As palavras arrancaram um pequeno sorriso de Lia, que rapidamente desapareceu. "Não estou acostumada a gentilezas."
"Eu também não," respondeu Dante. "Acho que é por isso que parece ser a coisa certa a fazer."
Lia estudou-o por um momento, tentando entender o que movia aquele homem. Ela finalmente assentiu, aceitando a garrafa de água que ele estendeu. Tomou um pequeno gole, apenas o suficiente para molhar a garganta, e devolveu-a sem dizer nada.
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**A Noite Chega**
O silêncio entre eles foi confortável, quase estranho, enquanto a noite se aproximava. Ambos acenderam pequenas lanternas, evitando o fogo que poderia atrair atenções indesejadas.
"Há quanto tempo você está sozinho?" perguntou Lia, quebrando o silêncio.
"Tempo suficiente para esquecer como é confiar em alguém," ele respondeu, pensativo. "E você?"
"Desde sempre, parece," ela murmurou. "As poucas pessoas que conheci... não duraram muito."
Dante assentiu, a dor em sua expressão revelando que ele entendia. "O mundo não é gentil com pessoas boas."
Lia encarou-o, dessa vez sem desviar o olhar. "Você acha que ainda existem pessoas boas?"
Ele refletiu por um momento, antes de responder: "Talvez. Mas acho que estamos todos apenas tentando sobreviver. O que nos define é o que fazemos nesse processo."
Ela ficou em silêncio, absorvendo as palavras. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu algo diferente — não exatamente confiança, mas uma curiosidade genuína sobre a pessoa à sua frente.
Quando seus olhos se encontraram de novo, havia um entendimento silencioso entre eles. O mundo ao redor era c***l e frio, mas, por um breve momento, o peso da solidão parecia um pouco mais leve.
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Um Elo Frágil
O amanhecer trouxe uma luz pálida, filtrada pelas nuvens cinzentas que dominavam o céu. Dentro da estação, Lia despertou ao som de passos leves. Seus olhos se abriram instantaneamente, e sua mão voou para a faca ao lado.
Dante estava de pé, mexendo em sua mochila com movimentos cuidadosos. Ele notou que ela havia acordado e levantou as mãos de forma teatral.
"Calma, só estou pegando comida," disse ele, com um meio sorriso.
Lia relaxou, mas apenas um pouco. "Você devia avisar antes de começar a andar por aí."
"Desculpe," ele respondeu, enquanto tirava um enlatado e o abria com um canivete gasto. "Acha que dá pra dividir isso? Prometo que é comestível."
Ela observou por um momento, ainda avaliando se podia confiar nele. Mas, em vez de responder, pegou sua própria mochila e tirou o pedaço de pão seco que guardara da noite anterior. "Você dá o que tem, e eu faço o mesmo."
Dante sorriu, balançando a cabeça. "Justo."
Os dois comeram em silêncio, alternando olhares rápidos. Lia não sabia ao certo por que ainda permitia que ele ficasse por perto. Algo nele era diferente, mas ela ainda não conseguia identificar o quê.
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**Explorando as Ruínas**
Depois de comerem, Lia se levantou, limpando as migalhas das mãos. "Vou explorar um pouco. Quero ver se encontro algo útil por aqui."
"Posso ir com você?" Dante perguntou.
Ela franziu o cenho, considerando a ideia. "Se eu disser que não, você vai me seguir de qualquer forma?"
"Provavelmente," ele admitiu, com um sorriso de canto.
Lia revirou os olhos, mas acabou assentindo. "Tudo bem. Mas fique atrás de mim. E não faça barulho."
Os dois saíram juntos, caminhando pelas ruínas ao redor da estação. Os prédios destruídos e as ruas cobertas de entulho contavam histórias de um mundo que não existia mais. Lia movia-se com destreza, evitando pontos vulneráveis no terreno, enquanto Dante a seguia com cuidado.
"Você parece saber o que está fazendo," ele comentou, depois de um tempo.
"É o que me manteve viva até agora," respondeu ela, sem olhar para trás.
"Você sempre esteve sozinha?"
A pergunta a pegou de surpresa, mas ela não deixou transparecer. "Sempre," disse simplesmente.
Ele não insistiu, mas ela sentiu o peso de seu olhar.
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**O Perigo Surge**
Enquanto caminhavam por uma rua estreita, um som os fez parar. Era o barulho de passos — muitos passos. Lia ergueu a mão, indicando que Dante ficasse quieto.
"Estão vindo dessa direção," ela sussurrou, apontando para uma esquina mais à frente.
"Quem são?" ele perguntou, a voz baixa.
"Saqueadores, provavelmente. Ou algo pior."
Os dois se esconderam atrás de uma pilha de destroços, respirando baixo. Os passos se aproximaram, acompanhados por vozes ásperas.
"Não acredito que o velho morreu assim," disse uma voz masculina.
"Ele era fraco. Não aguentaria mais de qualquer forma," respondeu outra, com desdém.
Lia olhou para Dante, que estava
Lia gesticulou para Dante abaixar ainda mais o corpo, pressionando o dedo aos lábios em um pedido silencioso de silêncio absoluto. Ele acenou com a cabeça, engolindo em seco enquanto seus olhos permaneciam fixos no canto de onde vinham as vozes.
"Vamos verificar aquela estação velha. Pode ter algo que valha a pena," disse a primeira voz, e os passos ficaram mais próximos.
Lia prendeu a respiração. O som dos passos ecoava pelas paredes de concreto quebrado, cada vez mais alto. A adrenalina fazia suas mãos suarem enquanto ela apertava a faca.
Dante inclinou-se ligeiramente em sua direção, sussurrando tão baixo que ela quase não ouviu: "Se nos virem..."
Ela sabia o que ele não teve coragem de dizer. Se fossem descobertos, seria uma luta pela sobrevivência — e as chances não estavam a seu favor. Lia olhou ao redor, buscando rapidamente uma rota de fuga. Seu olhar encontrou um buraco na parede de um prédio próximo. Era estreito, mas grande o suficiente para que passassem.
Lia tocou o ombro de Dante e apontou para o buraco, sussurrando: "Ali. Devagar."
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**A Fuga Cautelosa**
Os dois começaram a se mover em silêncio, com Lia liderando. Seus passos eram leves como o de um gato, e Dante fazia o melhor para imitá-la, embora não tivesse a mesma habilidade. Quando estavam a poucos metros do buraco, uma pedra escorregou sob o pé de Dante, emitindo um leve som de arranhado.
"Você ouviu isso?" perguntou a voz masculina, abruptamente parando.
Lia lançou um olhar mortal para Dante, que ficou imóvel, respirando pesado. Os passos dos saqueadores agora vinham na direção deles.
Sem pensar, Lia agarrou o braço de Dante e o puxou com força, praticamente empurrando-o para dentro do buraco. Eles se apertaram no espaço pequeno, onde a escuridão os engoliu. Do lado de fora, as vozes se aproximavam