Vanessa narrando
Assim que entrei em casa, ainda com o portão sendo fechado atrás de mim, respirei fundo. Meu coração tava meio acelerado, não sei se era pelo susto de encontrar o dono da caminhonete na porta da minha casa... ou por ele. Porque olha… bonito ele é. Alto, moreno, olhar firme… tem presença. Mas também, que homem grosso! Haja paciência.
Balancei a cabeça tentando afastar aquele pensamento. Eu não vim pra cá pra me envolver com ninguém, muito menos com homem com cara de problema.
Fui direto pra cozinha. Apesar do cansaço, cozinhar me relaxa, e eu precisava disso. Fiz uma salada bem caprichada com o que eu tinha comprado mais cedo no mercado: alface americana, tomate-cereja, frango grelhado desfiado e um molhinho de iogurte que eu adoro. Sentei sozinha na minha mesinha pequena da cozinha, comi devagar, apreciando cada pedacinho.
Depois fui pro banheiro, tomei um banho rápido e fiquei só de lingerie. Deitei na cama, que ainda tava meio bagunçada da mudança, mas era minha, meu cantinho. Do lado, a foto dos meus pais sorrindo, do jeito que eu sempre quero lembrar.
— Amanhã começa minha nova rotina… — falei baixinho, olhando pro teto escuro.
Fechei os olhos com um friozinho na barriga. Primeiro dia no Elegância Studio. Nova casa, novo trabalho, nova vida.
Que Deus me acompanhe.
Vanessa narrando…
05:30 da manhã.
O despertador tocou baixinho, mas o suficiente pra me tirar daquele sono leve. Me espreguicei ainda de olhos fechados e, por um instante, quis ficar mais uns minutinhos deitada. Mas eu sabia que, se deixasse pra depois, não iria.
Levantei decidida, ainda meio sonolenta, mas com aquela animação típica de começo de nova fase. Vesti meu conjuntinho de treino: uma legging preta bem justinha, top preto que desenhava bem meus p****s e uma blusinha de telinha por cima justa. Prendi o cabelo num r**o de cavalo alto, calcei meus tênis de corrida e saí.
A manhã ainda estava escura, com aquele ar fresco e silêncio de começo de dia. A Rocinha acorda cedo, mas naquele horário era só eu, alguns entregadores e os sons distantes da cidade ganhando vida. Corri pelas ruas principais da comunidade, desviando de algumas motos e absorvendo o ambiente. Mesmo com tudo, eu sentia uma certa energia boa ali… viva.
Enquanto corria, meu olhar acabou se voltando pro alto do morro, onde ficava a casa mais imponente dali — a tal casa do “chefão”, que todos comentavam. Era inegável: o lugar chamava atenção, protegido, bonito, com um muro alto e uma entrada chique. E foi ali, na frente da garagem, que eu vi ele… Gabriel.
Ele estava de boné, uma camiseta preta justa no corpo forte, e calça de moletom escura. Abriu o portão com controle remoto e saiu devagar, caminhando até a caminhonete preta que eu já tinha conhecido de perto — ou melhor, que quase me impediu de entrar em casa na noite anterior.
Ele me viu correndo. Nossos olhos se cruzaram por um segundo. Ele ficou me encarando, mas com aquele olhar indecifrável, como se estivesse analisando. Não sorriu, não falou nada. Apenas observou. E eu, tentando parecer natural, segui o ritmo da corrida, sentindo meu rosto esquentar mesmo com o frio da manhã.
"Bonito, sim... mas que homem esquisito," pensei.
Mal sabia eu que aquele olhar rápido dele seria só o começo.
Depois de cerca de 40 minutos, voltei para casa com o rosto suado e as pernas pedindo descanso.
Fui direto pro banho. Deixei a água quente cair sobre meu corpo, lavando o suor e a ansiedade. Lavei os cabelos, hidratei o rosto, fiz minha rotina de cuidados com calma. Me sentia leve, pronta.
Escolhi um look profissional, mas com estilo: calça social de cintura alta, na cor bege, uma blusa branca de tecido leve com leve transparência nas mangas e, nos pés, um scarpin nude. Make leve, só pra realçar meus traços, e um perfume suave que sempre me dá confiança.
Peguei minha bolsa, olhei no espelho uma última vez.
— Vai com tudo, Vanessa… Hoje é o primeiro dia da sua nova história.
Vanessa narrando
rCheguei no Elegância Studio poucos minutos antes das oito. O sol já começava a aquecer o dia e as ruas ao redor do salão estavam começando a encher. Respirei fundo e entrei, sentindo aquele cheiro bom de produtos de cabelo misturado com perfume doce e café fresco.
