupação. Sei haver algo em ti, afetando o manifestar de seus sentimentos. Entendo que seu amor por Mi Ranna os une de forma única, que mesmo eu nunca vi. Você é uma criança com os três primeiros grilhões destruídos, minha pouca sabedoria me impede de compreender o seu reencarnar, dada sua evolução. Nada me permite pedir, mas tentarei: não se deixe levar pela intensidade do mundo. Resista! Arhat é aqui e agora. — Sorriu, gentil. — Posso treinar? — Sigmund pediu, não querendo se prolongar. — Sim. Maung Jagravh Gyi já foi instruído. Pelo bem-estar de todos, os exercícios em estado de jhana sucederão os exercícios de Mi Ranna. — É possível diminuir a intensidade com a qual sinto tudo? Observei os outros e sei que eles não veem, sentem ou ouvem como eu. — Sim, é possível. Há como alcançar isto, mas não posso ajudar. Essa e outras compreensões residem em ti! — Ketu cumprimentou Sigmund. Ele retribuiu o cumprimento e voltou ao quarto, onde já havia um sanghati na cama e frutas, com um chá, ainda quente, à mesa. Ele não se demorou, foi ao banho, tomou o chá e pegou uma fruta. Seguiu ao pagode, comendo e observando os primeiros raios de sol banhando a vila. No pagode, Jagravh, pontual, já chegara. Estava acompanhado de Elil e ambos conversavam em meio ao chá. — Bom dia, mestres! — cumprimentou Sigmund. — Por pedido de Sayadaw Ketu, Ko Elil Gyi nos acompanhará a partir de hoje — disse Jagravh, com meia flexão. — Como está? — Bem. O corpo dói, mas não tanto — respondeu, sentando. As crianças reuniram-se, a ausência de Tarendra colaborou para elas, amedrontadas, manterem distância de Sigmund. “Melhor assim.”, pensou o menino. Jagravh assumiu seu lugar, anunciando: — A rotina será modificada, os exercícios em jhana ocorrerão após os marciais. — Jagravh fez uma breve pausa. — Hoje retomaremos os exercícios com nossas nove armas. São: crânio, dois punhos, dois cotovelos, dois joelhos e dois pés — disse, apontando as partes do corpo. — Começando pelas pernas, demonstrarei algumas sequências de kan e vocês exercitarão com Maung Jagravh Gyi — disse Elil. Assim a manhã iniciou. Enquanto Elil demonstrava movimentos com as pernas, as crianças assistidas por Jagravh os executavam. A tranquilidade da manhã de Sigmund logo fora quebrada pelo início dos exercícios de Ranna. Felizmente, Sigmund não foi pego de surpresa. Era impossível entender se a dor era igual ou pior, impossível medir. Desta vez Sigmund caiu, mas não gritou! A expansão de seu chi ocorreu, assustando as outras crianças. Elas afastaram-se para seguirem o treinamento, fingindo que nada ocorria. Sigmund seguiu o exercício, mesmo com a hercúlea dificuldade. Suas articulações tensas eram mais difíceis de mover, seu corpo tremia não somente pela imposição da dor sobre ele, mas também pelo esforço e pela força, necessários para mantê-lo em movimento. — Maung Sigmund, continuará o exercício? — perguntou Elil, preocupado, observando o tom rubro tomando os olhos do menino. O grande nó na garganta de Sigmund o impossibilitou de responder. Contudo, ele seguiu. Tímidas lágrimas escuras escorreram por seu rosto, manchando-o como tinta preta, densas por carregarem as súplicas e os gritos de dor que não foram emitidos, pesadas por levarem parte da inocência morta devido a cada segundo de tortura e supressão de si. Continuar, tornava-se mais tortuoso a cada segundo. O fim dos exercícios de Ranna chegou e subitamente, com seu retorno ao corpo, a dor cessou, proporcionando a Sigmund um extremo relaxamento. Mesmo seus