A ESCOLHA DILACERANTE E A SEMENTE DA ESPERANÇA
O tempo é um rio implacável que arrasta consigo as marcas mais frescas da dor, mas deixa as cicatrizes mais profundas gravadas na alma. Algum tempo se passou desde o abandono.
Maria, com sua resiliência inabalável, conseguiu manter os filhos alimentados com o suor de seu trabalho na roça. Contudo, a vida no campo oferecia uma subsistência precária, um dia a dia de apertos e incertezas. A visão de Pedro e de sua irmã crescendo em meio a tantas privações apertava seu coração. Ela precisava de mais, de algo que pudesse oferecer um futuro menos árduo para eles.
Foi então que surgiu a proposta: um emprego como doméstica na casa de um casal de médicos na cidade. A ideia trazia um misto de alívio e pavor. Alívio pela chance de um salário fixo, de uma vida um pouco mais digna. Pavor pela consequência mais dolorosa: a separação de seus filhos.
Certa noite, sob a luz fraca de uma lamparina, Maria reuniu Pedro e sua irmã, que agora compreendia um pouco mais da gravidade das situações. Seus olhos marcados encontravam os deles, buscando força.
"Meus filhos," começou Maria, com a voz triste, "a mãe vai ter que ir para a cidade. Consegui um trabalho bom lá, sabe? Na casa de uns doutores..."
A irmã, com seus olhos curiosos, perguntou: "Mas a senhora vai demorar, mãe? E quem vai ficar com a gente?"
Maria respirou fundo, tentando conter o nó na garganta. Era a parte mais difícil. "Não, filha, a mãe não vai demorar. Mas... vocês vão ter que ir morar um pouquinho com os tios".
Ela olhou para Pedro, que, embora pequeno, parecia sentir a tensão no ar, abraçando-se à sua perna.
Maria:"Pedro, você vai ficar com o tio José, lá na fazenda de baixo. Ele prometeu cuidar bem de você."
E você Laura, vai ficar com a tia Ester , ela vai cuidar bem de você, disse Maria com lágrimas escorrendo de seus olhos.
O pequeno Pedro, alheio à complexidade da situação, apenas olhava para a mãe, sem entender completamente o que aquelas palavras significavam. A irmã, no entanto, começou a chorar. "Eu não quero ir! Quero ficar com a senhora, mãe!"
Maria se ajoelhou, abraçando os dois. "É só por um tempo, meus amores. A mãe vai trabalhar duro para a gente poder ficar junto de novo, em um lugar melhor, com comida na mesa todo dia. Vocês precisam ser fortes, tá bom?"
A despedida foi um martírio. Ver seus filhos partindo em direções opostas, cada um para um lar temporário, foi como ter o coração arrancado do peito. Pedro, com sua pouca idade, sentiu a ausência da mãe como um vazio constante. Passou a residir com seu tio paterno, José, que o acolheu em sua casa por um ano. A irmã foi viver com outro tio. As visitas eram raras, o contato limitado, resumindo-se a cartas esporádicas ou a breves encontros arranjados com dificuldade.
A distância física parecia esticar a saudade a um ponto quase insuportável.
Pedro, em sua nova casa, sentia-se um hóspede, um pedaço de sua alma buscando o abraço e o cheiro de sua mãe. Os dias eram longos, pontuados pela melancolia da ausência. Mas, mesmo em meio à solidão e à fragmentação da família, o destino começou a tecer um novo fio em sua história. Sem que ele soubesse, a figura paterna que tanto lhe faltava estava prestes a surgir, trazendo consigo uma promessa de união e um novo recomeço.
O fio da esperança estava sendo discretamente introduzido na trama da vida de Pedro, pronto para mudar seu curso para sempre.
"A vida parecia ter se estabilizado na ausência de sua mãe, mas um encontro inesperado estava prestes a redefinir o que Pedro entendia por família. Quem era aquele homem que entrava na vida de sua mãe, e que papel ele desempenharia no futuro daquele menino que ansiava por um porto seguro?"