capítulo 8

1760 Words
— O que eu faço? Foi a pergunta que me fiz há meia hora. Neste exato momento, estou tentando andar até a casa privada de sei lá quem. Eu me pergunto que tipo de pessoa quer viver assim. Que tipo de segredos alguém deve ter para morar a quilómetros da humanidade. Só pode ser um espião. Ou talvez um serial killer. Ou mesmo um traficante… talvez um mafioso… um… Não. Não mesmo. A minha cabeça já está a pensar no impossível. Talvez seja por tudo o que aconteceu nos últimos dias. Aparições de pessoas que eu nunca vi. Se alguém me disser que os ratos dançam balé, eu acredito sem questionar. Se eu encontrei o mesmo cara duas vezes e ainda “sequestrei” a filha dele — mesmo sem querer — o que mais pode me surpreender? — Aiiii! Paro imediatamente. Não dá para continuar andando. O meu pé dói demais. Se eu continuar assim, vou acabar ficando manca de vez. De repente, o motor de um carro soa atrás de mim. Paro e olho para trás, esperando ver o motorista e******o… mas não. É um carro simples. E quem sai dele é uma moça com um ar muito simpático. — Mas o que é que uma moça tão bonita está a fazer sozinha nesta estrada, mancando como se tivesse lutado com um urso… e perdido? — pergunta ela, com um sorriso divertido. Eu tento sorrir de volta, apesar da dor. Ela tem um sorriso espontâneo e gentil, com os cabelos alaranjados presos num coque prático. — É… eu lutei sim com um urso… e com o dono do urso… e com o zoológico inteiro — respondo, apoiando-me no capô do carro dela, já sem fôlego. — Eu tenho uma entrevista ali à frente, mas o táxi imbecile (i*****l) deixou-me aqui porque disse que é área privada. E infelizmente já não consigo dar mais um passo. Acho que o meu pé vai explodir a qualquer segundo. Ela olha para mim com uma mistura de preocupação e diversão. E no mesmo instante começa a rir. Uma risada gostosa que faz meus ombros relaxarem pela primeira vez em dias. — Entre, criatura! Eu levo você. Afinal eu também trabalho lá na casa. E se você está indo para a entrevista de emprego… já está atrasada. Diz ela, entrando no carro pelo lado do motorista. Abro a porta e me sento. O alívio é imediato, como se estivesse entrando num oásis no meio do deserto. O alívio é tão grande que solto um gemido que mistura dor e prazer ao mesmo tempo. — Ai, nem me diga nada! — a moça ri, engatando a marcha. — Eu sou a Mia. Trabalho lá na casa já faz um tempo. E você, como se chama? — Inara — respondo, tentando recuperar o fôlego enquanto o carro sobe a ladeira. — Prazer, Inara! Olha, não se preocupe com o pé. Lá dentro a gente dá um jeito. Mas me diga… está muito nervosa? O pessoal que vem fazer entrevista costuma chegar a tremer, mas você parece que veio de uma guerra. Dou uma risada sem graça, olhando para o meu vestido manchado. — E vim, Mia. E vim. Mas preciso muito desse emprego. Espero que o patrão não seja um monstro. — Ah… o patrão… — Mia faz uma expressão enigmática, desviando o assunto rapidamente. — Ele é… bom… ele é o patrão. Mas a casa é maravilhosa, você vai ver. Se conseguir a vaga, a gente vai se ver muito na cozinha para tomar café e fofocar sobre a vida. Conversamos sobre coisas bobas durante o trajeto. O frio de Manhattan. Táxis que não prestam. E como aquela estrada parecia não ter fim. Mia era leve, divertida… e por alguns minutos eu até esqueço que o meu tornozelo está latejando e que a minha vida é um caos completo. Quando chegamos à frente da mansão… eu perco o fôlego. Ela é imensa. Fria. Impecável. Mia para o carro perto da entrada e se vira para mim com um sorriso encorajador. — Bom, Inara, é aqui que nos despedimos por agora. Eu tenho que entrar pela lateral e começar o meu serviço na cozinha. Hoje o dia está corrido. — Obrigada por tudo, Mia. De verdade — digo, saindo do carro com cuidado. — Você salvou a minha vida. — Imagina! — ela acena, já ligando o carro novamente. — Ah, e boa sorte na vaga de babá, viu? Tomara que você consiga domar a pequena! Eu congelei. O pé no chão. A mão ainda na porta do carro. As palavras dela ecoaram na minha cabeça como um trovão num céu limpo. Babá? — Espera! Mia! — chamo. Mas o motor do carro abafa a minha voz, e ela já dobra a esquina da casa. Desaparece. Sinto o meu estômago dar um nó. Babá? A Mica não me disse nada disso. Ela disse que era um emprego que mudaria a minha vida. Uma oportunidade de ouro. Mas… babá? Pensando bem… ela nunca mencionou o cargo. Ela só me deu o endereço e disse: "Vai." Eu não posso ser babá. Olho para a porta monumental da mansão. O pânico mistura-se com a necessidade de ter um teto e comida. Agora é tarde demais para voltar atrás. Respiro fundo, limpo o suor da testa e caminho em direção à entrada, sentindo