Ele segurava o meu braço com força suficiente para me imobilizar, mas não para quebrar.
Pelo menos, ainda não.
Os dedos dele eram firmes, quentes, dominantes. Eu sentia o poder ali. A diferença brutal de força entre nós.
Mas eu não recuei.
Ergui o queixo, mesmo com o coração batendo como um tambor de guerra dentro do peito.
Se ele esperava medo, ia ter frustração.
Ah, ia ter sim.
— Solta-me.
Não foi um pedido.
Os olhos dele escureceram. Não de raiva descontrolada. De desafio.
Ele apertou um pouco mais. Só o suficiente para me lembrar que podia fazer pior.
— Cuidado com o tom — murmurou.
Inclinei o rosto para mais perto do dele.
— Ou quê?
— Vai me intimidar? Vai me ameaçar? — provoquei. — Agora percebo que o seu passatempo favorito é assustar as pessoas. Primeiro na estrada, agora no parque. O senhor está a fazer tudo errado.
Devia preocupar-se mais em cuidar da própria filha, e não deixá-la na rua.
Eu sustentei o olhar.
— Pergunto-me o que a sua esposa acharia disso, senhor.
Ali.
Foi ali que algo mudou.
Não no corpo dele.
No ar.
Os seguranças ficaram tensos.
O maxilar dele endureceu.
Mas ele não me soltou.
Os olhos dele ficaram ainda mais frios — algo que eu nem sabia ser possível.
Ele apertou mais o meu braço e, por um segundo, senti que podia arrancá-lo do meu corpo.
Ofeguei de dor.
Mas não parei de encará-lo.
Os nossos olhares travaram uma batalha silenciosa.
Até que—
O som da porta do carro abrindo-se cortou a tensão elétrica entre nós.
Eu ainda sentia o calor da mão dele no meu braço. Uma marca invisível que parecia queimar a minha pele.
Com certeza ia deixar marca.
A porta abriu-se totalmente.
A Piccola saiu.
Ela não aguentou o clima pesado. Vi o rostinho dela surgir na fresta da porta, os olhos azuis marejados, olhando de mim para o pai com uma súplica silenciosa.
Ela aproximou-se, ignorando os seguranças, e abraçou as minhas pernas uma última vez.
— Va bene, piccolina. Va bene.
(Está tudo bem, pequena. Está tudo bem.)
Apertei-a contra mim, sentindo um nó apertar a minha garganta. Eu m*l a conhecia, mas deixá-la entrar naquele carro preto e desaparecer da minha vida parecia… errado.
— Vai ficar tudo bem, Piccola. Prometo — menti, dando-lhe um último beijo no topo da cabeça.
Os meus olhos ardiam pelas lágrimas que eu me recusava a deixar cair.
Eu não sei porquê… mas eu não queria deixá-la ir.
O “deus grego” soltou um suspiro pesado. A mandíbula ainda rígida, mas fez sinal para os homens recuarem.
Ele não pediu desculpas.
Não sorriu.
Apenas me lançou um olhar que dizia, sem palavras, que as nossas contas ainda não estavam pagas.
— Entra — ordenou à filha, voz contida, profunda como um trovão distante.
Ela estremeceu nos meus braços. Não era medo dele.
Era dor de ir.
Ela parecia tão frágil ali, tão diferente da Piccola de ontem — forte, sorridente, desconfiada, falante, absurdamente esperta.
— Va bene, amore mio. Non lasciare il tuo babbo aspettando.
(Está tudo bem, meu amor. Não deixes o teu pai esperando.)
Ela olhou para mim com lágrimas nos olhos.
E isso partiu o meu coração.
Sem dizer uma única palavra, aproximou-se devagar e encostou a testa na minha.
Aquilo quebrou-me por dentro.
Senti as minhas bochechas ficarem molhadas.
— Ai, amore mio…
(Meu… amor.)
Eu não me sentia assim há muito tempo.
Impotente.
Sem poder mudar nada.
Apenas aceitar.
Um gemido baixo escapou de mim quando ela se afastou e correu para o carro, sem olhar para trás.
Ela entrou.
E eu senti uma parte de mim ir com ela.
Eu não sabia que era possível amar alguém em tão pouco tempo.
Mas eu já amava.
Completamente.
Fiquei parada por vários segundos, olhando para a porta do SUV preto à minha frente.
Vi os “armários embutidos” — os seguranças — entrarem nas outras duas SUVs.
O “deus grego” parou com a mão na porta do carro.
Ele não olhou para trás.
Mas a voz dele cortou o ar como uma lâmina fria:
— No meu mundo, intenções não importam. Apenas atos.
Fez uma pausa.
— Esta é a segunda vez que eu te vejo. Na primeira, ignorei-te.
— Tu não és uma mulher comum, Italiana. Tu és um erro de cálculo que eu vou corrigir. Um ser que não vale nada, que apareceu do nada para se infiltrar no que é meu.
O ar fugiu-me dos pulmões. O desprezo na voz dele era quase físico.
