Pov Sebastian Knight
— Aqui está o que você pediu. E vou já adiantando: antes que você pergunte, isso foi tudo o que conseguimos descobrir.
Derek pousa o dossiê de capa parda sobre a minha mesa de mogno. O som do papel batendo na madeira ecoa no silêncio do meu escritório como um tiro.
— Pelo seu tom e pelo aviso, parece que eu não vou gostar muito do que tem aqui, não é? — pergunto, sem desviar os olhos da janela que dá para o jardim.
— Depende do que você esperava encontrar, Sebastian — Derek responde, cruzando os braços. — Ela é um fantasma. Não há registos criminais, nem grandes movimentações bancárias... na verdade, m*l há uma conta bancária. O nome dela é Inara Carter. Vive num apartamento que m*l se mantém de pé e trabalha em qualquer coisa que lhe dê alguns trocos.
Viro-me lentamente. Abro o dossiê.
A primeira coisa que vejo é uma fotografia dela. Não é uma foto profissional. É uma imagem granulada, provavelmente de uma câmara de segurança ou de algum documento antigo.
Mas os olhos…
Aqueles olhos cinzentos que me enfrentaram no parque estão lá, desafiadores.
— Inara Carter — repito o nome, sentindo um gosto amargo e, ao mesmo tempo, intrigante na língua. — Uma “ninguém” que no primeiro dia aparece no meio da estrada… e no segundo dia com a minha filha? Não acredito nisso, Derek. Eu não acredito em coincidências. E ninguém é tão limpo assim.
— Há um detalhe — Derek aponta para uma folha no fundo, com a voz ficando mais baixa. — Ela tem ligações com a Micaela. Parece que são amigas de longa data.
— Com a Micaela?
Pouso o dossiê na mesa e presto total atenção ao meu primo.
— Como eu disse, elas são amigas. Pelo menos há quatro anos. Antes disso, Inara Carter simplesmente não existe. Nenhuma certidão de nascimento, nenhum registo escolar… nada. É como se ela tivesse sido fabricada.
Sinto um frio na espinha que nada tem a ver com a temperatura do escritório.
— Em poucas palavras… uma identidade falsa — digo, as palavras saindo como veneno.
Sinto uma veia latejar na minha têmpora.
No meu mundo, quem não tem passado está a esconder uma faca afiada para o futuro.
E o facto de ela estar ligada à Micaela?
— Há algo mais além dessas informações? Como envolvimento com os irlandeses?
O meu primo respira fundo antes de responder.
— Olha, cara… eu sei que a situação dela é estranha. Sem antecedentes, sem passado… mas isso não quer dizer que ela trabalhe com os irlandeses. E além disso, a Micaela sabe quais são os riscos.
Ela não cometeria um erro desses.
Olho para ele, considerando as suas palavras.
Ele tem um ponto.
Mas nada me tira da cabeça que aquela mulher está a esconder alguma coisa.
Porque eu não acredito em coincidências.
Pelo menos no meu mundo não existe p***a nenhuma disso.
— Você tem um ponto, Derek. Mas nós sabemos perfeitamente que espiões entram nas nossas vidas sem que nos apercebamos… e isso pode levar anos.
— Sim, isso é verdade. Mas eu não acho que seja o caso dessa moça. E você mencionou algo sobre ela ser italiana, certo? Talvez possas pedir ajuda ao Don Vittorio para saber mais sobre ela.
— Não. Não quero ele a meter o nariz nos meus assuntos, Derek. Ele pode ser o dono da máfia italiana e um aliado… pelo menos por agora… mas mesmo assim não quero o focinho dele nos meus assuntos.
Endireito-me na cadeira.
— Certo… vamos parar com as suposições. Se ela estiver a esconder alguma coisa, eventualmente vamos descobrir.
Respiro fundo, tentando afastar os pensamentos sobre a garota italiana.
Sim.
Para mim ela é só uma garota.
Uma garota com olhos mais tempestuosos que um touro em fúria… e com lábios vermelhos como cerejas maduras.
Uma garota com as curvas todas no lugar.
Mesmo com roupas antigas e desgastadas, havia nela um fogo que eu já não via há muito tempo.
Um fogo que me deu uma súbita vontade de apagar.
De dobrá-la à minha vontade.
De vê-la submissa.
Submissa a mim.
Sacudo a cabeça, afastando a imagem daqueles lábios entreabertos.
O meu desejo é um erro tático.
Uma falha na minha armadura que eu não posso permitir.