— Bom dia, minha linda! — disse a Josi com um sorriso caloroso assim que me viu entrar.
— Bom dia! Tô animada, mas com aquele friozinho na barriga…
— Normal, né? Primeiro dia. Mas fica tranquila, você vai arrasar. Vi logo que você leva jeito.
Ela me guiou até a salinha onde ficava a parte estética do salão, bem organizada, com maca, prateleiras com cremes e equipamentos, e uma luz aconchegante. Enquanto mostrava tudo, me entregou um jaleco branquinho com meu nome bordado.
— Sua primeira cliente vai chegar daqui a pouco… é a Sabrina.
— Tudo bem. Alguma recomendação especial? — perguntei, pegando minha agenda.
— Recomendo paciência, só isso — ela riu, mas com um toque de sinceridade. — A Sabrina é daquelas que se acham. Tem uma postura de "madame do morro", sabe? Se envolve com o Gabriel, o GF...
— O GF? — perguntei, fingindo desinteresse.
— É, o cara que comanda tudo por aqui. Ela jura que um dia vai ser a “esposa oficial”, mas todo mundo sabe que ele não se apega a ninguém. Mesmo assim, ela age como se fosse dona dele.
— Entendi…
Não entendi nada. Ou melhor, entendi sim, e aquilo me deu uma pontada estranha no peito. Vai ver era só curiosidade mesmo. Respirei fundo e comecei a organizar meus materiais.
Pouco tempo depois, ela chegou.
Sabrina era do tipo que entrava como se estivesse desfilando: cabelos loiros platinados, unhas gigantes, um vestido colado ao corpo e um olhar de quem mede qualquer mulher com desdém.
— Você é a nova? — ela perguntou, me analisando de cima a baixo.
— Sim, sou a Vanessa, prazer. Esteticista corporal.
— Aham… — ela ergueu uma sobrancelha, cruzou os braços. — Espero que saiba lidar com pele sensível. Eu sou muito exigente.
Sorri com educação.
— Pode deixar. Cuido de você com toda delicadeza.
Ela se deitou na maca com a pose de quem reina sobre tudo. E eu comecei o atendimento, mantendo minha postura. Ao fundo, a música do salão tocava baixinho. Mas dentro de mim, a tensão só crescia.
Porque eu já sabia: naquele lugar, nada ia ser simples.
E Sabrina... era só o começo.
Gabriel narrando
Acordei cedo, como sempre. Antes das seis, o sol m*l tinha aparecido no horizonte. Fiz minhas higienes, tomei um banho rápido e vesti uma camiseta preta colada e a calça de moletom. Desci as escadas da casa, a mais alta da Rocinha, onde eu podia ver tudo lá de cima.
Na cozinha, Jessica, minha governanta, já tinha deixado o café pronto. Forte, do jeito que eu gostava. Bebi sem pressa, observando os primeiros movimentos lá embaixo. O morro acorda cedo, o povo corre pra ralar, e os meus homens já tavam espalhados pelos pontos estratégicos.
Peguei as chaves da caminhonete e saí, a manhã ainda tava fresca. Quando abri o portão, foi que eu vi ela… Vanessa, a tal esteticista.
Correndo pela rua principal, passada firme, sem olhar pros lados. Usava uma legging preta que marcava cada curva do jeito certo, um top preto com uma blusa colada no corpo que deixava a pele dourada à mostra. O cabelo preso num r**o de cavalo balançava no ritmo dos passos. Não tinha um pingo de medo nos olhos, parecia segura, livre… diferente.
“Gata demais pra tá aqui,” pensei, encostado na caminhonete, observando enquanto ela passava. Só admirando como é gata e g*****a ao mesmo tempo com aquela roupa, me deu um t**** na hora. Vanessa nem olhou pra mim. Seguiu firme, focada. Aquilo me chamou atenção. Geralmente, as mulheres se encolhem, desviam o olhar, fingem que não me veem. Ela não.
Fechei o portão e entrei no carro, mas aquela imagem dela não saiu da minha cabeça. O jeito que ela corria, a postura, até o balanço do cabelo… era diferente de tudo que eu tava acostumado. Liguei o motor e saí, tinha uma carga nova chegando e eu precisava conferir de perto, mas a cena dela correndo insistia em se repetir na minha mente.
Dei um murro leve no volante, irritado comigo mesmo.
— Qual é, Gabriel? Mulher é o que mais tem. — falei pra mim, tentando afastar o pensamento.
Mas era mentira. Não como aquela.