POV Sebastian
— E qual é a segunda notícia?
Derek respira fundo antes de jogar outra capa parda sobre a minha mesa.
Posso jurar que nem tinha visto aquele documento nas mãos dele.
— O que tem aqui? — aponto com a cabeça para o arquivo.
— São relatórios que a Astrid enviou da central da polícia.
Astrid é tenente, mas também faz parte da máfia. Digamos que ela estudou e chegou onde está com um propósito: ser os nossos olhos do outro lado.
Temos policiais nas nossas mãos?
Sim, com certeza.
Mas precisávamos de alguém num cargo realmente importante. E é exatamente aí que ela está. Se continuar a ser o gênio que é, em poucos anos pode subir a capitã.
Pego o relatório com a intenção de ler, mas Derek fala primeiro.
— Desapareceram mais seis mulheres esta semana.
O meu corpo trava imediatamente.
— Mais seis?
— Sim. E já são vinte e sete em menos de dois meses. Isso não é normal. Você sabe o que isso significa, não sabe?
— Tráfico de mulheres.
A minha voz baixa tanto que quase se torna um rosnado.
Bato a mão na mesa com força, fazendo os documentos e o dossiê de Inara Carter saltarem.
— No meu território? Quem é o desgraçado que está fazendo isso?
— Ainda não sabemos. Já tenho homens a investigar e a Astrid vai avisar se descobrir alguma coisa antes. Mas há outra coisa…
Ele faz uma pausa.
— As únicas informações relevantes que temos é que não somos os únicos com esse problema.
Franzo a testa.
— Onde?
— Espanha, Reino Unido e Itália.
Todos relataram desaparecimentos de mulheres e adolescentes. E todas as investigações chegaram à mesma conclusão.
Outra máfia está envolvida.
Uma máfia fortemente ligada ao tráfico de pessoas.
— Os irlandeses.
Sinto o meu sangue ferver. O coração bate forte no meu peito e a minha garganta seca com sede de vingança.
— Se forem eles — continua Derek com voz sombria — significa que têm ajuda.
Para operar em três continentes diferentes, precisam de informações sobre portos, rotas… e de alguém que os ajude a tirar as mulheres sem serem vistos.
Olho para ele lentamente.
— Você está dizendo que há espiões na minha máfia? Que alguém tem a coragem de nos trair?
Na máfia, um traidor não é tolerado.
Não importa o grau de parentesco que tenha com você.
A única coisa que um traidor merece… é a morte.
E quando eu encontrar a maldita pessoa que está a passar informações da minha casa para o meu pior inimigo, vou matá-lo sem pestanejar.
Com prazer.
— Você tem alguma ideia de quem pode ser o infiltrado?
Derek abana a cabeça.
— Não. Qualquer um pode ser. Não podemos descartar ninguém.
Ele tem razão.
Nesta vida até a sua própria família pode te matar por causa do poder que você tem.
Olho novamente para o dossiê de Inara Carter, que tinha saltado com o meu soco na mesa.
Uma mulher sem passado.
Uma italiana que apareceu do nada na minha estrada.
A coincidência era demais.
— E se a "nossa" Inara não for apenas uma amiga da Micaela? — pergunto, a minha mente a trabalhar a mil por hora. — E se ela estiver ligada a isto? Se for o elo que nos liga aos irlandeses… ou às mulheres desaparecidas?
Derek estreita os olhos.
— Você tem um ponto. Mas acho difícil que a pessoa que está a passar informações esteja aqui há muito tempo.
Na nossa família. Na nossa organização. E ela acabou de aparecer.
Ele faz uma pausa.
— Mas…
— Mas?
— Podemos perguntar ao Vittorio. Afinal ele está aqui para o seu aniversário com os padrinhos dele. Talvez possa ajudar com alguma coisa na Itália.
Respiro fundo.
— Certo. Se até eles chegarem aqui ainda não soubermos nada sobre ela, pedimos ajuda a ele.
Levanto-me da cadeira e guardo a arma no coldre com um estalo seco.
O peso do metal na minha anca é o único conforto que sinto.
— Reúne os homens. Quero vigilância total nas docas e em todos os clubes noturnos que não estejam sob o nosso controlo direto.
Derek acena.
— E avisa a Astrid: se um único nome irlandês aparecer naquela central, eu quero saber antes do capitão dela.
Faço uma pausa antes de continuar.
— E também quero que vigies a Micaela. Se a Inara é amiga dela, então ela sabe de onde essa mulher veio. E se estiver a esconder uma traidora debaixo do meu teto…
Deixo a ameaça no ar.
