OS PREPARATIVOS DO CASAMENTO

993 Words
CAPÍTULO 5 Narrado por Helena Dois dias depois da festa, a notícia caiu como uma bomba no meio do café da manhã. — O casamento será em quinze dias — disse meu pai, sem levantar os olhos do jornal. — Nada grandioso. Apenas uma recepção íntima. O necessário para selar o acordo com honra. Fiquei parada, segurando a xícara de chá como se fosse vidro prestes a estilhaçar. — Quinze dias? — repeti, como se ele tivesse me informado que eu morreria em duas semanas. — Sim. Dimitri prefere discrição. — ele disse como quem comenta o tempo. — E você aceitou isso? — olhei pra ele, tentando entender como alguém podia entregar a filha como se fosse uma encomenda com prazo de validade. Ele apenas bufou, dobrando o jornal. — Isso não é sobre você, Helena. É sobre todos nós. E você vai se comportar como uma Bellucci. Levantei da mesa antes que o estômago se revoltasse de vez. Aquele chá já estava entalado na garganta. Subi pro meu quarto com o coração batendo mais rápido do que deveria. Quinze dias. Nem vestidos escolhidos, nem alianças, nem uma conversa decente com meu noivo. Um homem que me tratava com a mesma frieza que usaria pra comandar um pelotão. Desde a noite da festa, não trocamos uma palavra sequer. Ele foi embora no dia seguinte, com seus conselheiros, como se tudo já estivesse acertado. E de fato estava. Eu não fazia parte das decisões. Eu era a decisão. Jertrudes veio ao meu quarto poucas horas depois da conversa com meu pai. — Vamos começar os preparativos hoje mesmo. A estilista da família Bellucci chegará à tarde. Ela vai tirar suas medidas. A casa de joias já está preparando as alianças. — Eu posso dizer não? Ela me olhou como se eu fosse uma criança mimada. — Você pode fazer o que quiser, desde que não se esqueça quem é. Nem para quem você pertence. Virei o rosto, sentindo o calor da raiva se espalhar por dentro. — Eu não pertenço a ninguém. — Então pare de usar o nome Bellucci. — ela disse, seca, e saiu. Passei o resto do dia trancada. Não chorei. Não gritei. Só fiquei ali, parada, olhando o anel no meu dedo, sentindo aquele rubi pesar como uma algema. A estilista chegou no fim da tarde com uma comitiva de ajudantes. Três vestidos foram desenhados em tempo recorde, todos clássicos, rendados, com véus longos demais, caudas exageradas e um brilho que me ofendia. Escolhi o mais simples. Nem sabia por quê. Talvez porque fosse o único que não me fazia parecer um fantoche enfeitado. — O noivo aprovou esse modelo. — disse a estilista no dia seguinte. O noivo aprovou. Claro. Até o vestido precisava da bênção dele. Eu? Nem fui consultada. A casa virou um redemoinho de telefonemas, reuniões discretas e visitas silenciosas. O casamento não podia ser um evento. Era um pacto de sangue, entre dois impérios sujos. A discrição era parte da estratégia. E eu era parte do adorno. Algumas vezes vi meu pai conversando em voz baixa com conselheiros russos. A presença deles era constante desde o anúncio. Dimitri mandava os homens no lugar dele, como se eu não fosse nem digna de uma ligação. Comecei a imaginar se ele tinha noiva na Rússia. Uma mulher mais velha, experiente. Uma que sabia onde estava pisando. Ou talvez ele simplesmente não sentisse nada por ninguém. Talvez ele fosse o tipo de homem que só se relaciona com armas, poder e medo. — Você terá um quarto reservado na mansão Volkov após o casamento. — me informou Jertrudes enquanto ajustava o vestido de ensaio. — Será bem tratada, respeitada. Mas saiba que o p não tolera desobediência. — Ele tolera sentimentos? — perguntei sem pensar. Ela me olhou de canto. — Sentimentos são fraquezas. E fraquezas matam. Aquela frase ficou martelando na minha cabeça. Nos dias seguintes, fui levada para escolher sapatos, lingerie, maquiagem, acessórios. Tudo com hora marcada, segurança particular e a agenda ditada pelos assessores dos dois clãs. Na última loja, uma vendedora me entregou um conjunto branco de renda delicada. Sorriu, como se isso fosse romântico. — Vai ficar linda na noite de núpcias. Seu marido é um homem de sorte. A palavra “marido” me enjoou. — Ele nem me conhece. — Os homens da Bratva não precisam conhecer. Eles só... tomam. Foi a primeira vez que pensei seriamente em fugir. Mas pra onde? Meu mundo era fechado. Cercado por homens armados, regras silenciosas e um destino que não me pertencia desde o dia em que nasci com o sobrenome errado. À noite, no meu quarto, abri o baú onde guardava as poucas cartas da minha mãe. Li cada uma como se ela ainda estivesse ali comigo, me dizendo que tudo ia passar. Mas minha mãe foi morta por discordar do meu pai. E eu não tinha coragem de repetir o mesmo caminho. Dormi m*l. Sonhei com véus cobrindo meu rosto, com correntes em vez de alianças, com um altar escuro e um homem de olhos de gelo me esperando. Acordei suando, com o nome “Dimitri” entalado na garganta. Na manhã seguinte, recebi uma caixa. Dentro, uma carta escrita à mão: “Não há tempo para dúvidas. Vista o que te mandaram. Estamos todos observando. — D.” Junto, uma camisola de seda branca, transparente demais para qualquer senso de decência. Um aviso. Uma provocação. Ou apenas o lembrete de que ele era quem ditava as regras. Passei o resto do dia ensaiando como me recusar. Como enfrentá-lo. Como dizer que não era um brinquedo de luxo. Mas, no fundo, eu sabia: o “não” só existia como ideia. Na prática, não havia portas abertas, saídas alternativas, nem aliados. A cada noite, a casa ficava mais silenciosa. Como se todos soubessem que algo pesado se aproximava. E eu, sozinha, sentia que estava caminhando para o matadouro. Vestida de branco.
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