####O PRAZER

1072 Words
ENTRE O PRAZER E O SILÊNCIO Anthony O jantar com Carly foi marcado para às oito e meia, no La Traviata — um dos poucos lugares onde o tempo parecia desacelerar. As luzes amareladas, o som suave do piano e o perfume discreto de flores sobre as mesas criavam o cenário perfeito para quem queria esquecer o mundo por algumas horas. Ela chegou pontualmente. Vestido vinho, cabelos soltos, perfume doce. Um sorriso de quem já sabia o efeito que causava. Carly era o tipo de mulher que dominava o ambiente sem precisar falar alto. — Está lindo, como sempre — disse, ao se sentar à mesa. — E você — respondi, com um sorriso controlado. — Continua sabendo escolher o impacto certo. O garçom serviu o vinho, e o cristal tilintou quando as taças se tocaram. Conversamos sobre negócios, festas, viagens, como dois conhecidos que se reencontram para atualizar a aparência da própria vida. Ela brincava com o cabelo, cruzava as pernas, e me olhava de forma calculada. — Então, noivo… — disse, provocante. — Vai me dizer que realmente vai se casar? Inclinei a taça, observando o reflexo do vinho. — É o que está nos planos. — E isso significa que vai abandonar suas antigas diversões? — perguntou, sorrindo com malícia. — Enquanto eu não me casar, não preciso ser fiel. Mas quando o fizer… serei apenas mais discreto. Ela soltou uma risada curta. — Anthony Vitale, cuidado com as suas escolhas. Às vezes, o que parece um contrato acaba sendo o que muda a vida. — Eu não acredito em mudanças — respondi, beijando de leve a mão dela. — Só em acordos. — Ainda o mesmo homem — murmurou. — Frio, racional e… irresistível. — E você, a mesma mulher que sabe exatamente quando provocar. — Sempre — disse, inclinando-se. — Mas eu escolho onde termina a provocação. O jantar terminou com o silêncio confortável dos que não precisam mais fingir. Pedi a conta, e ela passou batom diante do espelho pequeno que tirou da bolsa. — No meu apartamento ou no seu? — perguntou. — No meu apartamento, não — respondi. — Você sabe que nunca levo ninguém para lá. Mas tenho o loft. Ela sorriu, divertida. — Não. Prefiro o meu. Assim, depois que você for embora, eu já estarei em casa. Quem sai é você, querido. Ri, balançando a cabeça. — É por isso que eu gosto de você, Carly. — E Antonella? — perguntou, inclinando a cabeça. — Ainda te atormenta? — É passado. — E o noivado? — provocou, com um sorriso enviesado. — Como vai se casar e continuar levando a sua vida assim? — Fácil — disse, encostando a taça vazia na mesa. — Casamento é papel. Até lá, não devo nada a ninguém. Ela arqueou uma sobrancelha. — Cuidado, Anthony. O destino costuma rir de quem acredita que está no controle. — Então que ria — respondi, com um meio sorriso. — Eu nunca fui supersticioso. Saímos do restaurante pouco depois das dez. No carro, o silêncio entre nós não era incômodo — era previsível. Ela deu as instruções e seguimos até o condomínio dela, na parte alta da cidade. Carly morava em um apartamento amplo, de decoração moderna e cheia de luzes indiretas. Tudo nela era calculado — o cheiro de baunilha no ar, a garrafa de vinho já aberta, o riso fácil. — Vinho? — perguntou, indo até o aparador. — Um copo apenas. Ela trouxe duas taças, sentou-se no meu colo e ergueu a taça. — Às velhas tentações. — Às que ainda restam — respondi. Os lábios dela tocaram os meus, e o vinho se misturou ao beijo. Por alguns instantes, o mundo voltou a ser o mesmo de antes: simples, direto, sem perguntas. Ela me puxou pela mão, conduzindo-me até o quarto. — Vem — sussurrou. — Vamos nos divertir. A noite é uma criança. E eu fui. Sem pensar, sem sentir. Apenas obedecendo ao reflexo do homem que eu havia me tornado. A madrugada passou devagar, e o amanhecer me encontrou sentado à beira da cama, vestindo a camisa. Carly dormia, serena, com um meio sorriso nos lábios. Por um instante, senti inveja da leveza dela — de como era capaz de dormir sem culpa. — Vai embora sem café? — perguntou, com a voz rouca. — Vou tomar café com o meu avô — respondi, pegando o paletó. — Como quiser. — Ela se esticou na cama. — E se ele perguntar onde você dormiu? Sorri de canto. — Direi que trabalhei até tarde. Saí em silêncio. A manhã ainda nascia quando cheguei à mansão. O portão se abriu devagar, e o cheiro de café fresco me atingiu antes mesmo de entrar. O salão estava banhado por luz dourada, e a cena que encontrei paralisou meus passos: meu avô, sentado à cabeceira, sorrindo enquanto Hope servia o café. Ela ajeitava a xícara diante dele com cuidado, o olhar atento e o sorriso tranquilo. O contraste me atingiu como um soco. A lembrança da noite anterior parecia suja diante da pureza daquela cena. Meu avô levantou os olhos e me viu parado à porta. — Você dormiu no seu apartamento, meu filho? Senti o calor subir ao rosto. — Sim, trabalhei até tarde. Hope virou-se, cumprimentando-me com serenidade. — Bom dia, senhor Anthony. — Bom dia. — Forjei um sorriso. — Como está sua irmã? — Está melhorando, graças a Deus. — respondeu ela, com aquele tom calmo que me desarmava. — Hoje passo o dia no hospital, mas antes ficarei com o seu avô, ajudando na fisioterapia. À noite, a enfermeira dorme com ela, e eu volto para cá. Meu avô observava em silêncio, como se lesse o que eu tentava esconder. — Vai tomar café, Anthony? — perguntou. — Não, vovô. Vou tomar um banho primeiro. — Banho? — ele arqueou uma sobrancelha, divertido. — Mas se dormiu no apartamento, por que precisa se banhar aqui? Sorri, tentando soar natural. — Porque as roupas que quero usar hoje estão aqui. Ele riu, aquele riso rouco que eu conhecia desde a infância. — Ah, Anthony… você mente m*l quando o coração está inquieto. Hope desviou o olhar, mas pude ver o sorriso leve em seus lábios. E naquele instante, eu soube que ele tinha razão. O coração estava inquieto — e pela primeira vez em muito tempo, eu não sabia mais como silenciá-lo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD