Na ausência do Coronel e dos filhos José Afonso e Francisco, e os primos filhos de Antônio e Margarida, levados pelas ideias de liberdade da Revolução Revolucionária, coubera a Clarice assumir a ordem das coisas.
Os peões mais velhos, como o leal seu Joaquim, ainda estavam ali, ajudando no que podiam, mas era ela quem decidia quando abrir a porteira, quando matar o gado para alimentar os que ficaram, quando distribuir os mantimentos às viúvas da região.
Além de Clarice e de Emília, a casa era habitada por outras mulheres fortes.
Margarida, cunhada de Emília esposa de Antônio, o terceiro irmão Amaral, era uma mulher de fala baixa e sabedoria prática. Cuidava dos remédios caseiros, das ervas, dos partos, das dores que não podiam ser levadas pela reza. Com ela, estavam as filhas:
Rosália, a jovem das mulheres da casa.
Helena, que escrevia versos escondida em folhas soltas;
E a pequena Beatriz, ainda criança na casa dos Sete anos.
E os filhos que foram para guerra Jorge, Pedro e o filho de coração Samuel.
Ainda havia Joana, a jovem criada que fazia os serviços leves, mas cujo coração ardia em silêncio por Samuel, agora em guerra. O amor entre uma moça mestiça e um filho Amaral era proibido, mas nem os tempos ou as tradições conseguiam domar o que nascia nos olhos.
Clarice saía todas as manhãs para vistoriar a estância. Observava a horta molhada pelo sereno, as cercas que precisavam reparo, os cavalos ainda selados, prontos para o que quer que viesse. No galpão, onde antes havia risos e cantorias ao som do violão, agora só restavam sombras e cheiro de ferrugem.
As tardes eram reservadas às costuras. As mulheres se reuniam na sala onde antes se bordavam enxovais de casamento. Agora, costuravam fardas para os revolucionários. Os dedos que antes costuravam rendas, agora lidavam com o tecido grosso da guerra.
E entre agulhas e linhas, vinham as notícias:
— Dizem que os imperiais avançaram por Caçapava... — murmurava Helena.
— Queimaram tudo. Até a igreja. —
Completava a vizinha da estância dos Pereira.
— E a filha do coronel Silveira foi levada pelos soldados… ninguém sabe se viva. — Sussurrava Helena, com a voz embargada.
Clarice ouvia. Sempre ouvia. Mas não falava. Aprendera com o pai que fraqueza era como fogo em capim seco alastrava rápido.
Ela precisava ser raiz.
Naquela tarde, Clarice subiu o cerro atrás da casa, onde havia um pequeno bosque de eucaliptos. Ali, sentou-se sobre uma pedra antiga. O vento Sul soprava firme, com cheiro de terra e solidão. Abaixo, a estância parecia dormindo, mas Clarice sabia que aquilo era só aparência.
E ali, sozinha, chorou.
Chorou por seu pai, por seus irmãos, pelo tio Antônio e pelos primos Jorge e Pedro
Chorou pelas mulheres da casa que sustentavam tudo. Chorou por ela mesma, por não ter escolhido nada daquilo.
Chorou como se fosse o último luxo permitido antes da noite cair.
Secou o rosto com o lenço da avó. Na estância, dizia-se que aquele lenço branco era símbolo de paz.
Mas Clarice sabia que a paz era só uma história que se contava para não enlouquecer.
Quando desceu, a sopa já borbulhava na panela e Ceci cantarolava uma canção antiga sobre o tempo dos tropeiros.
Sentaram-se à mesa. Não como uma família. Mas como um exército de mulheres.
No quarto, Clarice escreveu no caderno escondido:
“Hoje resistimos.
As mulheres da Estância dos Amaral ainda são casa.
Ainda são nome. Ainda são chão. Mas até quando?”
Apagou a vela.
E na escuridão, sentiu aquilo que todas sentiam, mas ninguém dizia:
A guerra estava longe, sim.
Mas vinha cavalgando.