####ORGULHO

886 Words
— Anthony e Hope se encararam, o silêncio entre eles se tornando palpável após a afirmação dela de que não havia necessidade da visita. — Um desconforto inesperado começou a se formar dentro de mim, como uma tempestade na distância. — Não era raiva, nem orgulho ferido; era algo mais sutil e cortante… exclusão. —Eu sentia como se estivesse sempre à margem da vida dela, um mero espectador em uma peça na qual não me tinha como personagem, apenas observando, mas jamais atuando. —Minhas pernas pareciam pesadas, e eu cruzei os braços, encarando-a com um olhar incisivo que tentava transmitir a intensidade da confusão que me invadia. — Por que você não aceita ajuda? — minha voz saiu mais baixa do que o habitual, como se, em seu sussurro, eu pudesse encontrar uma maneira de quebrar a barreira que parecia levantar entre nós. — Eu estou dizendo que vou ao hospital. — É simples assim, e por que isso sempre parece tão difícil para você? — Hope me respondeu com um olhar que irradiava uma calma profunda, uma serenidade que nunca se transformava em arrogância ou defensiva, era apenas verdade. —Uma verdade carregada de experiências que eu ainda não compreendia completamente. — Porque o senhor tem a sua vida particular, senhor Anthony — disse ela, com um tom que transparecia uma simplicidade desarmante, mas também uma sabedoria que me escapava. — E eu tenho a minha responsabilidade com a minha irmã. — A obrigação é minha, não sua. Estarei no hospital para acompanhá-la, cuidar dela e estar ao lado dela. — Isso não deve ser um fardo para o senhor, e eu não quero ser a razão pela qual você sinta que precisa abrir mão do que você tem. —Aquelas palavras me atravessaram como uma lâmina fina, e fui tomado por uma onda de descontentamento que, por algum motivo, não conseguia identificar. — Não é um fardo — retruquei, já irritado, percebendo que a sensação de impotência me consumia. —Nesse momento, Hope me lançou um sorriso, não era um sorriso doce; era triste, repleto de compreensão e resignação. — Mas o senhor age como se fosse — ela respondeu, com um tom surpreendentemente firme, como se estivesse segurando um espelho à frente de mim, refletindo a realidade que eu teimava em ignorar. — Além disso, eu não quero atrapalhar a sua rotina ou sua vida social. —Sei que o senhor tem compromissos, um mundo de encontros, seus… interesses, mais importante, sei que você é livre para escolher como preencher seu tempo. — Então, por que forçá-lo a se envolver em algo que não faz parte do seu cotidiano? — Engoli em seco, a garganta seca e apertada, como se as palavras dela tivessem um peso físico. — Ela continuou, sem desviar o olhar, sua voz mantendo a firmeza enquanto seus olhos transmitiam uma determinação que transcendeu as meras palavras: — O único pedido que eu faço… é que, enquanto eu estiver ausente, o senhor esteja mais presente na vida do seu avô. — A vida é curta, senhor Anthony, e o senhor Vitale sente sua falta mais do que demonstra. — Ele pode parecer forte por fora, mas, dentro, ele está lutando contra a solidão. — As palavras dela caíram sobre mim com um peso inesperado. — Eu — que sempre detestei cobranças e exigências — não senti aquilo como uma imposição, mas como uma verdade que ressoava em minha mente. —Um eco que, de certa forma, despertava partes de mim que eu pensei que tivessem sido enterradas. — Era como se cada sílaba estivesse sussurrando uma preocupação genuína, algo raro em um mundo onde as interações se tornaram superficiais e automáticas. —Hope respirou fundo, ajustando o crachá que pendia sobre o peito. Seu gesto simples me lembrava de sua humanidade e vulnerabilidade. — Eu não espero que o senhor mude por mim, nem quero que pare a sua vida. — Só cuide do Sr. Vitalli nesses três dias, senhor Anthony. —Ele fica genuinamente feliz quando o senhor está por perto, e isso deve contar para você. — Às vezes, pequenas coisas podem fazer uma grande diferença na vida de alguém. —Havia algo indescritível naquela mulher: —ela me pedia menos do que qualquer pessoa que já cruzasse meu caminho — e, mesmo assim, era a única que conseguia mexer no que eu acreditava estar morto dentro de mim. — O que ela exigia era quase um sussurro superficial, mas, por alguma razão inexplicável, penetrava profundamente em minha psique, como se houvesse um burburinho ressoando em camadas que eu não sabia que ainda existiam. Fiquei em silêncio por vários segundos, com os pensamentos girando como uma tempestade em meu cérebro, sem saber exatamente como responder. — Não era comum para mim sentir desconforto emocional, mas ali estava ele, irradiando no estômago e queimando na garganta como um fogo suave, mas insistente. — O mais perturbador era que não se tratava de um desconforto r**m, mas do tipo que faz você pensar que deveria ser alguém melhor do que realmente é. — A ideia de ser melhor, de ser mais presente, de ser um neto que o seu avô precisava — tudo isso começava a criar raízes na minha mente, desafiando meus hábitos de desdém e desinteresse.
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