Os anos que se seguiram à partida de Beatriz moldaram Eduardo de uma maneira que ele nunca imaginou. O homem que antes era apaixonado e idealista se transformou em uma figura fria, implacável. A dor de perder Beatriz, a mulher que ele amava, nunca o deixou completamente. No entanto, ele acreditava que ela o havia abandonado sem aviso, sem explicações. Ele jamais soubera da proposta c***l feita por seu pai, Gustavo, que separou os dois e destruiu o que eles tinham construído juntos, pois no momento que o pai comentou, ele estava dopado de remédios e não se lembrava.Para Eduardo, a mulher que ele amava havia sumido sem deixar vestígios, e esse abandono o consumiu de uma maneira que ele não conseguia controlar.
Com o coração partido, mas com uma determinação de ferro, Eduardo mergulhou de cabeça no mundo jurídico. Ele se tornou um advogado imbatível, respeitado, mas, ao mesmo tempo, temido. Seu sucesso profissional não foi o único caminho que ele trilhou. Eduardo também aprendeu a controlar sua vida pessoal da mesma maneira meticulosa e racional com que lidava com os casos no tribunal. Ele não acreditava mais no amor. Para ele, o sentimento mais forte e seguro era a ambição, e foi nela que ele encontrou consolo.
As mulheres que cruzavam seu caminho eram tratadas como objetos de prazer. Ele seduzia, conquistava e, quando o momento passava, se afastava sem o menor remorso. Não havia mais espaço para sentimentos, nem para vulnerabilidades. Quando uma mulher se aproximava demais, quando ela começava a mostrar sinais de afeto que Eduardo considerava excessivos, ele se afastava com frieza e distanciamento. Para ele, o amor era uma ilusão, um sentimento que o fazia se sentir impotente, e ele não se permitiria mais ser escravo dessa emoção.
O escritório de Eduardo se tornara um reflexo de sua nova personalidade. As paredes imponentes, o mobiliário sofisticado, a iluminação fria e precisa – tudo em seu espaço de trabalho exalava poder, controle e uma certa arrogância. Ele era o advogado de sucesso, mas não por causa de sua habilidade jurídica apenas. Sua habilidade em manipular as pessoas, em jogar com as emoções alheias, fazia dele alguém intransponível.
Nas suas noites solitárias, Eduardo raramente se lembrava de Beatriz com a intensidade com que uma vez a amou. No entanto, a sensação de perda nunca o deixou completamente. Era como uma ferida aberta que se cicatrizava, mas deixava uma marca indelével. Ele não queria admitir, mas, no fundo, ele ainda sentia algo por ela. Não sabia exatamente o quê, mas algo o impedia de seguir em frente sem que a lembrança dela fosse constantemente evocada. Mesmo que fosse de forma fugaz, Beatriz ainda tinha o poder de assombrar seus pensamentos.
E, embora ele tivesse construído sua vida em torno de uma fachada sólida e impenetrável, Eduardo não conseguia se livrar do peso do abandono. Era como se, em algum lugar dentro de si, houvesse uma chama que nunca se apagou completamente. A ideia de que ela poderia tê-lo deixado de propósito, sem olhar para trás, o alimentava com raiva, mas também com uma dor sutil e amarga.
Agora, aos 35 anos, ele era o homem que todos viam: o advogado respeitado e frio, capaz de conquistar qualquer coisa que desejasse, mas incapaz de manter o que fosse genuíno. Ele estava imune ao amor, imune ao carinho. Seu império estava construído sobre uma base sólida de calculada indiferença, e ele sabia como ninguém proteger a fachada de sua dor. Mas, por trás de todo o sucesso e da frieza, Eduardo Montenegro ainda era o homem que amava Beatriz, o homem que acreditava, no fundo, que algo nela ainda existia.
Uma noite, enquanto analisava um novo caso, sua assistente entrou em seu escritório com uma proposta inesperada.
— Sr. Montenegro, a advogada Helena Vasconcellos está disponível para uma reunião. Ela tem interesse em um caso de grande importância para o seu escritório.
O nome "Helena Vasconcellos" ecoou em sua mente como um trovão. Ele não sabia muito sobre ela, exceto que era uma advogada respeitada e uma rival de peso no mercado. Mas o nome "Helena" trouxe à tona uma lembrança distante. Algo que ele não sabia definir, mas que parecia se encaixar em um lugar profundo de sua alma.
O nome o fez hesitar por um momento. Ele nunca se permitira a curiosidade, mas algo o movia a dar uma atenção especial àquela reunião.
— Marque a reunião. Quero ver o que ela tem a oferecer.
A decisão estava tomada, mas o que Eduardo não sabia era que esse simples encontro, aparentemente comum, começaria a destruir a camada de gelo que ele cuidadosamente havia construído ao redor de seu coração. Helena Vasconcellos, com sua frieza e determinação, era a última pessoa que ele imaginava que poderia trazê-lo de volta ao passado. E, no entanto, o destino tinha outros planos.
Quando ele a visse, a verdade começaria a se desenrolar, de uma maneira que ele jamais imaginara.
Eduardo estava no topo de sua carreira, mas, mesmo com tudo o que havia conquistado, havia algo que sempre o perseguia: a imagem de Beatriz. Ela se tornara um fantasma em sua mente, um eco de um amor perdido, uma lembrança que ele não queria, mas que não conseguia apagar. No fundo, ele sabia que o que sentia por ela não era apenas o peso de uma paixão não correspondida. Era mais complexo, uma mistura de ressentimento, arrependimento e uma dúvida silenciosa sobre se realmente a amara como pensava ou se, na verdade, tinha sido apenas um capricho de juventude.
Seu relacionamento com as mulheres nunca foi mais do que superficial. Ele as tratava como conquistas passageiras, relações sem compromisso e sem emoção, e as mantinha à distância, como se estivesse congelado no tempo, incapaz de se entregar a algo verdadeiro. Ele se apegava à ideia de que o amor era um fardo, uma prisão, e que as mulheres, ao se apaixonarem por ele, apenas o tornariam vulnerável a algo que ele não queria mais em sua vida.
A dor de perder Beatriz o tornara cínico. O amor, para ele, havia se tornado uma fraqueza que ele não podia mais se permitir. No entanto, nem mesmo sua ambição imensa e seu sucesso profissional o livravam dessa sensação de vazio que ele carregava. Ele se enterrava no trabalho, afastando-se de tudo o que não fosse sua carreira. Seu escritório se tornara seu único refúgio, um lugar onde ele podia controlar tudo ao seu redor, onde a única coisa que importava eram os casos e a justiça – ou, na visão dele, a "justiça" que ele conseguia manipular com suas habilidades.
Em uma dessas noites longas de trabalho, Eduardo estava analisando um processo complicado quando seu telefone tocou. Era sua assistente novamente.
— Sr. Montenegro, a advogada Helena Vasconcellos está aqui para a reunião. Ela chegou com uma proposta que diz ser de interesse de seu escritório.
Eduardo franziu a testa. O nome "Helena Vasconcellos" não lhe era familiar, mas algo nele despertou. Ele não acreditava em coincidências, e a súbita presença daquela advogada parecia um sinal. Algo em seu interior se mexeu, embora ele não soubesse o quê exatamente. Ele ordenou que a reunião fosse iniciada imediatamente.
Quando Helena entrou, Eduardo a observou com um olhar crítico, analisando-a de cima a baixo. Ela era uma mulher elegante, segura de si, com uma aura de autoridade que o fez perceber de imediato que ela não era uma mulher qualquer. Seu olhar fixo e seu semblante sério mostravam que ela era imune a tentações e distrações. Ela sabia o que queria e estava ali para conquistá-lo de uma maneira que ele nunca imaginou.
— Sr. Montenegro, disse Helena, estendendo a mão com firmeza. Estou aqui para discutir um caso que pode ser de grande interesse para o seu escritório. Tenho uma proposta que poderia beneficiar ambos, mas precisamos conversar com mais profundidade sobre o assunto.
Eduardo pegou a mão dela, notando a confiança em seu gesto. Algo no modo como ela o olhou o fez hesitar. Não era apenas a sua postura de advogada brilhante. Havia algo mais ali, algo que ele não sabia definir. Um frio na espinha o percorreu por um instante, mas ele rapidamente afastou essa sensação.
— Vamos sentar e ver do que se trata, Helena. Estou ouvindo.
Helena sentou-se com uma postura impecável, como se estivesse no tribunal, e começou a explicar sua proposta. Mas, enquanto ela falava, Eduardo não conseguia deixar de focar na sua presença. Ela tinha uma energia que o atraía de uma maneira estranha. E então, ela mencionou um ponto específico, algo relacionado a uma empresa que ele tinha interesse em adquirir. A proposta era interessante, mas era a confiança em seu olhar que realmente o desconcertava.
À medida que a conversa se desenrolava, Eduardo se viu envolvido em algo mais do que apenas o caso. Ele estava começando a se perguntar por que essa mulher parecia familiar, por que seu nome, sua voz, tudo nela parecia despertar algo que ele não podia compreender.
Depois de mais alguns minutos de conversa, Helena se levantou e entregou-lhe um arquivo.
— Aqui estão todos os detalhes do meu plano, Sr. Montenegro. Vou esperar sua decisão. Acredito que essa oportunidade pode ser muito vantajosa para ambos.
Eduardo a observou por mais um momento antes de pegar o arquivo. Ela tinha razão. A proposta era boa, mas havia algo mais que o incomodava. Algo que ele não conseguia identificar.
Quando ela se virou para sair, ele a chamou.
— Helena...
Ela parou e se virou lentamente.
— Você me parece familiar. Eu te conheço de algum lugar?
Helena manteve seu olhar firme, sem expressão. Ela sabia exatamente a resposta para aquela pergunta, mas não estava pronta para revelá-la ainda.
— Não, Sr. Montenegro. Acho que você deve estar confundindo com outra pessoa.
E, sem mais palavras, ela saiu.
Eduardo ficou ali, com a sensação estranha de que algo estava prestes a mudar em sua vida. A presença de Helena Vasconcellos havia ativado algo que ele não queria reconhecer, algo que ele achava ter enterrado há muito tempo. Mas ele não sabia que aquele encontro não era por acaso. Helena não era apenas uma advogada com uma proposta. Ela era a chave para um passado que ele ainda não havia superado. E, logo, ele descobriria que ela era muito mais do que uma simples mulher de negócios.
A verdade que ele não conseguia ver estava prestes a ser revelada.