####APROXIMAÇÃO

1480 Words
A VISITA AO HOSPITAL Anthony No final do expediente, eu saí do escritório carregando a sensação de que o dia havia durado mais do que deveria. — O encontro com Antonella ecoava na minha mente como uma ameaça silenciosa, mas eu empurrei aquilo para o fundo do peito. —Havia algo mais urgente naquele momento — e, pela primeira vez, o urgente tinha um nome: Hope, fui até o hospital em silêncio, sem ligar o rádio, sem atender ligações, sem me distrair com nada. — O conforto da estrada era uma ironia diante da tempestade que se avizinha em meu coração. —Quando estacionei, respirei fundo e entrei pelo saguão frio e exageradamente iluminado, onde os murmúrios de outras pessoas pareciam tão distantes quanto o próprio mundo. —A recepcionista me indicou o quarto; seu olhar disfarçado de compaixão não passou despercebido. — As portas do corredor pareciam todas iguais, mas minha mente se fixava em uma coisa: as duas irmãs, que, de maneira estranha, começavam a ocupar espaços em minha consciência que eu jamais havia permitido antes. Bati levemente na porta aberta, um gesto que, naquele momento, parecia carregado de significado. — Ela estava ali, sentada, encostada nos travesseiros, com um ar de cansaço evidente no rosto, mas mantendo a mesma serenidade de sempre, uma serenidade que, de alguma forma, me ancorava em meio ao caos. —Os cabelos estavam soltos sobre os ombros, a luz fluorescente do quarto realçando cada mecha, e, mesmo pálida, havia algo nela que exalava resistência — uma força silenciosa que impressionava qualquer um que a olhasse por tempo suficiente, como se ela estivesse lutando uma batalha interna que ninguém mais poderia ver. — Seus olhos se ergueram na minha direção, um vislumbre de esperança em meio à dor. — O senhor veio? — perguntou, a voz baixa, quase em tom de surpresa, como se sua fragilidade a tornasse mais humana, mais próxima. — Há um anseio em sua pergunta que tornou o ar ao nosso redor pesado, quase como se ela estivesse tentando compreender a profundidade do que significava minha presença ali. Aproximei-me devagar, como se aquele quarto exigisse respeito por tudo o que havia acontecido ali nas últimas horas. —Cada passo que eu dava parecia ecoar no silêncio tenso do espaço, reverberando as inseguranças que ambos sentíamos. — Sim, eu vim — respondi, mantendo o tom contido, mas com um firme propósito. — Mas eu liguei de manhã, antes de passar aqui. —Queria saber como foram os primeiros procedimentos, como uma forma de me preparar para o que eu sabia que estava por vir. Ela tentou sorrir, mas o movimento pareceu puxar algo dentro dela, como se cada fração de felicidade estivesse cuidadosamente embutida em meio às dores. — A tristeza que havia se instalado em seu olhar somava-se ao cansaço, formando um retrato de resistência que era ao mesmo tempo inspirador e desgastante. — Estou sentindo um pouco de dor… — confessou, quebrando o silêncio como uma onda, revelando vulnerabilidade que eu fazia de tudo para proteger. — Mas agora é só esperar para ver se ela vai aceitar o transplante. — E esperar a recuperação da Faith; a saúde da minha irmã é tudo o que me preocupa agora. Assenti, puxando a cadeira para mais perto da cama, como se quisesse eliminar a distância não apenas física, mas emocional que havia entre nós. — Havia em mim uma urgência de estar ali, de oferecer não apenas palavras confortantes, mas um espaço seguro onde sua própria luta pudesse ser compartilhada. — O meu avô pediu que eu avisasse que está com saudades de você. —A lembrança dele trazia um brilho reconfortante ao nosso diálogo sombrio, como se o amor e a bondade dele fossem um antídoto contra o que estávamos vivenciando. Os olhos dela suavizaram, refletindo a luz baixa do quarto, enquanto um sorriso tímido começava a brotar. — E eu dele… — disse, com uma ternura que me desarmou por dentro, revelando a força sutil que ela carregava. — Não precisava… o senhor não precisava contratar uma enfermeira para ficar comigo. — O pensamento de que alguém se importava o suficiente para me cuidar parecia um luxo, um presente no meio de toda a desolação. — Precisava, sim — interrompi, firme, tentando ser a rocha que ela precisava sem me deixar dominar pela