Pov de Inara
O mundo parou.
O vento no jardim, o canto dos pássaros, até a dor latejante no meu tornozelo… tudo desapareceu. Só existiam aqueles olhos. O mesmo azul profundo que me tinha assombrado nos últimos dois dias. O azul que eu achei que nunca mais veria.
— Piccola? — a minha voz saiu como um sopro, carregada de uma incredulidade que me fazia tremer.
A minha pequena ficou imóvel por um segundo eterno.
Os brinquedos caíram das suas mãos pequenas.
O rosto dela, que segundos antes parecia uma máscara de tristeza e apatia, transformou-se. Foi como ver o sol romper as nuvens depois de uma tempestade.
Os olhinhos dela encheram-se de lágrimas não derramadas.
Ela não disse nada.
Mas não precisou.
Dei um passo com a intenção de ir até ela, de abraçá-la.
Só que, no segundo seguinte, a Piccola levantou-se com uma rapidez que me assustou. Ela correu. Correu como se a vida dela dependesse daquele abraço.
O som dos seus pezinhos na relva era a música mais bonita que eu já tinha ouvido.
Os olhinhos dela estavam cheios de uma saudade impossível para uma criança tão pequena.
Ela atirou-se contra mim com tanta força que me fez perder o equilíbrio.
E eu caí sentada no chão, com ela em cima de mim.
Senti as suas mãos pequenas enroscadas em mim, o rosto escondido na curva do meu pescoço. Ela soluçava.
Eram soluços de alívio.
Eram soluços de saudade.
Ignorei a dor no pé. Ignorei a presença da senhora Samantha.
Sentei-me na relva com ela no meu colo, sujando o vestido que a Mica me deu, e envolvi-a nos meus braços.
— Oh, amore mio (meu amor)… eu estou aqui. Eu estou aqui — sussurrei, sentindo as minhas próprias lágrimas molharem o ombro dela.
Ela chorava um choro silencioso que me partiu o coração.
— Meu amor… o que foi?
Perguntei, passando o nariz pelos seus cabelos e sentindo o cheiro doce e gostoso dela.
— Va bene, piccolina (está tudo bem, pequenina).
Tentei afastá-la um pouco do abraço para poder ver o seu rostinho, mas ela apertou ainda mais os braços ao meu redor, abanando a cabeça.
Ela não queria se afastar.
E eu também não.
Mas eu precisava saber se ela estava bem.
— Va bene, piccolina (está tudo bem, pequenina).
— Eu senti a sua falta… você não sentiu a minha, ah?
Demorou alguns segundos para ela abanar a cabeça em sinal de sim.
O meu coração deu um salto de felicidade.
— Sério? Então… por que você não quer olhar para mim, ah? É porque eu estou um pouco diferente do habitual? Ou porque você ficou zangada por eu não estar com as minhas pernas de pato?
Falei tudo gaguejando, ainda soluçando, mas com um toque de humor na voz.
Pelo pouco que eu a conheci, sei que ela gosta muito de rir.
E eu sinto que nesses últimos dias rir foi a coisa que ela menos fez.
— É que eu não pude trazer elas, sabe… — continuei. — Um dos patos lá do parque, você lembra deles, não é? Ele acabou perdendo uma das patas. Então ele precisava de novas.
Eu decidi emprestar as minhas.
Se bem que acho que não ficaram muito bem nele. Nem em mim ficaram, e eu tive praticamente que lutar com elas… imagina nele.
Senti o corpinho dela tremer um pouco.
E eu sabia que não era de frio.
Então continuei falando.
— Então eu disse para ele:
“Eu acho que não vai dar para você usar isso.”
Mas ele abanou a cabeça e disse:
“Vai dar sim. Vai ter que dar. Eu já perdi uma pata e não posso perder a outra.”
Confusa, eu olhei direito para ele e me perguntei como ele perdeu a pata, se ainda tinha as duas.
Sim, a outra estava meio torta… mas não tinha perdido.
Então eu perguntei:
“Que pata?”
Ele respondeu:
“A minha pata.”
“Não, você não perdeu a sua pata.”
Insisti.
“Perdi sim”, ele disse.
“Não perdeu! Que pata você perdeu, se as duas estão no lugar?”
Ele olhou para mim com uma cara emburrada.
“Não é a minha pata”, ele disse, apontando para as próprias pernas com as asas.
“É a pata , a minha mulher.”
Eu olhei para ele, espantada.
“Como assim? A tua mulher?”
“É a minha mulher!”, disse ele emburrado.
“Ah… me desculpe. Como eu ia saber que a pata que você perdeu era a sua mulher?
Chame ela direito então.”
Ele olhou para mim e disse:
“Como assim? Ela me chama de pato e eu chamo ela de pata.”
Eu olhei para ele incrédula.
“Como assim? Vocês não têm nome?”
“Era suposto?”
“Dã! Claro que era! Os outros têm!”
“O quê? Sério? Quem?”
“Vocês não conhece a Margarida e o Donald, dã?”
