Capítulo 3

1550 Words
— Aí, droga! Olho para cima e vejo que a garotinha parou de correr e agora está me olhando. Ela está tremendo um pouco. Não sei se é de frio ou de medo. Procuro forças dentro de mim para me pôr em pé. Não sei de onde estou tirando essas forças, porque sinto que já usei todas hoje. — Ei, não fujas de mim. Eu não te farei m*l, eu juro. Pode olhar para mim, eu nem consigo correr. — Aponto para o meu pé enfaixado. — Além disso, está escuro para onde você está indo e deve ser perigoso ir para lá. Aponto para o fim do beco, mergulhado na escuridão. Ela olha também… e dá um passo à frente. — Ei… — chamo outra vez, agora mais devagar. Ainda estou sem fôlego por causa do pequeno show de há pouco. Começo a me aproximar lentamente, como se estivesse chegando perto de um gatinho ferido. E também porque simplesmente não consigo andar mais rápido do que isso. A piccolina levanta o rostinho devagar. Mesmo no escuro, dá para ver o quanto ela é lindinha. — Você está perdida, querida? Ela inclina a cabeça como se estivesse pensando… depois dá de ombros e abaixa a cabeça, como se dissesse que não. Não sei se acredito. O moletom rosa claro é simples, mas o colar e a pulseira de ouro brilham demais para aquele beco sujo. Aquilo não combina com o bairro. E eu duvido que os pais a tenham deixado aqui sozinha. A única hipótese que me resta? Ela fugiu. — Como você se chama, hm? Nada. Ela continua me olhando com cautela. — Eu me chamo Inara. Você pode me chamar de Ina… ou mesmo I-ira… Gaguejo tentando transformar meu nome em apelido. — Ai, yayai, esquece. É horrível. Faço uma careta e abano as mãos em desgosto. Ela solta um pequeno sorriso — quase sem querer. Mas, assim que percebe, o sorriso desaparece. Tento dar mais um passo e quase caio de novo. Ela dá um passo para trás ao mesmo tempo. Eu me encosto na parede para me manter em pé. O mundo gira por um segundo. Parece que os efeitos do ataque ainda não passaram. Meu peito aperta. O ar fica curto outra vez. Eu só preciso respirar. Vai passar. É isso. Só respirar. Fecho os olhos por um instante. Respira. Respira. — Olha, pequena queridinha… podemos sentar um pouco? Ela me observa. — Como você viu, eu não consigo correr. E prometo que não vou sequestrar você. É uma promessa. Levanto a mão direita como se estivesse jurando num tribunal. Ela inclina a cabeça, ponderando. — As minhas muletas estão ali… ou melhor, patas de pato, porque não ajudam em nada. Ela sorri de novo. E, juro por Deus, é o som mais bonito que já ouvi hoje. E meu peito aperta. Porque, de repente, lembro que há alguns minutos eu estava no meio de um parque, sem ar, achando que ia morrer por causa de um ataque de pânico. Minha mão treme só de lembrar. Escondo-a atrás da perna. Mas já passou. Eu estou aqui. Estou respirando. E com uma menina linda do meu lado. Eu tenho que ficar bem. Eu estou bem. Sem perceber, começo a rir também, e o som ecoa pelo beco. — É sério! Eu não consigo me equilibrar com elas. Nos filmes e nas telenovelas parece muito fácil, mas é mentira. Eu tento, tento… e quando dou por mim estou com a bundinha no ar e a cabeça para baixo, tipo um patinho no lago e não s— — Hahahaha! Eu falo tanto que nem percebo quando ela deixa de rir baixinho e começa a gargalhar de verdade. — Você é engraçada! — Ei, não ria! Isto é sério! Ela tenta parar, mas no segundo seguinte já está com as mãos na barriga. — Eu sinto muito… eu não consigo… — diz entre risadas. — Há muito tempo que eu não me divirto tanto em poucos minutos com uma pessoa desconhecida. Ela ainda ri… mas eu consigo ver a tristeza nos seus lindos olhos azuis. E isso me aperta por dentro. — Vamos sentar. Eu prometo, mais uma vez, que não vou sequestrar você. Ela me olha nos olhos… e finalmente assente. Eu quase choro de alívio. Porque, sinceramente, já não me aguentava em pé. As minhas pernas e mãos ainda tremem, mas eu sei que em um instante vão parar. Afinal, essa não é a primeira vez. Depois de alguns minutos — que parecem uma batalha contra o chão — consigo chegar até as muletas onde as tinha deixado. Agora estamos sentadas