O Nascimento

1052 Words
Anita estava exausta. Grande dilatação e um esforço imenso para fazer vir ao mundo o fruto do seu ventre. Até que cerca de uma hora de trabalho de parto, o pequeno garoto saiu. “Um menino!”, disse a obstetra ao levantar a criança. Anita estava exausta e, mesmo assim, teve forças para sorrir. Havia acabado de dar à luz a uma criança. Um menino brasileiro de sangue italiano. Filippo ficou emocionado com o nascimento de seu filho. Nasceu um menino como ele queria. Era o começo de uma nova era. Uma nova fase nas vidas deles. Agora, a cidadania brasileira se tornaria mais fácil. Tendo um filho nascido e registrado no Brasil facilitaria o pedido de cidadania. Não queriam mais recordar suas origens. Deixaram na Itália todo o sofrimento e dificuldade que enfrentavam. Agora, estavam numa nova fase, como um nascer de novo, como o nascimento desse filho. – Che bello! O chamarei de Paolo. – Assim afirmou Filippo ao pegar o filho em seus braços pela primeira vez. Depois de todo o procedimento, foram dispensados para casa. Anita, Filippo e o pequeno Paolo que seria registrado no cartório da cidade. Filippo estava muito feliz com a criança, apesar de eles serem novos. Ser pai era uma nova responsabilidade que ele estava disposto a encarar. São Paulo estava crescendo. Os bondinhos elétricos tomavam conta das ruas, em seus primeiros anos de existência na capital paulista. A cidade ganhava cara e charme italiano, pois eram muitos imigrantes. A maioria dos italianos que desembarcavam no porto de Santos não permaneciam na cidade litorânea. Eles davam preferência à capital paulista por conta das oportunidades. Lá, encontravam empregos nos comércios, podendo levar uma vida diferente daquela sofrida vida no campo. Outros tantos preferiam o campo. Iam para cidades do interior, próximas ou mais distantes da capital São Paulo, para repetir o que sabiam fazer com o cultivo do solo como era na Itália. Anita e Filippo escolheram a capital, pois era o grande centro comercial. Ali podiam trabalhar livremente no centro e na região que daria lugar mais tarde ao famoso Brás. Eram comerciantes natos e só se viam bem no centro urbano. – Veramente viver aqui é melhor do que tentar a vida no campo. – Davvero. Io penso che nostro filho pode ser educado em escola, diferente de nós due. – Capisco. Assim é, amada minha. Eram jovens, mas sem estudo. Naquele tempo o mais importante era ajudar os pais nos trabalhos, principalmente no campo. Somente famílias que viviam nos grandes centros urbanos tinham acesso à educação. A Itália era um país com muitos dialetos e pouca gente que dominava a língua oficial, o italiano. Nos anos 1900, a Itália contava com mais da metade de sua população adulta analfabeta. O mesmo vinha se repetindo no Brasil com a chegada da primeira geração de imigrantes. Os analfabetos de lá dificilmente aprendiam um bom português aqui. Apesar das línguas serem bastante parecidas, era comum notar na fala dos imigrantes o erro de conjugação da maioria dos verbos e a dificuldade de escrita. Pouquíssimos aprenderam a falar bem o português com o tempo. Mas seus filhos e netos tiveram acesso às escolas. Logo, no começo das grandes universidades públicas federais, os italianos, assim como outros imigrantes (alemães e polacos) dominaram as carteiras universitárias. Eram os filhos dos “colonos” que ingressavam nas universidades, tendo a oportunidade de estudar como seus pais não tiveram. Assim foi a formação intelectual do povo descendente de italianos. Isso levou o progresso para diversas regiões do Brasil, principalmente para o interior onde viviam os imigrantes. Ali, os filhos e netos dos italianos puderam levar conhecimento técnico e científico para aprimorar o trabalho no campo, aumentando também o poder aquisitivo deles. As famílias italianas se mostraram mais prósperas do que a dos descendentes de portugueses e de indígenas como, também, de descendentes de escravos africanos. Mas nem sempre foi fácil. Também houve preconceito. Os brasileiros sempre foram bastante acolhedores. Mas, houve sim um certo preconceito por parte dos brasileiros. Italianos tiveram que se socializar mais entre si durante um bom tempo. Houve também relatos de exploração (a nível semelhante de e********o) em terras, principalmente das de plantio de café. Essa “denúncia” fez com que o governo italiano suspendesse a vinda de navios do Vêneto para o Brasil. A partir de 1902, os navios vindos da Itália foram mais raros. Filippo e Anita tiveram uma grande oportunidade em ter vindo antes de 1902. Em solo brasileiro tiveram uma criança que cresceria num centro urbano, diferente deles que cresceram na dificuldade do campo. Paolo teria acesso à educação, coisa que os dois não tiveram. Seria alfabetizado na língua portuguesa, algo que o jovem casal jamais foi. Não aprenderia a língua italiana. Filippo e Anita não queriam que as marcas da Itália fossem presentes em seu filho. Já bastava o traço italiano. Não ensinariam sobre língua, cultura, etc., nada da Itália seria lembrado. Quando um dia ele questionasse, então diriam que a Itália foi a parte triste de suas vidas e que agora o Brasil era a alegria de viver. Mas, nem todos os imigrantes agiam assim. Muitos preservaram a cultura, a gastronomia e a língua da Itália. Danças, música e trajes, tudo o que pudesse lembrar a Itália era visto com muito orgulho por eles. As tradições italianas foram mais fortes no sul do Brasil. Em São Paulo, ainda se mantiveram, em especial o preparo e comercialização da pizza. Apreciar um bom vinho também é algo marcante da cultura italiana. Mas, a língua não se fez presente na capital paulista. Ao passo que os imigrantes iam tendo contato com os brasileiros, deixavam de lado a maioria de suas expressões idiomáticas, dando lugar ao jeito brasileiro de falar. Naquele tempo, o sotaque brasileiro era diferente do de hoje, mas os italianos logo o aprenderam. Filippo, na Itália era mais conhecido como Filippo Gianini (usava mais o sobrenome do meio – que era o paterno), ou entre seus familiares era o Pippo. Mas o seu nome completo era Filippo Gianini Rossi, vindo a ser conhecido no Brasil mais pelo último sobrenome (o de sua mãe). Anita se chamava Anita Derenzi Mantovanelli. Quando registraram Paolo, usaram os últimos sobrenomes, como de costume no Brasil. Então, Paolo foi registrado como Paolo Mantovanelli Rossi.
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