CAPÍTULO 3
Narrado por Helena
A festa já estava quase no fim.
A maior parte dos convidados havia chegado, os conselheiros da Cosa Divina brindavam com meu pai e discutiam em cantos reservados, enquanto as esposas observavam tudo com olhares atentos e sorrisos falsos. Eu estava encostada numa das colunas de mármore do salão principal, tentando respirar. O vestido já me incomodava, o salto machucava, e meu coração parecia mais apertado do que o espartilho que me enfiaram horas antes.
Eu ainda pensava na conversa que ouvi no fim da noite anterior.
Noivo. Contrato. Casamento.
Três palavras que se cravaram na minha mente como lâminas afiadas. Meu pai não disse nada. Jertrudes se limitou a fingir que nada havia mudado. Mas eu sabia. Algo estava prestes a acontecer. E ninguém se importava se eu estava preparada.
Foi então que o barulho dos pneus na entrada da mansão interrompeu tudo.
Quatro carros pretos. Vidros escuros. Motores potentes. Nenhum deles tinha a placa do clã Bellucci.
Meu pai levantou a cabeça imediatamente. Os conselheiros italianos se viraram em alerta. Eu franzi a testa, olhando pela janela. A movimentação do lado de fora era diferente. Coordenada. Séria.
Portas se abriram e homens vestidos de preto desceram. Seguranças. Soldados da máfia. E então, de dentro do último carro, saiu um homem.
Ele.
Mesmo sem saber seu nome, mesmo sem nunca tê-lo visto antes, meu corpo inteiro reconheceu a autoridade que vinha com ele.
Alto. Largura de ombros que enchia o terno. Postura de predador.
Cabelos claros perfeitamente penteados para trás, olhos tão claros que pareciam gelo cortando o mundo. O rosto era angular, marcado por traços duros e uma barba bem feita. Andava com passos calculados, como se o chão se curvasse a cada pisada.
Meu coração deu um pulo.
Havia algo nele que congelava o ambiente, como se o próprio ar decidisse parar de circular só para não atrapalhar sua presença.
E então, como se fosse o protagonista de uma peça silenciosa, ele atravessou o jardim e entrou no salão. Os músicos pararam por um segundo, retomando a melodia com dedos trêmulos. Os conselheiros se entreolharam. Meu pai franziu o cenho.
— O que ele está fazendo aqui? — ouvi Lorenzo murmurar para Jertrudes.
— Ele não avisou. Nem ao clã russo. Nem a ninguém. — ela respondeu, tensa.
Foi quando ele parou diante de nós. Atrás dele, seus conselheiros russos formavam uma parede impenetrável.
— Don Lorenzo Bellucci. — a voz dele era firme, baixa, mas poderosa. — Parabéns pela filha.
Meu pai forçou um sorriso.
— Don Volkov... Eu não esperava sua presença hoje. — disse com tom político, tentando esconder a surpresa.
— Eu gosto de observar o que estou comprando antes de assinar o recibo. — ele respondeu, encarando meu pai como se isso fosse o mais natural do mundo.
Senti meu estômago virar.
Comprando.
Não consegui esconder o desconforto no rosto. Ele percebeu. E, por um breve segundo, seus olhos encontraram os meus.
Eu desejei que não tivessem.
Era como encarar um abismo. Azul. Frio. Perigoso. Ele me analisou de cima a baixo sem pressa, como se estivesse decifrando cada parte de mim. Senti meu corpo inteiro encolher. E, ao mesmo tempo, algo dentro de mim... queimou.
— Então esta é Helena. — disse, ainda me olhando. — A filha do Don.
— Sim. Minha única herdeira. — respondeu meu pai, me empurrando suavemente pra frente.
Fiquei ali, parada diante dele, como se tivesse sido colocada em exposição. A luz do lustre refletia nos olhos de gelo daquele homem. Ele deu um passo à frente.
— Feliz aniversário, Helena.
— Obrigada. — murmurei, tentando não gaguejar.
Ele estendeu a mão. Hesitei por um segundo, depois aceitei. Sua pele era quente. Forte. Dominante. Senti um arrepio subir pela espinha.
Ele não me beijou a mão. Nem sorriu. Apenas segurou meus dedos como se quisesse sentir a estrutura dos meus ossos.
— Você parece mais jovem do que me disseram. — falou com um traço quase irônico.
— Tenho dezoito. — respondi, tentando parecer firme.
— Eu sei. Mas tem cara de dezesseis. — soltou, e então se virou para meu pai. — Vamos conversar.
Eles se afastaram em direção à sala de reuniões, deixando o salão em murmúrio. Os italianos cochichavam. As esposas cochichavam. E eu fiquei ali, no centro do salão, com a mão ainda formigando do toque dele.
Dimitri Volkov.
O nome dele ecoava nos corredores da máfia como um sussurro de morte. Don da Bratva Krov, a máfia russa mais poderosa da Europa. Diziam que ele matou o próprio tio para assumir o trono. Que seus olhos já viram mais cadáveres do que qualquer soldado em guerra. Que nunca foi visto com uma mulher duas vezes. E agora... ele era meu noivo.
E ninguém me contou.
Jertrudes apareceu ao meu lado, como uma sombra.
— Você se comportou bem.
— Isso tudo estava combinado?
— Foi um acordo. Seu pai só não esperava que ele viesse hoje.
— E eu? Eu não precisava saber?
— Você precisava estar preparada. — disse, com aquela frieza de sempre. — E estava.
Me afastei dela. Senti a garganta apertar. Fui até o jardim, onde o ar era menos denso. Me apoiei na mureta de pedra e respirei fundo.
Volkov não era como os rapazes que sonhei. Ele não parecia nem humano. Era um homem. Um predador. E eu... uma isca. A diferença de idade era mais do que evidente. Ele tinha quase o dobro da minha idade. Era mais velho que meu professor de história no internato. E estava me olhando como se já fosse dono de mim.
Mas por alguma razão... eu não conseguia odiar aquilo.
Senti medo. Mas também algo que não sabia nomear. Curiosidade, talvez. Uma atração que me dava raiva.
Voltei pro salão depois de meia hora. Volkov já estava sentado numa poltrona, conversando com meu pai e dois conselheiros. Quando me viu, não tirou os olhos de mim por um segundo sequer.
— Helena, venha aqui. — chamou meu pai.
Fui.
— Don Volkov ficará hospedado no hotel Grand de Parma pelos próximos dias. — disse meu pai, formal. — Ele pediu para conhecê-la melhor... antes do anúncio oficial.
— Anúncio? — perguntei, gelada.
Volkov me interrompeu.
— Amanhã à noite. O noivado será anunciado publicamente. Entre a Cosa Divina e a Bratva Krov.
Fiquei sem ar.
Noivado.
Amanhã.
Voltei para o quarto sem dizer mais nada. Tranquei a porta e encostei as costas nela, tentando entender se aquilo era mesmo minha vida agora.
Ele chegou. Tomou tudo com uma presença. Um olhar. Uma decisão.
E amanhã, todo mundo saberá que eu pertenço a ele