lado a lado. Ela está encolhida. Não parece ser de frio. — Onde você mora? Silêncio. — Quem são seus pais? Nada outra vez. Respiro fundo. O ar ainda entra estranho, como se tivesse que lutar para chegar aos pulmões. — Tá… então vamos fazer assim. — Tento soar firme, mas gentil. — Eu te acompanho até a esquadra. Eles vão te ajudar, tá? O rosto da pequena muda na mesma hora. Ela se levanta tão rápido que eu m*l acompanho o movimento. — Se você me levar à polícia… eu fujo de novo. Olho para ela com espanto. A forma como ela diz isso não é birra nem ameaça. É um aviso. — Piccola, voc— — Eu prometo. — Os olhos azuis se erguem, decididos. — E da próxima vez… ninguém vai me achar. Pois é. Esta é a minha vida. Toda bagunçada. Fecho os olhos por um instante. Isso não estava nos planos. Eu já tenho problemas demais: contas atrasadas, casa sem água, sem luz e sem comida. Na verdade, nada do que me acontece está nos planos. Abro os olhos devagar e me deparo com dois olhinhos azuis me olhando com cara de cachorro perdido. Azuis. Tão azuis quanto os daquele homem. Frios. Pensando bem… ela é idêntica a ele. O mesmo tom de pele. O mesmo cabelo. Ah, não. Nem pensar. Isso é só a minha imaginação. Ela só quer me fazer pensar no homem mais bonito que eu já vi. Em como seria fazer cafuné naqueles cabelos macios… em como seria passar a ponta do meu dedo pela barba bem alinhada… pelos lábios… como seria beijar os seus l— — Você está bem? Está com febre? A pergunta me corta no meio do devaneio. Junto com a voz dela, vem a mãozinha na minha testa. — Ai, ai, Piccola, me desculpa. Eu me desliguei. É claro que estou bem. — De verdade? — Sim, de verdade. — Em que pensavas? — Humm… eu… estava pensando que não devia deixar uma menina tão pequena na rua. Sozinha, não é? Ai, Jesus, Maria, José. Eu não podia dizer a uma criança que, pela primeira vez nos meus vinte anos, estava tendo pensamentos nada santos sobre um homem desconhecido — frio — que, por sinal, se parece com ela. — É sério? Você vai me levar com você? — Sim, eu vou. Mas você não devia ficar feliz por ir para casa de uma desconhecida. É perigoso. Repreendo-a. Ela baixa a cabecinha. — Eu sei que não devia… mas também sei que você não vai me fazer m*l. Se fosse fazer, já teria feito. E eu estou com medo. Com frio. Com fome. Você não teria coragem de me deixar aqui, não é? Isso seria desumano. A garotinha está triste. Ou está fingindo. Só pode. Como ela consegue mudar assim? Num instante cautelosa. No outro feliz. Depois decidida. Depois preocupada. Depois triste. As crianças de hoje em dia são umas golpistas. — Tudo bem, sua golpista. Você vem comigo, tá? Mas antes precisamos comprar algumas coisinhas. Porque eu não tenho nada em casa. Ela dá o sorriso mais bonito de todos ao ouvir que vai comigo. Eu me ponho em pé — ou tento — já que as muletas não fazem muita diferença. Dou graças a Deus por meu apartamento ser perto do parque. — Tá bom, agora vamos comprar algumas coisas. E não me dê esse sorriso de vencedora, porque tenho quase certeza de que a polícia vai bater na minha porta amanhã e eu vou presa. — A polícia? Não… mas talvez um homem alto, elegante, de olhos azuis… e um monte de homens atrás dele. Eu paro. — O quê? — Nada, não. Ela responde com uma voz doce demais. Inocente demais. E eu estou começando a duvidar seriamente dessa inocência. — Você disse algo sim, Piccola. Algo como… elegante… olhos azuis? — Eu não disse nada, eu prometo. E me lança um pequeno sorriso de anjo. Anjo suspeito. — Tá, enfim. Vamos embora. Está ficando tarde. Ah, e o meu apartamento não é o mais elegante do mundo, tá? Digo, começando a me arrastar com as muletas para fora do parque, com ela ao meu lado. — Eu não me importo. O que importa é só uma caminha e comida, certo? — É… é verdade, mas… E assim fomos conversando até ao nosso destino. Mas eu estou com a sensação de que algo vai acontecer. Só espero conseguir sair inteira desse problema. Porque eu não estou nem um pouco a fim de ficar sem o meu outro pé. Ou uma mão. Ou até mesmo a minha cabeça.
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