1

1095 Words
Nathalia Meses depois… — Bom dia, meu amor! Cantarolo ao entrar no quarto do meu filho e, como sempre, abro as cortinas para a luz do dia invadir o cômodo. Lucas se espreguiça na cama e abre o primeiro sorriso matinal, que mexe com o meu coração de mãe. Retribuo o seu sorriso. — Bora acordar, garotão? — Mamãe! E lá está a empolgação que tanto amo. Não seguro mais o sorriso quando ele abre os braços para mim, e não meço distância para me aproximar dele. Contudo, não o abraço, porque ele não suporta toques. Lucas tem TEA — Transtorno do Espectro Autista, nível três. Ele é uma criança que precisa de rotina severa, de previsibilidade e de poucos vínculos. O mundo dele é pequeno. Seguro. E eu faço parte dele. — Bom dia, querido! Abraços, nem pensar. Mas ele ama encostar sua testa na minha, e isso é o bastante para mim. — Hora do banho, garotão. — Faço um som divertido, porém contido. — Banho. Banho. — Isso, banho. Excesso de carinho o desorganiza, então um beijo calmo em sua bochecha o tranquiliza. Confesso que não teria sido fácil sem o apoio da minha família. Bernardo, meu irmão mais velho, é meu braço direito, e o Lucas é completamente apaixonado por ele. Ah, e falando em rotina… banho, café da manhã, escola, psicólogo, fonoaudiólogo, terapia, fisioterapia, e jogos de blocos. Este último ajuda o Lucas a se conectar com o mundo. — Pronto, você ficou lindo! — Não quero ir para a escola — reclama, como sempre. Contudo, levo meu indicador embaixo do seu queixo e o faço olhar para mim. Lucas luta contra o meu olhar. — Olhe para mim, Lucas — peço. — Olhe aqui nos meus olhos — insisto. E ele o faz, mesmo contra a sua vontade. — Você precisa ir à escola. — Não quero. — Mas a Maia vai estar lá. E ela gosta muito de você. — Maia. — Isso. — Eu gosto da Maia. Sorrio. — Sim, você gosta da Maia. E precisa ir para a escola. Precisa cuidar dela, certo? — insisto. — Certo. — Ótimo. Que tal um café da manhã? — Cereais. — Hum, eu gosto de cereais. — Eu também gosto. Estendo a minha mão para ele e logo saímos do quarto. — Bom dia, querida! — diz Renata ao entrarmos na cozinha. Renata Lisboa é psicopedagoga e é a pessoa em quem mais confio nesse mundo para cuidar do Lucas na minha ausência. É ela quem transforma as tardes do Lucas em pequenas missões de descoberta — jogos de memória, histórias coloridas e exercícios que ajudam meu filho a entender um mundo que, muitas vezes, parece alto demais para ele. Ela me ajuda a organizar as rotinas dele, trabalha as habilidades sociais, dá apoio no processo escolar e, nas horas vagas, é minha melhor amiga e confidente. — Bom dia, Re! — E bom dia para você, garotão! — Bom dia! — Lucas responde, acomodando-se no seu lugar à mesa. — Cereais — diz, após se sentar na cadeira. — Coloridos. — ela completa, levemente animada. Afinal, entusiasmo demais o deixa aturdido. — Coloridos — Lucas repete, como se experimentasse a palavra. — Seu café da manhã, Nati. — Bia, uma das poucas empregadas que mantenho em casa, diz, colocando na mesa uma xícara de café com bastante leite e caramelo. — Obrigada, Bia! — falo, bebericando um pouco do café e, após me acomodar à mesa, pego apenas uma fatia de queijo branco. — Dia cheio hoje? — Renata pergunta, sentando-se ao lado de Lucas. — Um pouco. — Não esqueça que você tem uma reunião com a professora do Lucas hoje. — Coloquei um lembrete para não me esquecer. — Sua sessão com a doutora Júlia está marcada para o final desta tarde. — Tudo bem. Estarei lá. Observo enquanto ela cuidadosamente ajuda meu filho a limpar o canto da boca e, após um diálogo rápido, o convence a ir com ela para a escola. E, quando ponho os pés para fora de casa, me transformo na pessoa que assume o controle quando o assunto são os eventos da Rocha & Partners — o mais conceituado e respeitado escritório de advocacia do estado do Rio de Janeiro, e também o escritório da minha família, onde meu irmão é o CEO, meu pai o vice-presidente e eu cuido das relações públicas. É aqui que me desligo do meu universo e projeto todos os meus fracassos do amor. Amor. Nem sei por que ainda uso essa palavra no meu vocabulário. — Ok, organizem as possíveis perguntas para a entrevista com o Dr. Bernardo — falo, levemente autoritária para a minha equipe. — Nada deverá sair do roteiro. O Bernardo precisa fazer esse escritório brilhar. — Certo, Nati. — Amanda, como estão os preparativos no auditório? — As credenciais já foram distribuídas. Apenas repórteres autorizados poderão entrar. Organizamos as cadeiras em fileiras, assim fica mais fácil a visibilidade. — Perfeito. Certifique-se do tempo. Bernardo tem uma audiência em duas horas. — Pode deixar. Apenas meneio a cabeça. Preciso de outra xícara de café. Esse puro, forte e sem açúcar. Penso, e olho ao meu redor. Ver todo mundo empenhado me traz um ar de satisfação, e decido ir até a copa antes que a onda de flashes chegue a esta empresa. — Bom dia, Marta! — digo, um tanto animada, para a copeira que está de costas para mim, organizando a pia. — Bom dia, querida. E como está o pequeno Lucas? É impossível não sorrir para essa pergunta. — Uma gracinha. Precisa ver como ele está esperto. — Eu trouxe algo para ele. É o meu presente de aniversário atrasado. — Oh! — exclamo quando ela seca as mãos e vai até a sua bolsa. — É um dinossauro. É um presente simples, mas dado com muito amor. — Não tenho dúvidas disso, Marta. E eu sei que ele vai adorar. Olho as horas. — Ah, droga, eu preciso ir. — Uma correria, não é? — Você não faz ideia — retruco. Seguro a minha xícara de café e caminho apressada para a saída. Contudo, paro bruscamente bem no meio do corredor quando percebo uma conhecida algazarra no final dele. Meu coração dispara ao vê-lo. Está tão bonito e atraente quanto eu me lembrava. Arthur Kamau ainda tem aquele sorriso adolescente que mexe comigo. O jeito como fala com meu irmão. Como gesticula com as mãos. Ele ainda faz o meu coração bater errado. E isso é tão injusto!
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD