Capítulo 7

1287 Words
— Assim já deve dar… — digo a mim mesma, numa tentativa frustrada de parecer apresentável. Afinal, hoje é o grande dia, não é? O dia da entrevista de emprego. Então eu preciso causar uma boa impressão. Não quero ser expulsa com um pontapé por estar m*l vestida. Solto o ar preso nos pulmões e, com ele, as lembranças. Passaram-se dois dias desde aquele dia no parque… e posso garantir que foram dos piores dias da minha vida. Não só por causa da ida da Piccola. Mas também pelos meus ataques de ansiedade. Em menos de uma semana tive três crises. Coisa que já não acontecia há muito tempo. Foram dias horríveis. Eu não conseguia comer, nem dormir direito — só com a ajuda dos comprimidos que eu já não usava há anos. Nunca pensei que estaria nessa situação de novo… por causa de uma menina que eu conheci e amei em tão pouco tempo. Acabei perdendo peso por não me alimentar. Algo que eu devia evitar, já que não tenho mais peso para perder. Se continuar assim, vão começar a me chamar de desnutrida. Enfim. Neste momento estou em frente ao meu espelho antigo, debatendo comigo mesma se continuo com o vestido preto que chega aos joelhos ou se visto uma das minhas calças jeans desgastadas com um moletom. Não que o vestido seja feio. Muito pelo contrário. Ele é lindo. A Mica me deu da última vez que estivemos juntas. Ela disse que eu precisava, já que eu não tinha nenhum. E que uma moça como eu deve ter esse tipo de roupa para um futuro encontro. Eu aceitei, afinal foi um presente. Mas discordo completamente dela. Eu não me dou bem com vestidos. Prefiro coisas práticas, que me permitam me mover com liberdade e pressa. As calças sempre me proporcionaram isso quando precisei. Enfim. Vou ficar com o vestido. Tenho que estar bem. Mas que fique claro: não vejo a hora de arrancá-lo do meu corpo. Pego o telefone que estava em cima da minha cama velha. Abro a conversa com a Mica. E lá está, como última mensagem: O endereço. A casa que pode mudar a minha vida. — Vai dar tudo certo… — digo a mim mesma, tentando arrancar um pouco de positividade de algum lugar. Saio do quarto e vou até a pequena sala verificar se tenho tudo na mochila. — Ótimo. Não esqueci de nada. Confirmo cada detalhe. Principalmente a pomada para o tornozelo. Sim… eu tirei a tala. Eu sei que o médico disse uma semana, mas já passaram três dias. Acho que não faz tanta diferença. Já não dói tanto. Só quando faço esforço. Por isso vou pegar um táxi que me leve direto até lá. Suspiro. Coloco a mochila nos ombros e olho ao redor da sala, tentando lembrar se não esqueci de nada. Graças a Deus, não. A não ser… um copo de água. Minha garganta está seca. Vou até a pequena cozinha. Pego a jarra da geladeira e coloco no balcão. — Só falta o copo… — digo, abrindo um dos armários. Encontro um dos poucos que restam. Sirvo a água com cuidado, ignorando o tremor persistente nos meus dedos. Bebo o primeiro gole, sentindo o alívio na garganta. Mas, quando vou pousar o copo no balcão… Minha mão falha. Meu reflexo é lento. Meu corpo ainda está exausto. O copo escorrega. O som seco do vidro contra o chão ecoa pela cozinha. Estilhaços. Fico paralisada, olhando os pedaços espalhados pelo chão, brilhando sob a luz fraca. A água molha a bainha do meu vestido preto. O vestido que deveria ser minha armadura. — De novo… — sussurro. A voz sai como derrota. As lágrimas ameaçam cair outra vez. Não é pelo copo. É por tudo. Pelo tornozelo. Pela falta da Piccola. Pela marca no meu braço. E por essa sensação maldita de que eu ainda sou a mesma rapariga desastrada, sem sorte e sem chão. A rapariga que o deus grego disse que não valia nada. Por um segundo, tenho vontade de me sentar ali mesmo, no meio dos vidros, e desistir. Mas o relógio não para. O táxi está chegando. Limpo o rosto com as costas da mão. Ignoro a umidade no vestido. Dou um passo por cima dos estilhaços. Se a minha vida está partida como esse copo… que seja. Eu levo os pedaços comigo. Pego a mochila. Respiro fundo. E saio sem olhar para trás. Que o destino se prepare. Porque eu não tenho nada a perder. ****************** Vocês devem estar se perguntando por que eu disse isso.(Que o destino se prepare ,Porque eu não tenho nada a perder .) Bem… eu deveria corrigir isso . Depois de sair de casa, peguei um táxi para não forçar o tornozelo. Durante a viagem, que levou algum tempo, fiquei apreciando a paisagem borrada pela janela. Ela trazia lembranças. Boas e ruins. Mas principalmente ruins. Até aí tudo bem. Depois de um tempo, fui tirada dos meus devaneios pelo motorista anunciando que já tínhamos chegado. Agora esperem. Vocês devem estar se perguntando: se eu já cheguei ao destino, por que estou zangada? Com raiva. Com vontade de pedir meu dinheiro de volta — que infelizmente já paguei — só para jogar na cara dele. Porque… Não chegamos. Pelo menos é o que eu acho. Não vejo nenhuma mansão. Nenhuma casa. Nada. Estamos numa estrada isolada, cercada de árvores. Nenhuma construção à vista. — A senhorita pode descer, por favor. — diz o motorista, com os dedos na têmpora. — Olhe, senhor… pode acreditar que o senhor não é o único com dor de cabeça. Eu paguei para me levar até o endereço que mostrei. E agora quer me deixar no meio do mato? Cruzo os braços e levanto o queixo. — Nem pensar. O senhor vai me levar ao endereço certo. — Senhora, com todo respeito, eu não posso passar daqui. É área privada. Sem autorização eu não entro. Posso acabar preso… ou não… — Ou nao quê? Ele sai do carro. — O pneu. — O que tem ele? — Furou. Está a perder ar. — Como assim furou?! — Furou. Simples assim. Preciso que a senhora desça para eu trocar. Não tenho um bom pressentimento. — Está bem. Eu ajudo. Mas o senhor vai me levar ao meu destino. — Já disse que não posso. — Então o que eu faço? — Pode ir andando… ou pagar outra corrida de volta. Fuzilo ele com o olhar. Se olhares matassem… nem consigo imaginar onde ele estaria. Ponho as mãos na cintura. — Mamma mia! Testa di cavolo! (Meu Deus! Cabeça de vento!) — O que a senhora disse? Olho bem nos olhos dele. — Eu disse que o senhor é uma pessoa muito respeitosa… e que vai ter a gentileza de me levar ao meu destino. Ironia pura. E claro que ele não percebe. — Muito obrigado pelo elogio, senhorita. Mas não será possível. No mesmo instante, o scemo (i****a) entra no carro, liga o motor e começa a se afastar. — Ei! Não! Dou dois passos para correr atrás. Paro. Meu tornozelo. — Não! Seu stupido! Imbecille! Testa di cavolo! (e******o! i*****l! Cabeça de vento!) — Merda! O que eu faço agora? Estou no meio de uma estrada desconhecida. Com o pé ferido. — Seu i****a! Eu nunca mais entro no seu táxi! E você tem sorte de não ser Uber, senão eu já tinha te dado uma estrela! Grito. Para o vento. Porque ele já desapareceu há muito tempo. — Droga! Tento chutar uma pedra imaginária. Resultado? Bato o pé no asfalto. — Accidenti! Mamma mia! (Droga! Meu Deus!) — Vaffanculo, stronzo! (Vai se f***r, babaca!) Agora. O que eu faço?
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