Vanessa narrando
Sabrina estava deitada na maca, enquanto eu preparava os produtos para iniciar o procedimento. Mantive a postura profissional, um sorriso leve no rosto, sem deixar transparecer qualquer nervosismo. Ela me observava pelo espelho da sala, analisando cada movimento meu.
— Então… — ela começou, esticando o pescoço para me olhar melhor. — Você é a nova esteticista daqui?
— Isso mesmo, comecei hoje — respondi, mantendo a voz firme e educada.
— Interessante… — ela deu um sorriso de canto. — E resolveu vir morar aqui na comunidade? Uma moça toda ajeitada como você?
Peguei um pote de creme e me aproximei. — Resolvi. Gosto de mudanças. E a Rocinha é cheia de vida, gostei daqui.
Ela soltou um risinho debochado. — Cheia de vida… é… — esticou o braço, apontando pra mim. — Mas cheia de perigo também. Você parece meio… deslocada.
Olhei pra ela sem abaixar a cabeça. — Me adapto fácil. Pode deixar.
Sabrina ergueu uma sobrancelha. — Cuidado pra não se adaptar rápido demais… os homens daqui são… — ela pausou, avaliando minhas reações. — Sedentos. E alguns, se quiserem alguma coisa, eles pegam.
Continuei aplicando o creme nas mãos, sem me abalar. — Bom saber… mas eu sei me cuidar.
Ela riu de novo, mas dessa vez com um olhar m*****o. — Veremos. — Cruzou as pernas, ajeitando o vestido colado que usava. — E se eu fosse você, manteria distância de alguns nomes. Principalmente do Gabriel.
Meu coração deu um leve salto, mas não demonstrei. Continuei com os movimentos firmes, massageando a pele dela. — Ah, sim? Por quê?
— Porque ele não é pra qualquer uma… e já tem quem cuide dele. — Ela deu um sorrisinho venenoso.
Sorri de volta, tranquila. — Ah, entendi. Então é você quem cuida dele?
Sabrina me encarou, surpresa pela minha resposta direta. — Digamos que eu sou a única constante na vida dele.
— Constante… — repeti, ainda sorrindo. — Interessante… mas não se preocupe, tô aqui pra trabalhar, só isso.
Ela se ajeitou na maca, claramente incomodada com a minha postura firme. — Bom mesmo… porque aqui, quem é de quem… fica claro.
Terminei o procedimento, mantendo minha expressão serena até o final. Sabrina se levantou, ajeitando os cabelos loiros e me lançando um último olhar de cima a baixo.
— Até a próxima, Vanessa. Vamos ver se você dura por aqui.
— Até, Sabrina. Estarei aqui.
Ela saiu do salão, batendo o salto firme no chão. Respirei fundo, ajeitando os potes e limpando a maca. Primeiro dia e já tive meu teste de paciência.
— Se isso foi uma ameaça, m*l sabe ela de onde eu vim… — sussurrei pra mim mesma, com um sorriso de canto.
Gabriel narrando
O movimento na boca tava intenso. Os caras descarregavam os pacotes, organizando tudo nos compartimentos, enquanto o Vini anotava o faturamento. Eu observava de perto, como sempre. Não deixo nada passar. Cada entrega, cada cobrança, cada centavo… tudo no controle.
— Fechou aqui, chefe — disse o Vini, me entregando a planilha. Dei uma olhada rápida e assenti. Tudo certo.
Foi quando ouvi o salto estalando no chão de concreto, ecoando pela área. Nem precisei olhar pra saber quem era. Sabrina.
Ela caminhava rebolando, como sempre fazia quando vinha me procurar. Usava um vestido vermelho justo, que parecia ter sido costurado direto no corpo. Parou ao meu lado, jogando o cabelo pro lado.
— Oi, meu lindo. — Ela sorriu, se encostando na parede ao meu lado.
— O que foi agora, Sabrina? — perguntei, sem desviar o olhar dos carregamentos.
— Nada demais… — ela alisou os fios platinados com os dedos. — Só queria dizer que acabei de sair do salão. Conheci a nova esteticista.
Continuei analisando os pacotes, mas aquela frase me fez lembrar da cena de mais cedo. Vanessa correndo na rua, focada, o r**o de cavalo balançando, a roupa justa marcando cada curva.
— Ah, é? — respondi, disfarçando o interesse. — E aí?
Sabrina deu um sorrisinho venenoso. — Se faz de santinha, mas eu já dei um toque nela… — ela se inclinou um pouco mais pra perto de mim. — Avisei pra tomar cuidado, principalmente com você.
Virei o rosto devagar pra encará-la. — E por que você faria isso?
Ela deu de ombros, mordendo o lábio. — Porque eu cuido do que é meu.
Soltei uma risada seca, balançando a cabeça. Sabrina e suas ilusões. Ela sabia como as coisas funcionavam, mas insistia em fantasiar uma exclusividade que eu nunca prometi.
— Cuidar do que é seu, é? — cruzei os braços, encostando na pilha de caixas. — Interessante…
Sabrina franziu o cenho, tentando entender se eu tava tirando com a cara dela ou se tava falando sério. Mas eu não me importei em explicar. Minha mente já tinha voltado pra Vanessa. O jeito dela correndo sem medo, a postura firme que não combinava com o lugar… algo ali chamava minha atenção mais do que eu tava disposto a admitir.
— Precisa de mais alguma coisa, Sabrina? Tô ocupado. — Cortei o assunto, voltando pros carregamentos.
Ela bufou, ajeitou o vestido e saiu batendo os saltos, mas eu nem me importei. Na minha mente, a imagem de Vanessa continuava fixa, como um filme que se repete em looping.
Talvez eu precisasse dar uma passada lá no salão. Só pra conferir, é claro.
Vanessa narrando
O dia passou voando no salão. Depois de Sabrina, vieram mais duas clientes para drenagem linfática e massagem relaxante. Mulheres simpáticas, que me contaram histórias do morro, riram bastante e, ao contrário de Sabrina, me receberam muito bem.
Quando finalizei o último atendimento, ajeitei a sala, limpei os equipamentos e me despedi da Josi e do Fernando, que já estavam no caixa organizando os ganhos do dia.
— Mandou bem hoje, hein? — Josi comentou, com um sorriso. — Todo mundo gostou do seu trabalho.
Sorri de volta, sentindo aquele alívio de primeiro dia cumprido. — Que bom, fico feliz. Amanhã tô aqui de novo!
Saí do salão e o sol já começava a se pôr atrás dos prédios da comunidade, tingindo o céu de tons alaranjados. As ruas estavam cheias, crianças brincando, música alta em algumas casas, vendedores ambulantes gritando ofertas… o caos organizado da Rocinha.
Foi quando vi o Léo do outro lado da rua, encostado em uma moto, conversando com um rapaz. Esperei ele terminar e fui em direção a ele.
— Ei, Léo! — chamei, acenando. Ele levantou o rosto e abriu um sorriso simpático.
— E aí, Vanessa! Como foi no salão? Sobreviveu? — ele riu, cruzando os braços.
— Sobrevivi! — respondi, rindo também. — Mas vim te perguntar uma coisa… você sabe se aqui perto tem alguma academia? Quero começar a malhar, não posso parar minha rotina.
Léo fez uma expressão pensativa. — Academia, academia mesmo… tem umas por aqui, mas são bem simples. Agora, se você quiser treinar de verdade, tem uma galera que treina funcional ao ar livre aqui perto, de manhã cedo. Não é nada chique, mas é puxado.
— Funcional? — meus olhos brilharam. — Adoro! É perto daqui?
— Perto sim. Amanhã cedo eu posso te mostrar onde é, se quiser. — Ele deu de ombros, casual.
— Quero sim! — respondi animada. — Que horas?
— Seis da manhã. É cedo, mas vale a pena.
— Eu topo! — sorri, agradecida. — Obrigada, Léo. Você tá sendo um anjo pra mim desde que cheguei.
Ele deu uma risadinha, balançando a cabeça. — Relaxa… quando eu te levar lá, você vai ver que anjo não é bem a palavra. O treino é punk.
— Eu aguento! — garanti, e ele riu de novo.
Nos despedimos e eu segui pra casa, animada com a ideia de recomeçar meus treinos. Um novo ciclo, novas rotinas. E agora, com Léo me ajudando, parecia que as coisas iam ficar um pouco mais leves por aqui.
Gabriel narrando
A noite caiu na Rocinha, e com ela, a movimentação aumentou. O fluxo nas bocas, o corre da galera, os encontros nos becos. Mas naquela noite, eu queria relaxar.
Peguei a Hilux e desci até a entrada da Boate Sinara, um lugar exclusivo aqui no morro, onde só os que têm moral entram. O segurança me viu de longe, abriu caminho, e eu entrei sem precisar falar nada. A música alta fazia o chão vibrar, as luzes piscavam no ritmo do funk, e o cheiro de bebida e perfume doce tomava conta do ambiente.
As garotas se aproximaram rápido, como sempre. Vestidos colados, maquiagem carregada, sorrisos largos e intenções claras. Me sentei num dos sofás VIP, enquanto duas delas vieram logo se encostar em mim, sorrindo e jogando o cabelo de lado.
— Oi, GF… senti sua falta. — sussurrou uma delas no meu ouvido, passando a mão pelo meu braço.
— Ficou sumido, hein? — completou a outra, deslizando os dedos pelo meu ombro.
Sorri de canto, aceitando o copo de whisky que me entregaram. Isso sempre foi fácil. Desde que assumi o comando, as mulheres nunca faltaram. E eu nunca reclamei disso.
Puxei uma delas pra sentar no meu colo e ficou rebolando em cima do meu p**, enquanto a outra se ajeitava do meu lado, passando as unhas pelos meus ombros. Qualquer um pensaria que eu estava no paraíso… mas, ali no meio daquela agitação, minha mente traía minha vontade.
A garota abaixou e começou a fazer um b*****e. Eu fechei os olhos e, em vez de sentir o t****, aquele r**o de cavalo firme balançando durante a corrida mais cedo apareceu na minha mente. Vanessa, com a pele dourada pelo sol, a legging marcando cada curva, aquela b**** empinadinha, cintura fina, o top preto apertado…
Soltei um suspiro pesado. Dei um gole no whisky, tentando me concentrar no que tava na minha frente. Eu tinha que estar aqui, curtindo, me distraindo.
Mas nada daquilo parecia suficiente. Quanto mais as meninas tentavam me fazer sentir prazer, mais minha cabeça me levava de volta praquela rua, pro jeito firme que ela corria, sem olhar pros lados, como se não tivesse medo de nada. E nisso só fiquei pensando nela, como pode uma mulher chegar e já me deixar desse jeito? Sem nem mesmo eu conhecer ela direito. E nisso g***i pensando nela.