Depois que eu disse isso, olhei para o pato… e os olhos dele estavam tremelicando.
Eu não entendi por quê.
E depois ele começou a grasnar…
igualzinho ao pato Donald.
Eu fiquei de boca aberta.
— Como assim ele é da família dele e não sabe o nome do tio? Esse pato é um pateta mesmo!
A piccolina tremeu de novo.
Eu parei de falar.
Achei que ela estava chorando outra vez.
Mas não.
Ela estava rindo.
Um riso silencioso.
Mas estava rindo.
E eu a acompanhei.
— Hahahahaha!
Finalmente ela levantou o rostinho e olhou para mim.
— Piccolina… linda.
Eu a puxei ainda mais para perto — se é que isso era possível — e enchi o seu pequeno rosto de beijinhos.
— Piccolina linda, linda…
Fiz cócegas nela e vi os lábios dela se alargarem num sorriso.
— Diz alguma coisa, hem? Você sentiu saudades minhas?
Ela não respondeu.
E, sendo sincera… eu não tinha ouvido ela falar desde que cheguei.
Olhei de relance para o lado.
A senhora Samantha estava estática.
A mão cobria a boca e os olhos azuis dela — tão parecidos com os da neta — estavam arregalados de choque.
Ela estava chorando.
Mas por quê?
— Senhora…
— Não… está tudo bem. Podem continuar. Eu não quero interromper vocês.
Ela disse isso virando-se e caminhando até a fonte no meio do jardim.
Olhei para a piccolina, que também olhava para ela.
— Meu amor… você pode ficar aqui um pouco? Vou falar com a sua avó, está bem?
Falei já me levantando com ela no colo.
Ela apertou ainda mais os braços ao meu redor.
— Va bene, Chloe (está bem, Chloe)…
Ela olhou para mim com os olhos arregalados.
— Eu descobri o seu nome.
Acariciei o cabelo sedoso dela.
— Eu estou aqui. Não vou a lugar nenhum, prometo.
Só vou falar com a vovó Sam um minuto, está bem?
Ela não queria me soltar.
E eu também não queria soltá-la.
Mas eu precisava entender o que estava acontecendo.
Ela acabou assentindo com a cabeça.
Coloquei-a sentada no tapete cheio de brinquedos.
Dei um beijo na sua testa.
— Já volto, Piccola.
Caminhei o mais rápido possível até a senhora Samantha — o que não era muito rápido, considerando o meu pé quase quebrado.
Quando cheguei perto dela, ouvi os soluços.
— Senhora? — chamei.
Ela virou-se, ainda com lágrimas escorrendo.
— Como? — perguntou.
— O quê, senhora?
— Nos últimos dois dias ela nem escreveu para se comunicar. Nem comigo ela sorriu.
Ela respirou fundo.
— O que você fez para ela sorrir? E como você a conhece?
Eu congelei.
Escreveu?
— O que a senhora quer dizer com “nem escreveu”?
Ela olhou para a piccola — que agora eu sabia que se chamava Chloe — e depois para mim.
Respirou fundo.
E disse algo que eu nunca imaginei ouvir.
— A Chloe não fala há três anos. Ela se comunica escrevendo.
Meu mundo parou.
Como assim… ela não fala há três anos?
Olhei para a senhora Samantha, confusa.
— Não… não tem como.
— Como assim?
— A minha piccolina fala. Ela falou comigo há dois dias atrás.
Ela ficou ainda mais espantada.
— Ela falou? Sério?
Ela me puxou para um abraço.
— Muito obrigada por cuidar dela. Muito obrigada mesmo.
Ela se afastou e perguntou:
— Agora me conta… como assim ela falou com você?
Neste momento estou sentada debaixo da árvore onde a Piccola estava brincando com os seus bonecos.
Agora ela está quentinha nos meus braços, tirando uma boa soneca.
Acreditem ou não… ela não queria dormir.
Depois que expliquei para a senhora Samantha como nos conhecemos e como ela falou comigo, fomos brincar com ela no mar de brinquedos até ela cansar.
Agora está deitada no meu colo, com o rosto de anjo adormecido.
Infelizmente está ficando frio aqui fora.
A senhora Samantha disse que já voltava.
Estou esperando para levar essa menina linda para a cama.
Mas, naquele exato momento, o ar mudou.
Ficou mais pesado.
Uma sombra longa e fria projetou-se sobre nós, escurecendo a luz do jardim.
O perfume de sândalo e couro — o mesmo que eu senti no parque — atingiu-me como uma bofetada.
Meu coração parou.
E não é que eu tinha me esquecido dele?
Eu tinha esquecido completamente que, se a Piccola está aqui… o homem que me ameaçou também estaria.
— O que diabos está acontecendo aqui?— a voz dele foi um trovão de gelo.
Levantei o rosto devagar, ainda protegendo a menina nos meus braços.
E lá estava ele.
O “Deus Grego”.
O meu carrasco.
O homem que me chamou de “nada”… e que praticamente disse que, se me visse de novo, eu estaria morta.
Então… eu estou bem ferrada.
Mamma mia.