POV Inara
Aproximei-me o mais rápido que as minhas “pernas de pato” me permitiam. O gelado já tinha ficado para trás. A raiva estava bem presente. Quando cheguei perto daqueles armários de terno preto, um deles deu um passo à frente para me travar, mas eu nem olhei para ele.
— Sai da frente, seu armário embutido! — rosnei.
Parei bem no meio do círculo. Lá estava ela, de costas para mim, a minha Piccola.
— Piccola! — chamei.
Ela virou-se e me encarou, e eu fiz o mesmo, tentando perceber o que ela sentia em relação a tudo aquilo. Ela não parecia com medo dos homens de preto ao redor, nem surpresa com a situação. Parecia triste. Abatida.
— Piccola! — chamei novamente, já me aproximando.
Puxei-a para mim. Para que ela soubesse que, independentemente do que estivesse a acontecer naquela bagunça toda, eu estaria ali para ela — nem que no final do dia eu acabasse na cadeia.
Ela abraçou as minhas pernas, e eu me inclinei até à sua altura, beijando o cabelo, a testa e as bochechas fofas.
— Está tudo bem. Vai ficar tudo bem.
No mesmo instante, ouvi a porta do carro a ser destrancada.
E dele saiu o que eu menos esperava.
Aos poucos, deixei os meus olhos
subirem. Primeiro, sapatos pretos de couro, mais limpos do que os espelhos da minha casinha. Se eu me abaixasse um pouco mais, conseguiria ver o meu reflexo neles.
Depois, pernas longas.
Braços largos, tatuagens que desapareciam sob o tecido do terno. Não conseguia ver todas, mas sabia que iam até ao peito dele. E, por algum motivo, tive uma súbita vontade de ver o resto.
Ai, droga… esses pensamentos sujos de novo. O que é que se passa com—
Não terminei de me xingar.
Porque no exato momento em que vi o rosto do homem que saiu do carro, eu juro que não sei se a minha sorte acabou de vez ou se eu nunca tive mesmo.
E eu vou pela segunda opção.
É o homem do acidente.
Ou melhor, o homem que me olhou com o maior desprezo do mundo. O dono dos olhos frios que têm assombrado os meus pensamentos — nada inocentes — nas últimas horas.
Ele estava impecável num terno preto como a noite, que com certeza custava mais do que a minha vida inteira.
Ele caminhou na nossa direção. A cada passo, o chão parecia tremer. Ou talvez fossem as minhas pernas.
Os seguranças abriram caminho como se ele fosse um imperador. Ele parou a um metro de nós.
O olhar dele caiu sobre a Piccola, suavizando-se por meio segundo… antes de se tornar lâminas de gelo quando se virou para mim.
Por puro instinto, empurrei a Piccola para trás de mim.
O vento no parque parecia ter parado só para ouvir o que ele ia dizer. Eu sentia a respiração pequena dela contra as minhas pernas, e a minha única proteção eram duas muletas e uma coragem que eu nem sabia que tinha.
Ele aproximou-se mais um passo, invadindo o meu espaço. A sombra dele caiu sobre mim, obrigando-me a inclinar a cabeça para sustentar o olhar.
De perto, os olhos dele não eram apenas frios. Eram analíticos. Como se estivessem a procurar cada falha, cada segredo meu.
De repente, estreitaram-se.
Uma faísca de reconhecimento atravessou aquelas íris glaciais.
— Você… — a voz saiu num sussurro perigoso. — A garota do acidente.
Senti o meu rosto arder.
— Pois é. Sou eu mesma. A “garota” que vocês queriam abandonar no meio da estrada porque estavam com pressa — retorqui, com a voz tremendo de raiva.
Ele aproximou-se novamente, lento, calculado.
— Primeiro você se joga no meu carro e agora sequestra a minha filha? — a voz dele soou profunda, controlada. — Você é muito corajosa… ou muito estúpida.
— Eu não me joguei no seu carro! E eu não sou estúpida, eu—
Congelei.
Filha?
Olhei para a Piccola atrás de mim. Depois para ele.
Droga.
Só podia ser eu. Só mesmo uma cega para não ver a semelhança entre os dois.
Mas como eu ia saber? Entre milhões de pessoas no mundo, como eu ia imaginar que ela era filha justamente do homem que me olhou como se eu fosse lixo?
O homem à minha frente exalava uma autoridade que faria qualquer um recuar, mas eu não soltei a pequena. O choque de saber que ele era o pai dela ainda reverberava na minha mente, mas eu precisava de provas. Eu não sou estúpida.
Abaixei-me até à altura dela, ignorando a pontada de dor no meu gesso, e segurei o seu rostinho com delicadeza, forçando-me a ignorar a sombra que ele projetava sobre nós.
— Piccola, olha para mim — pedi, com a voz suave. — Esse homem… ele é mesmo o teu pai?
O silêncio no parque era absoluto. Eu sentia o olhar dele queimando o topo da minha cabeça, uma pressão invisível exigindo que eu simplesmente obedecesse. Mas eu esperei. Piccola olhou para o homem de terno preto com uma mistura de saudade e tristeza profunda e, lentamente, assentiu com a cabeça.