que — independentemente do cargo — estou prestes a entrar num mundo onde as regras não são minhas. — Não… não dá para conversar. Como eu vou falar com alguém que não me responde? — Pois é. A mim ela nem sequer olhou. Deve ser uma mimada. Eu não estou com capacidade para aguentar isso, não. — Nem eu. Eu afinal só vim pelo pai dela, que é um deus grego. Já que não deu… vamos embora. Não temos nada para fazer aqui. No mesmo instante sinto um arrepio. Deus grego. Isso de novo. Será que todo homem hoje em dia é chamado assim? Olho para as moças que supostamente estavam ali como futuras babás. Elas mais parecem super modelos. Vestidos até a coxa. Saltos com b***s tão altos que parecem arranha-céus. — Se fosse eu… também não falaria com vocês. Digo para mim mesma. — Eu lamento muito. — Eu também lamento que ela não tenha gostado de mim. — Não diga isso. Ela é só um pouco difícil… mas é uma menina adorável. — Sim… eu pude ver. Então, senhora, muito obrigada por tudo. Eu já vou. — Sim. Muito obrigada a você também. A moça se despede com tristeza e vai em direção à saída. Fico olhando para ela. Pergunto-me que tipo de criança é essa. Sim… algumas ali não estavam bem vestidas, admito. E também vieram com outras intenções. Sim. Vieram. Mas essa estava bem… e parecia ser uma boa pessoa. Não como se todo— — Oláaaaa! — AAAA! Levanto-me tão rápido que quase caio no chão. A senhora me segura antes que eu perca o equilíbrio. — Desculpe! Eu não queria assustar você — diz com ar preocupado. — Você está bem? — Sim… desculpe. Eu é que fiquei um pouco distraída com os meus pensamentos… senhora… Inclino a cabeça, sem saber como chamá-la. Ela era linda. Pergunto-me se é irmã do chefe. Porque esposa não pode ser — já que aquelas lá vieram claramente com intenções de ficar com ele. Então chego à conclusão de que ele ou é divorciado… ou viúvo. Ela tinha quase a mesma altura que eu. O cabelo loiro… muito loiro… quase branco. E os olhos… azuis. Um azul que me lembrava ele. O deus grego. E a Piccola. Um arrepio passa pela minha espinha só de pensar nele. Não é medo. É outra coisa. Só não sei explicar. Sem pensar, levo a mão ao meu braço e toco a marca que a pegada dele deixou em mim. No mesmo instante sinto o meu coração bater forte só de lembrar da mão dele contra o meu braço. — Ah, deixe-me me apresentar — diz ela. — Sou a senhora Samantha, tia-avó da menina. Eu me assusto. — Ah? O quê? Ela olha para mim com um sorriso que claramente chega aos olhos. — Avó? — pergunto, ainda sem acreditar. — Sim, sou. E quem é você? — Ah… desculpe, senhora… eu… quer dizer… eu sou Inara Carter. Ela me olha com um sorriso ainda mais radiante. — Você é a Inara? A moça que a Micaela recomendou? — Sim… sou eu. A senhora conhece ela? Pergunto curiosa. Afinal Mica nunca me disse nada sobre essa família. — Sim — responde ela, começando a andar. Eu a sigo automaticamente. — Afinal… fui eu que trouxe aquela garota ao mundo. Eu congelei. Literalmente. Como assim ela trouxe a Mica ao mundo? Qual é a idade dessa senhora? Olho para ela… e vejo que ela percebeu o meu espanto. — Vamos, querida. Estamos perto do jardim onde está a nossa menina. Com tantos pensamentos e descobertas… eu simplesmente esqueço o que me trouxe aqui. — Sim, senhora. — Me chame de Samantha. — Desculpe… mas eu não posso. — Pode e vai. Mas por enquanto… vamos encontrar a Chloe. Ela está no jardim. Eu paro novamente. Sinceramente… já perdi a conta de quantas vezes congelei hoje. Os meus olhos se arregalam ao ouvir esse nome. O meu coração começa a bater forte. Chloe. Chloe. Não… eu não posso ter um ataque aqui. Não posso. Encosto-me à parede branca e respiro fundo. — Você está bem, Inara? — pergunta Samantha, segurando o meu ombro. — Sim… só me faltou o ar… mas já estou bem. — Que bom. Porque já chegamos. Agora só falta você falar com a menina… e ver se ela aceita você. Ela aponta para a porta de vidro. Lá fora, sentada entre brinquedos espalhados pelo jardim, estava uma menina de costas para mim. Os cabelos castanhos voavam ao vento. Mas mesmo rodeada de brinquedos… ela parecia triste. Abatida. Samantha abre a porta deslizante e dá um passo à frente. Eu faço o mesmo. Ficamos paradas atrás da menina. Ela estava cabisbaixa. — Seja paciente com ela — sussurra Samantha. — A Chloe não é de falar muito… ou nada. Pela primeira vez desde que cheguei, vejo tristeza nos olhos de Samantha. Eu ia perguntar o que ela quis dizer com aquilo… Mas travo. Porque naquele instante a menina vira o rosto na nossa direção. E os seus lindos olhos azuis… olham diretamente para mim. Eu não posso acreditar. Não pode ser. Era… — Piccola? .
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