Como é que uma “ninguém” consegue despertar esse lado primitivo em mim com apenas um olhar desafiador?
— Sebastian?
A voz de Derek traz-me de volta à realidade fria do escritório.
— Sim… você tem mais alguma coisa?
— Na verdade tenho três coisas. E duas delas não são nada boas.
Como se isso fosse me surpreender.
Na minha vida raramente chegam boas notícias.
Principalmente quando você é o chefe da máfia americana.
— Estou ouvindo.
— Certo… em primeiro lugar, o seu casamento.
Franzo a testa.
— O que você quer dizer com isso?
Inclino-me sobre a mesa, apoiando os cotovelos na madeira.
Ele respira fundo.
— O conselho.
Olho para ele com uma expressão que deveria fazê-lo parar… mas ele continua.
— Cara, você sabe que eu apoio as suas decisões. Não só porque você está no comando da família… mas porque além de primo, eu sou seu amigo.
— Mas? — pergunto, sabendo que ele ainda não terminou.
— Mas neste assunto eu concordo com o conselho. Você precisa de um herdeiro.
Em menos de dois meses você faz trinta e dois anos… e antes dessa idade o seu pai já tinha colocado você no mundo da família.
Derek passa a mão pelo rosto.
— Eu sei que você já conhece as regras, Sebastian. A Chloe não pode assumir o comando da família.
Solto um suspiro pesado.
— Eu sei disso melhor do que ninguém.
Não há amargura na minha voz.
Apenas um facto.
No nosso mundo, tradição é lei.
E leis escritas com sangue não são facilmente quebradas.
— Então você entende o ponto deles — continua Derek. — O conselho quer garantir a sucessão antes que alguma coisa aconteça.
Inclino-me para trás na cadeira.
— E a solução deles é simples, imagino.
— Casamento.
A palavra paira no ar como uma sentença.
Passo a mão pela mandíbula.
— Com quem?
— Existem algumas opções. Famílias aliadas. Casamentos estratégicos que fortaleceriam a organização.
Solto uma risada sem humor.
— Claro que fortaleceriam.
No nosso mundo, mulheres raramente são vistas como pessoas.
São alianças.
Tratados vivos.
Heranças ambulantes.
Levanto-me da cadeira e caminho lentamente pelo escritório.
— E desde quando o conselho decide com quem eu vou casar?
— Desde que você se tornou o chefe da família Knight — responde Derek calmamente. — E Sebastian… toma cuidado para não desfazer outro acordo como fez há cinco anos. Nós dois sabemos as consequências disso.
Parei ao lado da mesa.
— Eu não pedi o trono.
— Mas você senta nele.
O silêncio que se segue é pesado.
Muito pesado.
Por fim Derek limpa a garganta.
— E… tem mais uma coisa.
Olho para ele.
— Fala.
— A sua mãe quer falar com você.
Franzo o cenho.
— Sobre?
— A mesma coisa.
Claro.
Solto um suspiro lento.
Aparentemente toda a p***a do mundo decidiu cuidar da minha vida pessoal hoje.
Pego novamente o dossiê.
A fotografia de Inara Carter encara-me outra vez.
Aqueles olhos cinzentos.
Tempestuosos.
Desafiadores.
Uma “ninguém” sem passado.
Uma mulher que apareceu no meio da estrada… e que ainda teve a ousadia de olhar para mim como se eu não fosse o homem mais perigoso desta cidade.
Fecho o dossiê com força.
— Ela tem uma candidata em mente — continua Derek. — E disse que vai estar aqui em breve para resolver isso.
Respiro fundo, tentando me controlar para não rebentar com a p***a da casa… ou matar alguém.
— Quanto tempo eu tenho?
— No máximo dois meses. Até o seu aniversário.
Certo.
Dois meses para resolver esta merda.
Mas eu vou garantir que as coisas não saiam como eles querem.
Vão sair como eu quero.
Tal como fiz no passado.
Só que desta vez… sem cometer o mesmo erro duas vezes.
Eu vou me casar.
Mas definitivamente sem sentimentos.
E sem um filho.
Já basta o erro que cometi anos atrás… quando me deixei levar por sentimentos.
Com isso acabei destruindo a vida de três mulheres.
Minha esposa.
Minha filha.
E o acordo que eu desfiz.
Respiro fundo, tentando enterrar o passado.
Olho para Derek com os meus olhos azuis, cheios de raiva e ódio ao lembrar de tudo que destruí por causa da minha teimosia.
— E qual é a segunda notícia?