Beatriz
Acordo no sábado animada, o dia está ensolarado e o som na favela tocando alto. Vou para o banheiro, tomo banho e escovo meus dentes, me visto com um conjunto de short e top de academia e desço para tomar café.
Cláudia (mãe): Bom dia filha, quer ir comigo, ajudar nas tranças? Tenho duas lá na casa do Godinho, ele e um amigo chamaram hoje cedo.
Bia: Bom dia mãe, vou tomar um café e já troco de roupa para ir com a senhora.
Cláudia (mãe): só não vai colocar casaco, tá um calor insuportável lá fora.
Bia: Relaxa mãe, hoje o meu look vai ser diferente. — falo e dou uma risada, hoje tenho uma roupa especial para sair.
Tomo o meu café tranquilamente e vou escovar os meus dentes, fico olhando para meu guarda-roupa e decido inovar nesse look no calor que tá no Rio. Visto um vestido nude soltinho e pego um lenço, arrumo o meu cabelo num r**o de cavalo no topo da cabeça e passo o lenço fresco em volta da minha cabeça e prendo com uma presilha. Agora o meu lenço parece um niqab.
Quando saio do quarto a minha mãe me vê e se espanta, vem na minha direção com a mão pronta para puxar o meu lenço, mas corro antes.
Cláudia (mãe): Bia, tu não vai assim! Tira isso do rosto agora!
Bia: Nem vem mãe, não vou sair com o meu rosto para me verem por aí não. Sei que sou gata tá? Mas mãe, imagina esses traficantes quando me verem, vai ser carne nova na área e vão ficar em cima de mim. Que odiooo! — Grito com pensamentos do passado vindo na minha cabeça.
Cláudia (mãe): Filha? Eu sei que você não quer que te conheçam, mas assim não dá para sair, meu amor... Coloca um short e uma camisa fina com o capuz?
Bia: Tá mãe, eu por mim nem ia mais. Vou lá me trocar porque quero ajudar a senhora — digo dando um sorriso de lado para ela e vou para o quarto.
No fim coloco meu short jeans de lavagem clara e uma blusa de manga comprida branca que vem com o capuz grande, ajeito os meus cabelos e visto a blusa. Assim que chego na sala a minha mãe já espera com a sua maleta com os acessórios para as tranças, tranco a casa e abrimos o portão já saindo escuto.
Fernanda: Meu Deus! Ela é n***a e a mãe branquela —diz com deboche
Patrícia: Ou a mãe deu para um negrão e não puxou nada dela, ou ela foi achada no lixo e a mãe pegou por pena ela. — falou rindo com as outras.
Nanda: Aí Paty, a mãe dela linda e ela é nojenta. — fez barulho de vômito e eu vi a minha mãe soltando a maleta com força no chão, a sombra dela passou correndo por mim que estava em choque com tantas palavras nojentas para mim.
A minha mãe correu direto na Fernanda que tava de costas para gente sentada numa cadeira de plástico, só vi quando ela caiu por cima da mesa quebrando ela com o chute que a minha mãe deu na cadeira que quebrou também, Fernanda tentou levantar depressa, mas minha mãe não deixou, só vi os chutes e pisadas nas costas da guria que tentava fugir se arrastando por cima da mesa quebrada e os cacos de vidro da cerveja que estava na mesa.
Fernanda: Para a sua loucaa, me ajudaaa — gritava e ninguém se meteu a mexer.
Cláudia (mãe): a sua vagabunda desgraçada, nunca falei um A de ti e tu não pensou duas vezes antes de falar da minha filha — os chutes não paravam e cada palavra dava de escutar só o seco do chute e os gemidos de dor da garota — Não mexe nunca mais com ela, não olha na direção dela e nem se atreva a tocar nela sua p**a imunda. — falou segurando os cabelos dela — Ninguém nesse morro mexe com a MINHA FILHA, suas putas racistas de merda, nojentas.
Não conseguia me mexer e onde tava no portão fiquei, de repente vi um pânico se formando dentro de mim e comecei a respirar fundo, contei várias vezes até dez e me assustei com 3 tiros secos dados no ar.
PH: que p***a é essa? — Perguntou vendo Fernanda estirada no chão e a minha mãe em pé vermelha de tanta raiva que tava. — Dona Cláudia e Fernanda? — olhou espantado para minha mãe — Que merda aconteceu aqui?
Fernanda: Amor, essa louca chutou a cadeira do nada quando eu tava com as meninas tomando uma breja, não consigo nem me mexer — falou deitada ainda no chão de barriga para baixo e chorando
Cláudia (mãe): O que aconteceu? Fala para ele a sua vagabunda o que tu falou da minha filha, vai fala — disso indo para cima dela novamente e Playboy segurou ela
Playboy: Calma ai dona Cláudia, fala aí pra nois o que rolou que a gente vai desenrolar aqui memo
Cláudia (mãe): A gente tava fechando o portão pra ir lá no Godinho atender vocês, quando escutamos essas duas nojentas — aprontou pra Paty que tava encolhida na parede do restaurante e para Fernanda no chão — falaram que ela tinha sido achada no lixo e eu peguei minha filha por pena, disseram que ela é nojenta. Minha filha é morena, tenho orgulho da cor dela, vocês entenderam? — falou chorando de raiva — Sempre dei meu melhor como mãe e pai para ela, ninguém me conhece não e a minha filha não é essas vagabundas de rua não, ela pode ser verde, amarela, rosa ou aroxa, masmas, não vai deixar de ser sangue do meu sangue. — me olhou e eu sai do transe que estava
PH: foi isso mesmo sua vagabunda? Além de p**a, agora deu para ser racista é? — falou pegando ela pelos cabelos — Playboy, pega a Paty e leva pro carro.
Fernanda: Amor? Não falei isso, não fiz isso
PH: cala a boca sua desgraçada!
Fernanda: O que tu vai fazer? Tá doendo o meu corpo, ela quebrou as minhas costelas e não consigo andar.
PH levou ela aos protestos até um Nivus parado um pouco a baixo do restaurante, jogou ela no porta malas com a Patrícia que não falou nada e nem protestou.
PH: leva elas pro barraco de cima cria, já colo lá. — falou para o Playboy — Podem ir e ficar de boa, ela não vai mexer com a tua filha mais não. — disse pra a minha mãe.
A minha mãe veio na minha direção e pegou a maleta.
Cláudia (mãe): vamos filha, não usei as mãos, você tá bem?
Bia: To em choque, mas, passa.
Cláudia (mãe): Vamos indo que atrasamos bastante, se ela olhar pra ti você me fala filha. — disse sorrindo — Eu amo você, é maravilhosa filha e a sua cor mais linda ainda. — me olhou com um brilho no olhar e eu sorri
Bia: Relaxa mãe, não me magoou o que ela disse, mas juro que fiquei com vontade de vomitar — rimos e fomos subindo até a casa do Godinho.
Minha mãe chamou ele, logo apareceu com um sorriso no rosto e cumprimentou nos duas, de cabeça baixa estava e assim fiquei até escutar
PH: Dona Cláudia vai trançar o cabelo do Godinho e você Estranha vai trabalhar em mim... — fiquei surpresa com sua fala e suspirei.
Cláudia (mãe): Pode deixar PH, ela tem o mesmo talento que eu, as mãos leves por isso vai ser médica! — contou com orgulho.
PH: Eu já sabia que ela era boa, mas vendo de perto é melhor ainda — senti seus olhos queimando minha b***a.
Bia: Deu de assunto e vamos logo!