Pov Inara
O silêncio do jardim era a coisa mais preciosa que eu tinha sentido em semanas. O peso morno da piccola, ou Chloé, no meu colo, a respiração calma dela contra o meu peito… por um momento, eu esqueci que estava numa fortaleza cujo dono eu nem sabia direito quem era.
Esqueci que o meu tornozelo latejava.
Esqueci que eu não tinha para onde ir.
Até que a sombra dele caiu sobre nós.
Uma mancha escura que cortou o sol, trazendo consigo um frio que não vinha do vento, mas da presença dele.
Eu não precisei olhar para cima para saber quem era.
O perfume de sândalo, couro e perigo era inconfundível.
— O que diabos está a acontecer aqui?
A voz dele era um rosnado baixo, contido, carregado de uma fúria que teria feito qualquer outra mulher tremer.
Eu não.
Eu já tinha enfrentado monstros piores do que aquele deus grego… e a maioria deles não usava fatos por medida.
E, sendo sincera, os monstros dentro de mim eram muito mais assustadores.
Apertei Chloé um pouco mais contra mim, sentindo-a mexer-se no sono.
Olhei para cima lentamente, encontrando aqueles olhos azuis que pareciam querer perfurar a minha alma.
— Fale baixo — sussurrei, a minha voz mais firme do que eu esperava. — Ela demorou duas horas para dormir. Se a acordar agora, o senhor vai ter de explicar à sua tia porque estragou o único momento de paz que esta criança teve hoje.
Sebastian travou.
Vi o músculo da mandíbula dele contrair-se. Ele parecia uma bomba prestes a explodir, as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo.
— Você… — sibilou, dando um passo à frente, invadindo o meu espaço. — Como entrou aqui? O que pensa que está a fazer com a minha filha?
— Estou a fazer o seu trabalho, pelos vistos — respondi sem desviar o olhar. — Alguém tinha de lhe dar atenção.
Ele parecia prestes a arrancar-me dali à força, mas passos rápidos na relva impediram o desastre.
— Sebastian! Inara! O que se passa?
A voz da senhora Samantha cortou o ar.
Ah… então Sebastian era o nome do deus grego.
Nada mau.
Ela aproximou-se, olhando de mim para o sobrinho com uma expressão interrogativa.
— Inara, querida, obrigada por isto. Foi um milagre — disse Samantha, com um sorriso suave que não escondia a preocupação. — Vou levar a Chloé para o quarto dela, sim? Ela precisa descansar num lugar confortável.
Assenti e levantei-me com cuidado para não acordar a pequena.
O meu tornozelo estalou de dor, mas não deixei transparecer.
Passei por Sebastian sentindo a eletricidade que emanava dele. Um calor estranho arrepiou-me a nuca.
Ele não se moveu.
Apenas me seguiu com o olhar, como um predador a marcar a presa.
Entreguei Chloé à tia dele com um aperto no peito.
Quando os meus braços ficaram vazios, senti-me subitamente desprotegida.
Sem a piccola, eu era apenas uma mulher sozinha diante de um predador.
Samantha lançou um olhar de aviso ao sobrinho e voltou para a mansão.
O silêncio do jardim voltou… mas agora carregado de tensão.
Virei-me para sair.
Antes que pudesse dar o segundo passo, uma mão grande fechou-se no meu braço.
Firme.
Inabalável.
— Onde pensas que vais, Italiana? — a voz dele saiu rouca perto do meu ouvido.
— Vou-me embora — respondi, tentando soltar-me.
Ele puxou-me para mais perto.
— O senhor já deixou claro que não me quer aqui. E, honestamente? Eu também não faço questão de ficar perto de um homem que rosna em vez de falar.
E também porque, da última vez, ele disse que decidiria o que fazer da minha vida.
E eu não estava nada interessada em ser deportada.
Se a melhor forma de evitar isso era ficar longe dele… eu faria isso com prazer.
Sebastian soltou uma risada seca e encurralou-me contra o tronco do carvalho.
O cheiro dele — tabaco caro, metal e algo puramente masculino — invadiu os meus sentidos.
Confundindo a minha raiva com um formigueiro estranho no baixo ventre.
De novo essas sensações.
Sentimentos que eu nunca tinha experimentado.
O meu corpo arrepiava-se apenas com o toque dele.
A minha respiração falhava quando ele me olhava.
Os meus lábios entreabriam-se involuntariamente com o calor da respiração dele.
O que era isto?