O meu coração apertou. Era verdade.
— Está bem — sussurrei, dando-lhe um beijo na testa. — Ouve, entra ali naquele carro, sim? O senhor de preto vai ajudar-te. Eu vou só ter uma conversa rápida com o teu pai e já vou ter contigo.
Prometo.
Vi o segurança abrir a porta e, com um último olhar hesitante para mim, a Piccola entrou. Quando a porta pesada do carro se fechou e eu tive a certeza de que ela não podia ouvir nada, levantei-me. Ou melhor, tentei, equilibrando-me nas muletas com toda a dignidade que me restava.
Virei-me para o "deus grego" e o meu rosto ardeu, mas desta vez era pura fúria.
— Agora que ela não está a ouvir… quem pensas que és para falares comigo desse jeito? — disparei, dando um passo trôpego na direção dele, as muletas batendo no chão com força.
Ele não recuou. Pelo contrário, inclinou-se sobre mim, a sua presença tornando-se sufocante.
O homem à minha frente não esperava uma resposta; esperava rendição. Mas ele não me conhecia.
— Mede as tuas palavras — sibilou, a voz tão baixa que vibrou nos meus ossos. — Tu não tens noção do terreno onde estás a pisar.
— E tu não tens noção do que é cuidar de uma criança! — rebati, inclinando-me para a frente, mesmo com a dor lancinante na perna. — Ela estava com fome. Estava com medo. Se eu não tivesse aparecido, sabe Deus o que teria acontecido. Antes de me acusares de "sequestro", devias agradecer-me por não ter chamado o conselho tutelar.
Os olhos dele brilharam com algo que eu não consegui identificar. Não era só raiva; era curiosidade perversa. Ele baixou o olhar para o gesso na minha perna e depois voltou para os meus olhos, com um sorriso de lado que me fez querer esbofeteá-lo e beijá-lo ao mesmo tempo.
— Agradecer-te? — Ele riu, um som curto e sem humor.
Deu mais um passo, reduzindo o espaço entre nós a quase nada. O cheiro dele atingiu-me em cheio: tabaco caro, sândalo e algo metálico que gritava perigo.
— Eu não agradeço, senhorita. Eu recompenso… ou castigo. — O olhar dele desceu lentamente pelo meu corpo, parou no gesso e voltou para os meus olhos com uma intensidade que me fez esquecer como se respirava. — Neste momento, a tua língua afiada implora pela segunda opção.
— Pois tenta a tua sorte — desafiei, embora o coração martelasse contra as costelas como um animal enjaulado. — Podes ter todos esses homens, mas não tens o direito de me tratar como criminosa depois de eu ter salvo a tua filha.
O homem inclinou-se, a boca roçando o meu ouvido. O calor da pele dele contrastava com o gelo das suas palavras.
— Tu salvaste o meu bem mais precioso, e essa é a única razão para ainda estares de pé. Mas não te enganes, Italiana… — pronunciou “Italiana” com uma voz perigosa, fazendo um arrepio percorrer a minha espinha. — Ninguém me ameaça com conselhos tutelares e sai ilesa. Tu queres brincar de heroína? Ótimo. Vamos ver quanto tempo dura essa tua coragem.
— Por acaso você está a ameaçar-me?
Ele respondeu não; muito pelo contrário.
Esse Stronzo (canalha) olhou para mim como se fosse o dono do mundo e mandasse em tudo.
— Claro que ameaçar deve ser o que sabes fazer melhor, né? Ou talvez o “Pai do Ano” estivesse ocupado a polir os sapatos de luxo ou contar o dinheiro para cuidar de uma criança.
Vi um dos seguranças levar a mão à boca, como se tivesse acabado de assistir alguém assinar a própria sentença de morte. Ele deu mais um passo. Agora, não havia nem um palmo de distância entre nós. O calor que emanava dele era absurdo, uma fornalha escondida sob aquele terno caro.
— Eu sou o homem que decide se tu sais daqui para a tua casa ou para um necrotério, ragazza — sibilou, voz crua e sem filtro. — Tiveste a audácia de desrespeitar meus homens e de levar a minha filha. Já fizeste muito em poucas horas. E garanto-te: pessoas que fizeram menos… já não estão aqui.
Pois é… agora ferrou. Será que ele as expulsou do país? Só pode. Deve ter muitos contatos aqui. Mas não vou deixar que ele me falte com respeito.
Encarei-o, sem desviar o olhar, nem por um segundo.
— Tu chegas aqui como um monstro, acusas-me de sequestro e assustas a miúda com o teu exército da p***a… e esperas que ela te corra para os braços? Podes ser o dono desta m*rda toda, mas de família tu não entendes nada.
Vi o momento exato em que a máscara de gelo dele quebrou. A mandíbula travou tanto que pensei que os dentes iam partir.
Num segundo, ele agarrou o meu braço com imensa força; achei que me arrancaria do chão.
— Tu não sabes nada sobre mim — rosnou, rosto colado ao meu. O cheiro de tabaco e poder misturado com fúria cega.
— Vais aprender rápido que o teu "bom coração" acabou de te meter no inferno.