Capítulo 15

963 Words
Rafaela narrando Já faz um mês. Um mês inteiro desde a última vez que eu consegui ficar com o Talibã. E, desde então… Nada! Simplesmente nada. Ele sumiu. Não me chama. Não me olha do mesmo jeito. E, pior… Nem deixa mais eu subir pro camarote como antes. Agora, quando eu consigo subir, é sempre a mesma coisa. Zóio. Sempre ele. Como se fosse uma troca. Como se eu tivesse que aceitar aquilo. Mas, eu já deixei bem claro. Mais de uma vez. — Eu não quero você! Falei na cara dele. Sem rodeio. Sem medo. — Eu não tenho interesse! E, é a verdade. Nunca tive! A única pessoa que eu quero ali… É o Talibã. Sempre foi. E sempre vai ser. Mas eu percebi. Ele não gostou. Nem um pouco. Depois disso, tudo piorou. Ele simplesmente começou a dificultar minha vida. Minhas amigas? Não entram mais. Antes era fácil. Agora, toda vez é uma luta. E, quase sempre… a resposta é não! Então eu tive que me virar. Como sempre. Comecei a fazer amizade com as meninas daqui. Porque, ficar sozinha em baile não dá. É pedir pra virar alvo. Foi aí que eu conheci a Fabrícia. No começo, eu não fui muito com a cara dela. Muito oferecida. Muito em cima. Muito… desesperada. Mas aí eu entendi. Ela é igual a mim. Obcecada pelo Talibã. E isso me irritou. Não vou mentir. Porque, na minha cabeça… Aquilo é meu! Mas eu precisei relevar. Porque, querendo ou não… Eu precisava de companhia. E, sendo bem sincera… Não tem nem comparação. Olho no espelho e tenho certeza disso. Eu sou linda. Perfeita. Corpo no lugar. Rosto de boneca. E ela? Bom… Ela tenta. Então, se algum dia ele tiver que escolher… Não tem dúvida. Vai ser eu. Sempre vai ser eu. Mas, nem tudo tá sendo como eu imaginei. Muito pelo contrário. Depois do dia que eu neguei o Zóio… A situação virou. E virou feio. Porque ele começou a cobrar. Tudo. Cada coisa. Cada bebida. Cada droga. Cada noite. Como se nada tivesse sido por vontade dele também. Como se eu tivesse usado tudo sozinha. Agora, segundo ele… Eu tô com uma dívida. Uma dívida alta. Alta demais. E o pior… Eu não tenho como pagar. Tô sem dinheiro. Sem nada. E tive que me virar. Do jeito que deu. Fiquei com alguns vapores. Sim. Pra conseguir dinheiro. Pra conseguir sobreviver. Pra pagar o aluguel. E foi assim que eu consegui pagar esse mês. Mas não dá pra manter isso. Não dá pra viver assim. Já pensei em ir atrás da Fernanda. Já pensei mesmo. Mas só de imaginar… Me dá raiva. Humilhação demais. Eu não vou me rebaixar. Não pra ela. Não praquela vida. Não mesmo! Eu saí de lá por um motivo. E, eu vou provar que eu fiz a escolha certa. Mesmo que agora… As coisas estejam difíceis. Mas isso vai virar. Eu sei que vai. E quando virar… Todo mundo vai se arrepender. Todo mundo. Inclusive o Zóio. Acordei com o celular tocando. Um barulho irritante. Insistente. Peguei o aparelho ainda com sono e olhei a tela. Fernanda. Revirei os olhos na mesma hora. — De novo… — murmurei. Ela não cansa. Não desiste. Como se eu fosse voltar correndo. Como se eu precisasse dela. Ignorei. Deixei tocar. Virar silêncio. E joguei o celular de lado. Levantei da cama e fui direto pro banheiro. Eu precisava acordar. Pensar. Resolver minha vida. Entrei no chuveiro e deixei a água cair. Enquanto isso, minha cabeça não parava. Eu precisava de dinheiro. Pro mercado. Pra comer. E, pior… Pra dívida. Porque o Zóio já tinha deixado claro. Eu tô no prazo. E, segundo a Fabrícia… Quando esse prazo acabar… Se eu não tiver o dinheiro… Ele me mata. Simples assim. Sem drama. Sem segunda chance. E eu sei que ele é capaz. Então eu precisava dar um jeito. Hoje mesmo. Nem que eu tivesse que… Fazer o que fosse necessário. Estava terminando o banho quando ouvi. Batidas. Na porta. Fortes. Secas. Pesadas. Franzi a testa. — Quem é? Ninguém respondeu. As batidas vieram de novo. Mais fortes. Como se quisessem derrubar. Meu coração acelerou. Na hora. Desliguei o chuveiro. Me enrolei na toalha correndo e saí do banheiro. A casa tava em silêncio. Mas as batidas continuavam. Aquilo já não parecia normal. Caminhei devagar até a sala. Cada passo mais pesado. Mais tenso. Quando cheguei perto da porta… Ela abriu. De uma vez. Sem eu nem tocar. E ele entrou. Talibã. Meu coração disparou. Mas, dessa vez… Por outro motivo. Surpresa. E… animação. Porque já fazia tempo. Tempo demais. Desde a última vez que eu consegui chegar perto dele. E agora… Ele tava ali. Dentro da minha casa. Fechei a porta devagar, ainda olhando pra ele. Meu olhar mudou na hora. Um sorriso apareceu. Sem esforço. Deixei a toalha cair. De propósito. Mas fingi. — Ai — falei, me abaixando rápido pra pegar. Levantei de novo, enrolando ela no corpo, como se nada tivesse acontecido. Mas eu sabia. Ele tinha visto. E eu queria que ele tivesse visto. Olhei pra ele, mordendo de leve o lábio. — O que você tá fazendo aqui? Ele não respondeu na hora. Só me olhou. De cima a baixo. Sem pressa. Do jeito dele. E eu senti. Naquele olhar. Aquilo ainda tava ali. A tensão. A vontade. O interesse. Mesmo que ele tentasse esconder. Ele deu um passo pra frente. E falou: — A gente precisa trocar um papo. Mas, o jeito que ele disse… Não foi só sobre conversa. E o jeito que ele me olhava… Também não. E foi aí… Que eu percebi, Aquilo não era uma visita qualquer. E, pela primeira vez em muito tempo… Eu não sabia o que esperar.
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