O que estava a acontecer comigo?
— Tu entras na minha propriedade, seduzes a minha tia, conquistas a minha filha… e achas que podes simplesmente sair pela porta da frente? — murmurou ele, inclinando-se.
O nariz dele roçou na minha bochecha.
O meu corpo tencionou-se.
— Ninguém entra na vida de um Knight sem um propósito, Italiana. E eu estou muito interessado em descobrir qual é o teu.
— Eu não sei do que está a falar.
Afastei-me do toque dele e encarei-o diretamente.
— Ah, não sabes?
— Não.
No instante seguinte pisei num galho.
O meu tornozelo torceu outra vez.
— Ah… droga!
Antes que eu caísse, ele segurou-me.
Puxou-me de volta para o calor do qual eu tentava fugir.
Agora eu estava presa entre o corpo dele e a árvore.
A dor no tornozelo gritava, mas o que realmente me incomodava era a forma como ele me segurava.
A mão na minha cintura era firme.
Possessiva.
Quente demais.
— Cuidado, Italiana — murmurou ele, a voz baixa e perigosamente sedutora. — Se caíres agora, vais estragar o cenário de “vítima indefesa” que criaste tão bem.
— Eu não criei nada! — protestei. — Deixe-me ir.
— Deixar-te ir? — ele riu sombriamente.
Apertou-me ainda mais contra si.
— Então diz o que queres de mim — perguntei.
Ele riu de forma gélida.
— O que eu quero?
O olhar dele percorreu o meu corpo lentamente antes de parar nos meus lábios.
— Vamos parar com o teatro, Italiana. Tu apareceste em frente ao meu carro, entraste na minha casa e usaste a minha filha para chegar até mim. Mulheres como tu eu já vi a atirarem-se para cima de mim.
O meu sangue gelou.
— Não sabes do que estás a falar — sibilei.
— Sei exatamente.
Ele aproximou-se ainda mais.
— Quanto queres para abrir as pernas e parar com esse jogo de “moça inocente”? Foi para isso que vieste, não foi? Ouro… e o título de p****************o de um Knight.
O mundo parou.
A humilhação subiu pela minha garganta como ácido.
Antes que eu pudesse pensar, a minha mão moveu-se sozinha.
ESTALO.
O som do tapa ecoou pelo jardim.
A cabeça dele virou com o impacto.
O silêncio que se seguiu foi sufocante.
Como ele ousava?
Chamar-me de prostituta?
Eu… que tive de crescer cedo demais.
Eu… que perdi mais do que ganhei na vida.
Sebastian voltou lentamente o rosto para mim.
A marca dos meus dedos começava a aparecer na pele dele.
Mas eram os olhos que assustavam.
O azul estava quase preto.
Uma tempestade de fúria… e algo mais.
Mas eu não baixaria a cabeça.
Não lhe daria esse gosto.
— Nunca mais — disse, a minha mão ainda a arder, as lágrimas a ameaçarem cair mas recusando-se a fazê-lo. — Nunca mais ouse confundir-me com as mulheres que o senhor compra. Eu posso não ter nada, Sebastian Knight, mas tenho mais dignidade num dedo do que o senhor tem em todo o seu império e corpo juntos.
No instante seguinte, a mão dele subiu ao meu pescoço.
O polegar pressionou levemente o meu pulso acelerado.
— Você não tem noção do perigo, Italiana.
O toque dele era um incêndio.
Eu devia empurrá-lo.
Devia fugir.
Mas a mistura de raiva e frustração paralisava-me.
— Vai matar-me? — desafiei. — Estou-me nas tintas.
Inclinei a cabeça.
— Vaffanculo, americano.
O insulto ficou suspenso no ar.
O polegar dele ainda sentia cada batida do meu coração.
Ele não se afastou.
O olhar desceu lentamente para os meus lábios.
Prometendo que aquele tapa não ficaria esquecido.
Eu estava encurralada entre a árvore e o calor do corpo dele.
O silêncio do jardim era ensurdecedor.
Mesmo com as pernas a tremer… eu sustentei o olhar.
Se ele queria que eu implorasse, estava enganado.
Se aquele olhar matasse, eu já estaria enterrada debaixo daquele carvalho.
Pelo menos o jardim é bonito para um funeral.
Eu tinha acabado de esbofetear um bilionário americano e mandá-lo ir-se f***r na minha língua materna.
Se fosse morrer hoje…
Pelo menos morreria com estilo.
E com a palma da mão bem vingada.