POV Inara
O calor que emana do corpo da Chloé é assustador, mas o gelo que sinto vindo do canto do quarto é ainda pior. Sinto os olhos de Sebastian Knight cravados nas minhas costas como duas adagas.
Continuo a embalar a minha piccolina, que continua fungando no meu pescoço. Ela agarrou-se a mim como um carrapato, mas é um lindo e fofo carrapato.
Para uma criança, ela tem muita força; ou talvez seja apenas o medo de eu ir embora outra vez.
— Está tudo bem, eu não vou a lado nenhum, Piccola.
Passo a mão nos seus cabelos macios, tão iguais aos do pai, e sinto-a relaxar. Ela deve estar exausta, afinal, são três da manhã. Os minutos seguintes passam comigo balançando-a de um lado para o outro, sussurrando no seu ouvido que eu ficaria. Eu sei que é uma mentira. Sei que, quando o sol nascer, os meus minutos nesta casa estarão contados. Mas eu não tenho escolha. Preciso que ela fique bem, que volte a ser aquela menina que conheci no parque. Aquela pequena manipuladora.
Sinto o corpo da Chloé finalmente ceder ao sono. A respiração desacelera, tornando-se rítmica. O ar que sai dela já não queima a minha pele; ela arrefeceu.
Não totalmente, mas o suficiente para me dar a certeza de que ficará bem. É um alívio que faz as minhas pernas tremerem, mas não posso me mexer. O medo de acordá-la é maior que o meu cansaço.
Devagarinho, com o cuidado de quem manipula cristal, sento-me na beira da cama, acomodando o corpo dela contra o meu. É nesse momento que a minha consciência volta ao resto do quarto. Eu quase me esqueci que não estávamos sozinhas.
Levanto a cabeça e encontro primeiro o olhar da senhora Samantha. Ela está de pé, perto da porta, com um sorriso suave e admirado. Não há gelo ali, apenas uma simpatia genuína. Respondo com um aceno cansado, sentindo uma conexão imediata com aquela mulher que é o único pilar de sanidade nesta casa. Ela parece feliz por ver a neta em paz.
Mas depois... o meu olhar desliza para o canto escuro.
Sebastian Knight. Ele não se mexeu nem um centímetro desde que entrei. Está encostado à parede, braços cruzados sobre o peito largo, a camisa branca desabotoada revelando a pele tensa e coberta de tatuagens. A luz do abajur ilumina apenas metade do seu rosto, deixando o resto na sombra, o que o torna ainda mais assustador.
O olhar dele é indecifrável. Não há mais o ódio puro do parque, nem a frieza do jardim. É algo mais denso. É um olhar que me despe, que me estuda, querendo decorar cada detalhe do meu pijama de ursinhos ridículo e do meu cabelo despenteado. Há desejo ali, sinto-o vibrar no ar, mas há também uma confusão sombria. O "Imperador de Gelo" foi silenciado por uma mulher que ele tentou quebrar. O olhar dele queima na minha pele, mas eu não desvio o meu. Sustento o desafio.
— Ela está a arrefecer — sussurro, com os olhos fixos nos dele.
Por fim, olho para o terceiro homem. Ele está perto da estante de livros, observando tudo com um olhar analítico e frio. Ele me olha como se eu fosse um enigma matemático interessante, uma peça que não se encaixa no seu tabuleiro. Há uma inteligência perigosa naqueles olhos âmbar; sinto que ele sabe muito mais sobre mim do que eu gostaria. Ele é o observador silencioso que sabe onde os corpos estão enterrados.
A tensão no quarto é palpável. Sei que estou cercada por lobos, mas neste momento, com o coração da Chloé batendo calmo contra o meu, eu sou a rainha deste castelo. Pelo menos até o sol nascer.
— Por favor... — começo, com a voz baixa. — Saiam todos. Ela precisa de ar, de calma. O quarto está muito pesado e isso não ajuda a febre.
Não é um insulto, é um pedido de quem sabe o que a menina precisa. Ouço o movimento atrás de mim. Samantha solta um suspiro de alívio e lança-me um olhar agradecido. Ela vem até à cama, beija a cabeça da pequena Chloé e faz algo que eu não imaginava: agacha-se e beija a minha testa também, saindo logo em seguida.
O meu coração parou. O toque dos lábios dela deixou uma marca quente que eu não sabia processar. O que significava aquilo? Aprovação? Tive de respirar fundo para não deixar as lágrimas de cansaço — e de lembranças — transbordarem. Para o mundo, era apenas um gesto. Para mim, num mundo que tem sido infernal nos últimos dias, era a coisa mais valiosa que eu tinha.