— Ninguém encontra um Knight duas vezes por "acaso". Eu não sei o que tramas, que jogo estás a jogar com a minha filha, mas eu vou descobrir. — O tom de voz dele baixou, tornando-se uma promessa de morte.
Ele virou finalmente o rosto na minha direção. Os olhos glaciais fixaram-se nos meus.
— Não tentes a sorte com uma terceira vez. Da próxima vez que nos encontrarmos, eu não vou segurar apenas o teu braço… vou decidir o que fazer com a tua vida.
Entrou no carro.
A porta fechou-se.
E, em segundos, o comboio de SUVs afastou-se, os vidros fumados escondendo o rosto da minha Piccola.
Fiquei ali.
Sozinha.
No meio do parque.
Com as minhas muletas de alumínio.
E o coração a tentar sair pela boca.
O silêncio que ficou para trás era ensurdecedor.
*********************************
O trajeto de volta para casa foi um borrão.
Lembro-me de entrar num táxi, de ver as luzes de Nova york passarem pela janela como riscos de fogo, mas a minha mente ainda estava naquele parque. Ainda estava presa ao azul dos olhos da Piccola e ao gelo dos olhos do pai dela.
Assim que fechei a porta do meu quarto, o silêncio desabou sobre mim.
Não era um silêncio calmo. Era pesado. Sufocante.
As minhas mãos começaram a tremer.
Primeiro um pouco, depois tanto que as muletas escorregaram e bateram no chão com um som metálico que pareceu um tiro no vazio. Deixei-me escorregar pela madeira da porta até o meu corpo tocar o chão frio.
— Respira, Inara... respira — sussurrei para mim mesma, mas o ar parecia ter virado chumbo.
O meu peito subia e descia depressa demais. O meu coração, que tinha sido um tambor de guerra diante dele, agora era um pássaro ferido a bater contra as grades da minha costela
Levei a mão ao braço. A pele ainda latejava. Puxei o casaco do corpo e lá estavam eles: as marcas avermelhadas dos dedos dele. O carimbo da possessividade de um homem que eu m*l conhecia, mas que já tinha virado o meu mundo do avesso.
Ele vai decidir o que fazer com a minha vida?
A frase dele ecoava na minha cabeça como uma sentença. E depois veio a imagem da Piccola. O calor da testa dela contra a minha. A súplica nos olhos azuis.
— Ela não é minha — solucei, e a primeira lágrima finalmente caiu, quente e salgada.
— Ela não é nada minha.
Uma onda de angústia apertou-me a garganta. Era uma dor física, uma falta que não fazia sentido. Como é que se pode sentir saudades de alguém que acabámos de conhecer? O quarto parecia pequeno demais. As paredes pareciam estar a fechar-se sobre mim.
De novo , um ataque de novo!
Fechei os olhos com força, tentando afastar a imagem do SUV preto a levar a minha pequena embora. Eu sentia-me amputada. Como se, ao levar a Piccola, ele tivesse arrancado uma parte da minha alma que eu nem sabia que existia.
Fiquei ali, encolhida no chão, abraçada aos meus próprios joelhos, enquanto o ataque de ansiedade me consumia. O suor frio escorria pelas minhas costas. Eu estava sozinha. Com gesso, com um tornozelo a gritar de dor e um braço marcado pelo "deus grego".
A escuridão do quarto parecia rir da minha tentativa de puxar o ar. Cada inspiração era curta, insuficiente, como se o oxigénio tivesse medo de entrar nos meus pulmões.
Apertei os olhos com força, mas a imagem não mudava: o rasto dos pneus do SUV preto na estrada e o vazio que a Piccola deixou. A minha mão subiu, por instinto, e apertou exatamente por cima do hematoma roxo no meu braço.
Eu precisava daquela dor física para tentar calar a dor que gritava dentro do peito, mas nada funcionava.
O meu coração não era mais um tambor de guerra; era um galope descontrolado que me fazia ver pontos pretos diante dos olhos.
Tentei esticar o braço, tateando o chão à procura das muletas que tinham caído longe demais, mas os meus dedos m*l roçavam o frio do piso. Eu estava ali, encurralada entre a porta e o meu próprio pânico, sentindo o suor frio colar a roupa ao corpo.
— Para... por favor, para... — a minha voz saiu como um chiado quebrado.
As paredes pareciam mover-se, fechando-se sobre mim, apertando o pouco espaço que me restava até não sobrar nada. Não havia "deus grego", não havia emprego, não havia futuro. Havia apenas aquele momento sufocante onde eu estava a afogar-me em terra firme.
Enterrei o rosto nos joelhos, tentando esconder-me do mundo, enquanto o tremor nos meus ombros se tornava violento.
O silêncio de Nova Iorque lá fora era ensurdecedor, mas o barulho da minha própria falha aqui dentro era muito pior. Eu estava quebrada, marcada e, mais uma vez na vida, eu não conseguia ver a luz no fim do túnel.
O meu mundo tinha parado anos atrás e depois naquele parque. E agora, aqui no chão, eu só conseguia sentir o peso da sentença dele a esmagar o que restava da minha sanidade.
Eu não era ninguém. E, naquela escuridão, eu finalmente aceitei o abismo.