olhos mantiveram-se abertos custosamente. Era dez horas da manhã quando Elil tomou a palavra: — Maung Jagravh Gyi irá servi-los com água. Vocês terão dez minutos e logo após teremos duas horas de exercício em estado de jhana. Jagravh seguiu até um porrão com água e as crianças alinharam-se aguardando-o distribuí-la. Sigmund aproximou-se como um zumbi. — Posso lavar o rosto? — pediu o menino, com a voz trêmula. — Sim. Sente dor nos olhos? — perguntou Jagravh, preocupado com as manchas escuras no rosto de Sigmund. — Não. A cabeça dói bastante, mas entendi que esta é minha nova rotina — respondeu, apático, tomando da água para jogar no rosto. — Melhorará! Minha idade favorece a adaptabilidade. Sigmund voltou a sentar-se no centro do pagode, em posição de lótus. Nem sequer aguardou as instruções de Elil, apenas fechou os olhos e rapidamente alcançou o estado de jhana, onde ele estava só. Em meio a escuridão e silêncio, decidiu distrair-se observando ao seu redor. Seu chi, agora calmo, expandiu-se pelo pagode, desenhando a silhueta das crianças em cores e intensidade variadas. “Sua compreensão sobre o chi e si, deve determinar a intensidade.”, estudou. A hipótese confirmou-se ao observar Elil, com a silhueta intensa, porém gentil; enquanto Jagravh, apresentava menos intensidade, porém mais agressividade, apenas de nunca transparecer. O sino usado para meditação tinha sua própria presença. Era possível observar a intensidade com a qual o badalar atingia os que meditavam, como uma grande onda se quebrando sobre suas cabeças. Elil tocou o sino para despertar todos do estado meditativo. — Maung Sigmund, precisa aprender a manter seu chi suprimido para não interferir no exercício dos outros. — O mestre instruiu. — Sim, senhor. Praticarei, não falharei — disse, levantando. — Estão dispensados — disse Jagravh, assumindo a palavra. — Ficarei aqui durante a tarde, caso queiram me consultar. Todos assentiram e Sigmund voltou para casa. Ranna não estava. Ele pegou algumas frutas, pôs num cesto e saiu. Juntou alguns galhos na frente de casa e fez uma fogueira para assá-las. Em meio ao almoço, Sigmund observou Ava descendo a escadaria do monastério. Sempre gentil, Ava acenou e aproximou-se. — Maung, uma boa tarde! Como foi o treinamento? — Foi bem, U Ava. Obrigado por perguntar — cumprimentou. — Quer uma fruta? Ficaram boas assadas. — Agradeço, mas dispenso. Já almoçou hoje? — Estou almoçando agora. — Se Mi Ranna Gyi não chegar até uma hora após o pôr do sol, fale e farei seu jantar. — Obrigado. Ava sorriu, partindo. As frutas estavam tão gostosas a ponto de fazê-lo corar. Terminando, ele limpou a fogueira. Limpou e guardou as sementes. Saiu, levando as cascas até uma árvore, onde fez uma rasa vala e as enterrou. Asseou-se e foi ao pagode, carregando o sanghati do templo. Durante a tarde, os rapazes entre oito e dezesseis anos treinavam. Elil era responsável por todo seu treinamento. Ele e Jagravh dispunham alguns troncos, próximos às paredes. Dois rapazes já estavam. Romir, de dez anos, tinha a índole duvidosa e Sanjiv, de nove, era o típico monge, conhecido por sua calma e passividade. Eles conversavam, eram yin e yang. — Maung Sigmund, o que o traz aqui? — Sorriu Elil, receptivo. — Trouxe o sanghati que peguei no monastério. Gostaria que um dos mestres levassem de volta — respondeu Sigmund, aproximando-se. — Por que não vai você!? — perguntou Romir. — Não sabia ser responsabilidade dos mestres entregarem as coisas a mando das crianças. — Ele é uma criança, U