Tânia narrando Eu sempre digo que o Complexo do Alemão me criou mais do que qualquer pessoa nesse mundo. Cresci aqui, entre vielas apertadas, o barulho dos rádios tocando funk dia e noite, o cheiro de feijão sempre no fogo e o vai-e-vem do povo que trabalha, luta e sobrevive. Aqui ninguém precisava fingir nada. A gente era quem era — com defeito, com virtude, com dor, com alegria. Eu cresci entendendo que “família” não era só quem tinha o mesmo sangue, mas quem pegava na sua mão quando o mundo começava a desabar. Eu devia ter uns onze anos quando o Vicente e a mãe dele vieram morar na casa ao lado. Lembro perfeitamente daquela manhã: ele chegou com uma mochila velha nas costas, olhando tudo como quem tinha medo e esperança ao mesmo tempo. A mãe dele… ah, coitada. Era sozinha, tinha o co