A senhora, Samantha saiu, deixando o ar mais leve, mas o peso no quarto logo voltou. O homem de olhos âmbar ainda estava lá. Ele observou o gesto de Samantha com uma sobrancelha erguida, anotando a minha reação como um dado novo num ficheiro secreto. Com um sorriso imperceptível, ele retirou-se e fechou a porta.
Mas o vulto no canto não se mexeu. Sebastian parecia uma estátua de mármore n***o.
— Eu não vou sair — a voz dele foi um sussurro áspero. — Não saio do quarto da minha filha.
Virei-me devagar. O susto pelo beijo de Samantha deu-me uma coragem nova.
— Sebastian, olha para ela — pedi, firme.
— Ela está exausta. E eu sei que ela precisava de ti antes, mas tu não estiveste lá. Ela sente a tua tensão. Tu podes ser o dono desta casa, mas agora, quem entende o que ela precisa sou eu. Ela precisa do pai, não de um guarda-costas zangado que fica a vigiá-la de madrugada.
Ele deu um passo em direção à cama. O cheiro de sândalo e perigo aproximou-se. Ele segurou o meu pulso — não com força, mas com uma possessividade que me fez o mundo girar.
— Tu não imaginas o que eu sinto ao vê-la assim — sussurrou, com faíscas de fúria e dor nos olhos. — Você não sabe nada sobre nós, ou sobre o que eu sinto pela minha filha. Não me peça para sair.
— Então fica — respondi, sem desviar o olhar. — Fica, mas fica em silêncio. No teu canto. Deixa-a descansar... e deixa-me cuidar dela.
Ele demorou a soltar-me, estudando o meu rosto. Finalmente, recuou para a penumbra. Voltei para a cama e comecei a cantar baixinho: “Ninna nanna, ninna oh...” O tempo passou e o sono finalmente me roubou a consciência.
POV Sebastian
O silêncio do quarto é interrompido apenas pela respiração da Chloé e pelo ressonar leve da mulher à minha frente.
Ela apagou. A "feroz" Inara Carter sucumbiu ao cansaço, encolhida na cama e nos lençóis de veludo com o seu pijama de ursinhos ridículo. Se alguém me dissesse que eu passaria a madrugada a observar uma desconhecida de pantufas a dormir, eu teria morto essa pessoa. Mas aqui estou eu.
Aproximo-me da cama com passos de predador. Olho para ela, e a imagem da minha tia a inclinar-se para beijar a testa desta mulher volta a latejar na minha mente. Samantha não beija estranhos. Ela não oferece afeto a quem não confia plenamente. Ver aquele gesto foi como um soco no estômago. A minha tia viu nela algo que eu estou a tentar desesperadamente ignorar. Ela deu-lhe a sua bênção, marcou a Inara como alguém que pertence à vida dela, e isso assusta-me mais do que qualquer inimigo armado em Manhattan.
Olho para a Inara agora. Sem a língua afiada, ela parece quebradiça. A pele é branca como leite, o cheiro é de frutas vermelhas e algo limpo — algo que não pertence a este mundo de sangue e pólvora.
Maldita.
O meu corpo continua tenso. O desejo transformou-se em algo mais sombrio. Quero acordá-la só para ver o brilho de ódio nos olhos verdes de novo. Quero marcar aquela pele, reclamar a boca que teve a audácia de me esbofetear e que, agora, parece ter o apoio da minha própria família. Mas, ao mesmo tempo, algo no meu peito aperta-se ao ver como a mão dela ainda repousa na da Chloé. Samantha viu isso. Viu a cura onde eu só via um problema atrevido.
Ela é a cura da Chloé. E a minha ruína.
Fico ali por horas. Velo o sono das duas como se o mundo lá fora não existisse. O Derek deve estar no corredor a achar que enlouqueci. Nenhuma mulher entra na minha fortaleza e manda em mim. Nenhuma mulher me faz sentir este desejo primitivo de posse e, ao mesmo tempo, essa vontade absurda de a manter em segurança, protegida até de mim mesmo.
O céu começa a mudar para um cinza pálido. Os primeiros raios de sol iluminam o rosto dela. Ela mexe-se. Um gemido baixo escapa dos seus lábios. Eu não me afasto. Quero que a primeira coisa que ela veja ao acordar seja a realidade de que eu não fui a lado nenhum. Quero que ela entenda que, embora a minha tia a tenha aceitado, ela ainda tem de lidar com o dono desta fortaleza.
Inara abre os olhos devagar. O verde encontra o meu azul instantaneamente. O susto percorre o rosto dela como uma onda elétrica.
— Bom dia, italiana — digo, a voz rouca por horas de silêncio e pensamentos impuros. — Espero que tenhas descansado. Porque hoje, as regras desta casa mudam.