Romir. Contenha-se! — repreendeu Sanjiv. Sigmund irritou-se com a intromissão, mas nada disse. — Claro, Maung Sigmund — consentiu Jagravh. — Como se sente? — Estou bem. Ranna não desceu e não queria encontrá-la. Tudo está muito difícil, não quero outro motivo para ficar instável. Posso treinar? — Se não está bem, é bom que fique — assentiu Elil. — Consegue continuar após todo esforço da manhã? — Se eu não ficar, posso fazer besteira. Não estou bem para estar só, principalmente com Ranna. Preciso de um tempo. Consigo continuar. — Junte-se a nós! — Elil convidou. — Obrigado, Ko Elil — cumprimentou Sigmund, aproximando-se da dupla. — Sou Sigmund. Vou me juntar ao seu treinamento. — Sou Sanjiv. Soube que teve problemas, espero que possamos ajudar. Este é o terrível U Romir! — Ele riu. — Terrível não, simpático e gentil! — ironizou, rindo. — O que está havendo? Sentimos sua instabilidade nos últimos dias. Talvez conversar com um mais velho ajude — ofereceu Sanjiv, dócil. — Sinto tudo intensamente e é r**m. Não devo retroceder Bodhi, mas não sei lidar — explicou, olhando para Romir desconfiado. — Sempre que minha mãe começa as coisas com os venenos, sua alma se desprende e dói. Hoje eu consegui treinar mesmo com a dor. Resistirei! — Tu? Bodhi? — Romir riu. — Nem U Sanjiv que parece Buda! — Não menospreze os outros. Não há idade para a iluminação — retrucou Sanjiv. — E buda não é alguém, mas algo. — Que inconveniente! — Sigmund franziu o cenho. — Como consegue lidar? — perguntou para Sanjiv. — Romir tem a natureza traiçoeira, mas é bom. A incapacidade de lidar consigo afeta a consciência que nos fala, mas, maturidade o tornará melhor. — Sorriu Sanjiv. — Observe Ko Jagravh, são similares, com adendo que U Romir é jovem. Olhe! Mesmo seu chi se assemelha. Sigmund concentrou-se para observar e apesar de a intensidade vista em Jagravh ser superior o mesmo tom agressivo emanava de Romir. — Parece mesmo! — O menino riu. — O que você está olhando? — perguntou Romir, exaltado. — Ignore os acessos raivosos. — Riu Sanjiv. — Com você é intenso e agressivo não é a palavra — analisou. — É como um animal selvagem, forte, na minha frente, pronto para atacar. Amedrontador e fascinante! O irmão de Tarendra chegou com os outros. Ficou nitidamente desconfortável com a presença de Sigmund, mas nada disse. — Maung Sigmund nos acompanhará — anunciou Elil. — Dividam-se em duplas conforme direi. Somos ímpares, logo, ficarei com Sanjiv. Sanjiv destacou-se indo para as costas de Elil. — Hiresh e Vanhi! — chamou ele. Hiresh, de treze anos e estatura baixa prontificou-se. Vanhi, o mais velho com dezesseis, de mesma estatura, conhecido pelo mel dos seus olhos e sua pouca paciência, juntou-se a Hiresh. — Ihit e Tarusa! — anunciou Elil. Ihit de oito anos, exalando inexperiência e nervosismo deu um passo a frente e Tarusa, de doze, parecido com o irmão aproximou-se de Ihit. — Utsa e Romir! Utsa era um rapaz de quinze anos, de aparência frágil e sorriso doce; deu um tímido passo a frente e Romir o encontrou. — Jagish e Sigmund! — finalizou Elil. — Olá, U Sigmund — cumprimentou Jagish, ao se aproximar. — U Jagish — retribuiu, associando a calma no chi de Jagish a experiência e polidez. — Serão simples exercícios práticos — disse Elil, olhando Sigmund. — Os movimentos, que conhece, serão aplicados. Direi a classe usada no ataque e na defesa; se eu disser mais de uma, trancem ao seu bel-prazer. Todos assentiram e o treinamento iniciou.
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