— Fala comigo. Onde está teu irmão.
— Eu não sei. Non lo so.
— Come no? Fala logo, bugiardo (mentiroso)!
— Sério, pai. Já disse que não sei.
— Ele não te contou nada?
— Ele me perguntou um dia como seria se eu viajasse de navio para outro país.
— Sério isso?
— Sim, pai.
— Maledetto! Então, ele só pode ter tomado um navio rumo à América do Sul.
Semelhantemente, na casa de Anita estavam todos preocupados. Ninguém sabia do paradeiro dela.
— Che cosa! Dove foi essa menina?
— É inacreditável!
— Perdemos nossa filha para o mundo.
— Mas a culpa foi tua por ter falado com ela daquela maneira.
— Minha? Sou o homem desta casa e não admito aquele tipo de comportamento.
— Que faremos?
— Eu não sei. Non lo so.
O navio já estava bem distante do Vêneto. A bordo, Anita e Filippo se abraçavam. Olhares sérios, mas de um jovem casal que está se conhecendo, descobrindo a felicidade. Nada sabem sobre o país para onde estão indo. Só sabem que o clima é bem quente.
Filippo está deitado, camisa desabotoada e peito à mostra. Uma calça azul escuro já suja da poeira do navio. Abraça sua amada, que recosta a cabeça sobre seu peito.
Ainda muito jovens. Até pouco tempo não sabiam o que era vida a dois. Agora que estão conhecendo uma vida de marido e mulher.
Oficialmente, não há nenhum documento que atesta a união dos dois. Mas, é algo a ser solucionado em solo brasileiro.
A viagem, como as demais, terá duração aproximada de quarenta dias. Uma viagem longa e sem muito conforto. As condições do navio não são muito boas. As pessoas ali estão quase que amontoadas umas sobre as outras. Pouco espaço e muita gente.
Nem todos os tripulantes encontram-se em bom estado de saúde. Também, há gente de todas as faixa etárias. Sobretudo, são os mais jovens que predominam.
O Oceano Atlântico, logo quando o navio deixa o Mediterrâneo, se mostra bravio. Ao passar pelo estreito de Gibraltar sentem o furor das ondas. O navio chacoalha um pouco. Mas, não é nada que possa por em risco a integridade física da tripulação.
Ali, não podem desfrutar do que mais querem. Só foi uma noite, no quarto do hotel. Depois disso, tiveram que se contentar com beijos e abraços.
O navio é apertado, apesar de imenso. O saguão ficou pequeno com tanta gente. Sim, o navio está abarrotado de gente.
Vento forte encontrou o navio, vindo em posição contrária a ele, logo quando adentraram no Atlântico.
O local é perigoso e cenário de naufrágios, desde os tempos das grandes navegações. Felizmente, o comandante é muito bom no que faz.
— Amore mio. Como és linda!
— Oh, meu príncipe. Tu sei bello!
Se beijaram por um longo tempo. Estavam felizes, apesar de saberem que na Itália deixavam suas origens. Não mais veriam seus pais, irmãos e todos os seus familiares.
— Queres café?
— Sim, per favore.
Filippo levantou-se e foi à cozinha do navio para pegar café. Alguns ratos passaram ligeiros pelo chão. As condições eram precárias.
Um pouco de queijo, que Filippo teve receio de pegar. Alguns pães sobre a mesa e café. Pegou dois copos e dois pães.
— Grazie mille.
Caminhou de volta até onde Anita encontrava-se sentada.
— Aqui está.
— Grazie.
— Não quis pegar o queijo. Não estava num aspecto bom.
— Não tem problema.
— Estás pensativa.
— La mia famiglia.
— Sente falta de teus pais, né?
— Sim. — Anita olhou cabisbaixa, mordendo o pão. — Eles nem sabem onde estou.
— Meus pais também não.
Anita ficou calada. Terminou de fazer la colazione (café-da-manhã). Nada falou até Filippo quebrar o silêncio novamente.
— Toma. É pra ti.
Filippo entregou a ela uma linda rosa vermelha. Ele havia a encontrado caída no chão da cozinha, ao lado da mesa.
— Grazie mille, meu príncipe! Ela é linda.
— De nada. Tão linda quanto és.
Anita sorriu. Filippo conseguiu converter o rosto triste da jovem amada numa feição alegre.
Contigo cruzo mares
Por ti não meço esforços
Irei muito além
Para te ver sorrir
E quando eu sentir
Que o vento frio me perturba
Eu sei que o teu calor
Sempre me aquecerá
Com o teu amor infindo.
No navio, Filippo fez algumas amizades com rapazes que ali jogavam. Gostavam de jogos de cartas, de tabuleiro, destacando-se a dama, o xadrez e o ludo.
Seria uma viagem menos cansativa, pois poderia desfrutar de momentos de lazer com os outros rapazes.
Por sua vez, Anita buscou amizade com as moças e jovens senhoras do navio. Elas contavam suas histórias de família e seus romances na Itália. Todas ali desconheciam o Brasil e esperavam uma boa vida no novi país.
— Quaranta giorni! (Quarenta dias) Muito tempo no mar.
— Cos'è. Felizmente, temos este entretenimento.
— Davvero, uomo. Deixei meus pais sem sequer despedir-me deles.
— Que triste! És um aventureiro.
— Estou buscando uma nova vida ao lado da minha ragazza.
— Que bom. Vieste acompanhado.
— Sim. É uma boa companhia.
— Espero que tudo dê certo para ti no Brasil.
— Grazie. Ugualmente a te.
Anita sentia frio e foi buscar o calor dos braços do seu amado. Se beijaram e deitaram sobre o leito improvisado.
— É uma aventura. Sei que sentirei falta dos meus pais. Mas, estando contigo, tenho paz.
— Me alegro por ouvir estas palavras, amore mio. Tu sei la meglio cosa que me ocorreu. Princesa minha.
— Meu belo príncipe. Como eu te amo!
— Anch'io ti amo!
Beijaram-se bastante. No escuro, tocaram-se. Mesmo sabendo que não poderiam ir além disso. Estavam ansiosos pela nova vida quando chegassem à terra firme.
— Te necessito!
— Me enlouqueces!
— Sou toda tua!
— Sou teu por completo!
E esses dois corações, que se amam intensamente, só aumentam o desejo de dois corpos que inflamam em paixão. Não veem a hora de se entregarem um ao outro por completo como da primeira vez. Além do horizonte estão, a bordo de um navio, distante da família que deixaram na Europa. Uma nova vida, uma nova jornada a seguir.