Além do Horizonte

1035 Words
— Fala comigo. Onde está teu irmão. — Eu não sei. Non lo so. — Come no? Fala logo, bugiardo (mentiroso)! — Sério, pai. Já disse que não sei. — Ele não te contou nada? — Ele me perguntou um dia como seria se eu viajasse de navio para outro país. — Sério isso? — Sim, pai. — Maledetto! Então, ele só pode ter tomado um navio rumo à América do Sul. Semelhantemente, na casa de Anita estavam todos preocupados. Ninguém sabia do paradeiro dela. — Che cosa! Dove foi essa menina? — É inacreditável! — Perdemos nossa filha para o mundo. — Mas a culpa foi tua por ter falado com ela daquela maneira. — Minha? Sou o homem desta casa e não admito aquele tipo de comportamento. — Que faremos? — Eu não sei. Non lo so. O navio já estava bem distante do Vêneto. A bordo, Anita e Filippo se abraçavam. Olhares sérios, mas de um jovem casal que está se conhecendo, descobrindo a felicidade. Nada sabem sobre o país para onde estão indo. Só sabem que o clima é bem quente. Filippo está deitado, camisa desabotoada e peito à mostra. Uma calça azul escuro já suja da poeira do navio. Abraça sua amada, que recosta a cabeça sobre seu peito. Ainda muito jovens. Até pouco tempo não sabiam o que era vida a dois. Agora que estão conhecendo uma vida de marido e mulher. Oficialmente, não há nenhum documento que atesta a união dos dois. Mas, é algo a ser solucionado em solo brasileiro. A viagem, como as demais, terá duração aproximada de quarenta dias. Uma viagem longa e sem muito conforto. As condições do navio não são muito boas. As pessoas ali estão quase que amontoadas umas sobre as outras. Pouco espaço e muita gente. Nem todos os tripulantes encontram-se em bom estado de saúde. Também, há gente de todas as faixa etárias. Sobretudo, são os mais jovens que predominam. O Oceano Atlântico, logo quando o navio deixa o Mediterrâneo, se mostra bravio. Ao passar pelo estreito de Gibraltar sentem o furor das ondas. O navio chacoalha um pouco. Mas, não é nada que possa por em risco a integridade física da tripulação. Ali, não podem desfrutar do que mais querem. Só foi uma noite, no quarto do hotel. Depois disso, tiveram que se contentar com beijos e abraços. O navio é apertado, apesar de imenso. O saguão ficou pequeno com tanta gente. Sim, o navio está abarrotado de gente. Vento forte encontrou o navio, vindo em posição contrária a ele, logo quando adentraram no Atlântico. O local é perigoso e cenário de naufrágios, desde os tempos das grandes navegações. Felizmente, o comandante é muito bom no que faz. — Amore mio. Como és linda! — Oh, meu príncipe. Tu sei bello! Se beijaram por um longo tempo. Estavam felizes, apesar de saberem que na Itália deixavam suas origens. Não mais veriam seus pais, irmãos e todos os seus familiares. — Queres café? — Sim, per favore. Filippo levantou-se e foi à cozinha do navio para pegar café. Alguns ratos passaram ligeiros pelo chão. As condições eram precárias. Um pouco de queijo, que Filippo teve receio de pegar. Alguns pães sobre a mesa e café. Pegou dois copos e dois pães. — Grazie mille. Caminhou de volta até onde Anita encontrava-se sentada. — Aqui está. — Grazie. — Não quis pegar o queijo. Não estava num aspecto bom. — Não tem problema. — Estás pensativa. — La mia famiglia. — Sente falta de teus pais, né? — Sim. — Anita olhou cabisbaixa, mordendo o pão. — Eles nem sabem onde estou. — Meus pais também não. Anita ficou calada. Terminou de fazer la colazione (café-da-manhã). Nada falou até Filippo quebrar o silêncio novamente. — Toma. É pra ti. Filippo entregou a ela uma linda rosa vermelha. Ele havia a encontrado caída no chão da cozinha, ao lado da mesa. — Grazie mille, meu príncipe! Ela é linda. — De nada. Tão linda quanto és. Anita sorriu. Filippo conseguiu converter o rosto triste da jovem amada numa feição alegre. Contigo cruzo mares Por ti não meço esforços Irei muito além Para te ver sorrir E quando eu sentir Que o vento frio me perturba Eu sei que o teu calor Sempre me aquecerá Com o teu amor infindo. No navio, Filippo fez algumas amizades com rapazes que ali jogavam. Gostavam de jogos de cartas, de tabuleiro, destacando-se a dama, o xadrez e o ludo. Seria uma viagem menos cansativa, pois poderia desfrutar de momentos de lazer com os outros rapazes. Por sua vez, Anita buscou amizade com as moças e jovens senhoras do navio. Elas contavam suas histórias de família e seus romances na Itália. Todas ali desconheciam o Brasil e esperavam uma boa vida no novi país. — Quaranta giorni! (Quarenta dias) Muito tempo no mar. — Cos'è. Felizmente, temos este entretenimento. — Davvero, uomo. Deixei meus pais sem sequer despedir-me deles. — Que triste! És um aventureiro. — Estou buscando uma nova vida ao lado da minha ragazza. — Que bom. Vieste acompanhado. — Sim. É uma boa companhia. — Espero que tudo dê certo para ti no Brasil. — Grazie. Ugualmente a te. Anita sentia frio e foi buscar o calor dos braços do seu amado. Se beijaram e deitaram sobre o leito improvisado. — É uma aventura. Sei que sentirei falta dos meus pais. Mas, estando contigo, tenho paz. — Me alegro por ouvir estas palavras, amore mio. Tu sei la meglio cosa que me ocorreu. Princesa minha. — Meu belo príncipe. Como eu te amo! — Anch'io ti amo! Beijaram-se bastante. No escuro, tocaram-se. Mesmo sabendo que não poderiam ir além disso. Estavam ansiosos pela nova vida quando chegassem à terra firme. — Te necessito! — Me enlouqueces! — Sou toda tua! — Sou teu por completo! E esses dois corações, que se amam intensamente, só aumentam o desejo de dois corpos que inflamam em paixão. Não veem a hora de se entregarem um ao outro por completo como da primeira vez. Além do horizonte estão, a bordo de um navio, distante da família que deixaram na Europa. Uma nova vida, uma nova jornada a seguir.
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