Meu primo olha para mim de uma forma que conheço bem.
Dou um sorriso de lado.
— Você decidirá qual será a punição dela.
Não vou tocar nela… a menos que tenha envolvido aquela mulher na vida da minha filha de propósito.
Minha voz fica fria.
— Mas se for o caso… eu a mato na frente dela.
Independentemente de quão próxima seja da nossa família.
Deixo bem claro.
Eu não tolero traidores.
Muito menos quando fazem parte da minha própria família.
Por causa de um deles… eu perdi a minha mulher.
Perdi a mãe da minha filha.
Derek respira fundo e relaxa os ombros.
— Certo. Compreendo.
Resposta curta.
Como sempre.
Depois de alguns segundos lembro-me de outra coisa.
— E qual é a próxima notícia?
— As suas coisas já estão a ser arrumadas para trazer para cá. Jade vai trazer logo.
— Certo… mas essa não é a boa notícia, pois não?
Ele suspira.
— Mia disse que chegou uma mulher para a entrevista de babá com a tia Samantha.
A minha tia está a tentar encontrar uma babá para a Chloé desde que ela fugiu de casa.
Havia guardas.
Empregadas.
Mas ninguém que estivesse ali apenas para ela.
O problema?
Chloé não aceita ninguém.
— Eu sei o que a minha tia está a fazer — digo apoiando as mãos na mesa. — E também sei que ela não aceitou nenhuma candidata. Então diga-me algo que eu não saiba.
Derek sorri de forma provocadora.
— A mulher chegou às oito da manhã.
Ele olha para o relógio.
— E agora são três da tarde.
Faço as contas mentalmente.
— Ela ainda está cá.
Meu corpo trava.
Sete horas.
Nenhuma mulher dura mais de trinta minutos nesta casa sem sair a chorar ou reclamar da apatia da minha filha.
— Sete horas, Sebastian — repete Derek. — Ou ela é uma santa… ou é a melhor manipuladora que já entrou nestas terras.
Cruzo os braços.
— Só acredito vendo.
Saio do escritório antes de ouvir a resposta dele.
Caminho pelo corredor em silêncio. Os meus sapatos m*l fazem barulho no tapete caro.
Passo pela sala de estar.
A minha tia não está lá.
A casa está estranhamente silenciosa.
Saio para o terraço.
O sol da tarde começa a cair, pintando o jardim com tons de laranja e ouro.
Desço os degraus de pedra.
Ao longe, sob a sombra do carvalho mais antigo da propriedade, vejo um vulto.
Caminho devagar.
A minha mente tenta imaginar que tipo de mulher conseguiu domar o caos que é a vida da Chloé.
Uma freira?
Uma psicóloga renomada disfarçada?
Mas à medida que me aproximo… o meu passo vacila.
O sol atinge o cabelo loiro da mulher, fazendo-o brilhar como fios de ouro rebeldes.
Ela está sentada na relva, ignorando a sujidade no vestido simples.
A silhueta é pequena. Delicada.
Mas há força na maneira como sustenta o peso da criança no colo.
O meu coração falha uma batida.
Eu conheço aquele cabelo.
Conheço aquela curva do pescoço.
Chloé está profundamente adormecida.
O rosto relaxado — algo que raramente vejo — encostado ao peito daquela desconhecida.
As mãos da mulher acariciam as costas da minha filha com uma ternura que aperta algo dentro do meu peito.
Paro a três metros de distância.
O choque atinge-me como água gelada.
É ela.
A garota da estrada.
A italiana sem passado que me enfrentou no parque com aqueles olhos de tempestade.
Inara Carter.
O mundo parece parar por um segundo.
A mesma mulher que o meu dossiê descreve como um fantasma.
A mesma que pode estar ligada aos irlandeses.
Ou ao tráfico que está a sangrar o meu território.
Está agora a embalar a minha filha no jardim da minha própria casa.
A raiva começa a subir.
Mas vem misturada com aquela atração proibida que senti no parque.
Ela entrou na minha casa.
Ela enganou a minha tia.
Aproximo-me mais.
A minha sombra cai sobre as duas.
— O que diabos está a acontecer aqui?
Minha voz sai baixa.
Perigosa.
Mas suficiente para quebrar o silêncio do jardim.
Inara não se assusta.
O que só me irrita ainda mais.
Ela apenas levanta o rosto lentamente.
Com uma expressão de quem já esperava pelo monstro.
E que não tem a mínima intenção de fugir dele.