fragilidade da situação. — Da mesma forma que você cuida da sua irmã, nós temos obrigação de cuidar bem de você. O que teria feito meu avô se soubesse que você estava aqui sozinha? — Passei a mão pelo queixo, tentando controlar o que eu sentia ao vê-la tão frágil e ao mesmo tempo tão forte, ele não me perdoaria se eu não fizesse isso. —Você conquistou o coração daquele velho teimoso, e você tem um lugar especial na vida dele, assim como na minha. Hope baixou os olhos, tímida, recuando para dentro de si mesma, como se as palavras não pudessem conter a emoção que a invadia. — Ele é um amor de pessoa… — murmurou, — e eu agradeço, de verdade, por tudo isso — suas palavras eram um fio de conexão, um laço que atravessava o tumulto emocional que nos cercava. Ela ergueu o olhar novamente e me estudou por alguns segundos, atento ao meu rosto como se pudesse ler mais do que eu gostaria de mostrar, cada microexpressão revelando um fragmento do que eu estava guardando para mim. — Mas o senhor está com um jeito… como se algo tivesse acontecido, está tudo bem? — Sua preocupação era palpável; sua intuição era uma lâmina afiada que cortava as defesas que eu tentava colocar, a urgência dela me fez hesitar. Meu peito apertou, por um instante, quase respondi a verdade. —Quase, mas havia problemas que eu não tinha coragem — e nem o direito de despejar sobre ela naquele momento. — Ela precisava de um apoio estável, não de uma nova tempestade. — Nada que eu não possa resolver — menti com cuidado, sabendo que a verdade poderia desmontar a frágil fortaleza que estávamos tentando construir. — Nada que precise te preocupar. O foco deve ser você e Faith, não eu. Ela pareceu notar algo, mas respeitou o silêncio que nos envolvia como um manto pesado. Coloquei sobre a mesa ao lado da cama o pequeno arranjo que eu havia escolhido, um símbolo de esperança e de vida. — Trouxe flores para você, um pequeno gesto, mas com a esperança de que trouxesse um pouco de cor em meio à brancura clínica do ambiente. Os olhos dela brilharam de leve, como se o simples ato de receber algo bonito despertasse um eco de alegria em seu interior. — Elas são lindas… — disse, tocando as pétalas com delicadeza, como se aquelas pequenas belezas fossem feitas de vidro. — Obrigada, neste momento, quando tudo ao meu redor parece tão escuro, essa luz me faz sentir que ainda existe esperança. — Amanhã eu venho novamente — acrescentei, levantando-me devagar, pesaroso por ter que me afastar, mas determinado. — Quero acompanhar de perto tudo o que estiver acontecendo. E quando a sua irmã puder receber visitas, quero vê-la também. — Não sei quando isso será — respondeu, sua voz, uma mistura de expectativa e incerteza. — O senhor vai ter que perguntar ao médico responsável pela cirurgia… mas agradeço pelas flores. Elas me deixam sentir que ainda existe luz quando tudo está tão cinza. Em meio à escuridão que enfrentamos, até a menor luz pode se transformar em um farol de esperança. Eu respirei fundo, tentando afastar a estranha vontade de tocar sua mão, de fazer dela uma ponte entre nossos mundos separados pela dor. Queria que ela soubesse que estava ali, ao seu lado, mesmo sem as palavras necessárias para expressar isso. — Espero que você passe bem esta noite. Você terá uma enfermeira durante o dia e outra durante a madrugada. Não faltarão cuidados. Tem uma rede de apoio em você, e não deve se esquecer disso. Ela assentiu, já demonstrando o cansaço do pós-operatório, mas um brilho de esperança ainda persistia em seus olhos. — Boa noite, senhor Anthony. — Boa noite, Hope — respondi. — E mande um abraço para o meu avô quando estiver melhor. Diga que em breve estará de volta à mansão. Ele vai gostar de ouvir isso. As palavras eram uma promessa, um lembrete de que mesmo na dor, havia sombra para o amor e o apoio que nos aguardava. Ela fechou os olhos por um instante, como quem guarda uma promessa dentro do peito, e eu saí do quarto sentindo — pela primeira vez em anos — que estava deixando para trás mais do que palavras. Talvez uma parte de mim. Talvez algo que eu ainda não sabia nomear, mas que estava profundamente ligado ao amor e à esperança que agora nos unia.
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