ENTRE O PRAZER E O SILÊNCIO
Anthony
O jantar com Carly foi marcado para às oito e meia, no La Traviata — um dos poucos lugares onde o tempo parecia desacelerar.
As luzes amareladas, o som suave do piano e o perfume discreto de flores sobre as mesas criavam o cenário perfeito para quem queria esquecer o mundo por algumas horas.
Ela chegou pontualmente. Vestido vinho, cabelos soltos, perfume doce. Um sorriso de quem já sabia o efeito que causava.
Carly era o tipo de mulher que dominava o ambiente sem precisar falar alto.
— Está lindo, como sempre — disse, ao se sentar à mesa.
— E você — respondi, com um sorriso controlado. — Continua sabendo escolher o impacto certo.
O garçom serviu o vinho, e o cristal tilintou quando as taças se tocaram.
Conversamos sobre negócios, festas, viagens, como dois conhecidos que se reencontram para atualizar a aparência da própria vida.
Ela brincava com o cabelo, cruzava as pernas, e me olhava de forma calculada.
— Então, noivo… — disse, provocante. — Vai me dizer que realmente vai se casar?
Inclinei a taça, observando o reflexo do vinho.
— É o que está nos planos.
— E isso significa que vai abandonar suas antigas diversões? — perguntou, sorrindo com malícia.
— Enquanto eu não me casar, não preciso ser fiel. Mas quando o fizer… serei apenas mais discreto.
Ela soltou uma risada curta.
— Anthony Vitale, cuidado com as suas escolhas. Às vezes, o que parece um contrato acaba sendo o que muda a vida.
— Eu não acredito em mudanças — respondi, beijando de leve a mão dela. — Só em acordos.
— Ainda o mesmo homem — murmurou. — Frio, racional e… irresistível.
— E você, a mesma mulher que sabe exatamente quando provocar.
— Sempre — disse, inclinando-se. — Mas eu escolho onde termina a provocação.
O jantar terminou com o silêncio confortável dos que não precisam mais fingir. Pedi a conta, e ela passou batom diante do espelho pequeno que tirou da bolsa.
— No meu apartamento ou no seu? — perguntou.
— No meu apartamento, não — respondi. — Você sabe que nunca levo ninguém para lá. Mas tenho o loft.
Ela sorriu, divertida.
— Não. Prefiro o meu. Assim, depois que você for embora, eu já estarei em casa. Quem sai é você, querido.
Ri, balançando a cabeça.
— É por isso que eu gosto de você, Carly.
— E Antonella? — perguntou, inclinando a cabeça. — Ainda te atormenta?
— É passado.
— E o noivado? — provocou, com um sorriso enviesado. — Como vai se casar e continuar levando a sua vida assim?
— Fácil — disse, encostando a taça vazia na mesa. — Casamento é papel. Até lá, não devo nada a ninguém.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Cuidado, Anthony. O destino costuma rir de quem acredita que está no controle.
— Então que ria — respondi, com um meio sorriso. — Eu nunca fui supersticioso.
Saímos do restaurante pouco depois das dez.
No carro, o silêncio entre nós não era incômodo — era previsível.
Ela deu as instruções e seguimos até o condomínio dela, na parte alta da cidade.
Carly morava em um apartamento amplo, de decoração moderna e cheia de luzes indiretas. Tudo nela era calculado — o cheiro de baunilha no ar, a garrafa de vinho já aberta, o riso fácil.
— Vinho? — perguntou, indo até o aparador.
— Um copo apenas.
Ela trouxe duas taças, sentou-se no meu colo e ergueu a taça.
— Às velhas tentações.
— Às que ainda restam — respondi.
Os lábios dela tocaram os meus, e o vinho se misturou ao beijo.
Por alguns instantes, o mundo voltou a ser o mesmo de antes: simples, direto, sem perguntas.
Ela me puxou pela mão, conduzindo-me até o quarto.
— Vem — sussurrou. — Vamos nos divertir. A noite é uma criança.
E eu fui.
Sem pensar, sem sentir. Apenas obedecendo ao reflexo do homem que eu havia me tornado.
A madrugada passou devagar, e o amanhecer me encontrou sentado à beira da cama, vestindo a camisa.
Carly dormia, serena, com um meio sorriso nos lábios.
Por um instante, senti inveja da leveza dela — de como era capaz de dormir sem culpa.
— Vai embora sem café? — perguntou, com a voz rouca.
— Vou tomar café com o meu avô — respondi, pegando o paletó.
— Como quiser. — Ela se esticou na cama. — E se ele perguntar onde você dormiu?
Sorri de canto.
— Direi que trabalhei até tarde.
Saí em silêncio.
A manhã ainda nascia quando cheguei à mansão.
O portão se abriu devagar, e o cheiro de café fresco me atingiu antes mesmo de entrar.
O salão estava banhado por luz dourada, e a cena que encontrei paralisou meus passos:
meu avô, sentado à cabeceira, sorrindo enquanto Hope servia o café.
Ela ajeitava a xícara diante dele com cuidado, o olhar atento e o sorriso tranquilo.
O contraste me atingiu como um soco.
A lembrança da noite anterior parecia suja diante da pureza daquela cena.
Meu avô levantou os olhos e me viu parado à porta.
— Você dormiu no seu apartamento, meu filho?
Senti o calor subir ao rosto.
— Sim, trabalhei até tarde.
Hope virou-se, cumprimentando-me com serenidade.
— Bom dia, senhor Anthony.
— Bom dia. — Forjei um sorriso. — Como está sua irmã?
— Está melhorando, graças a Deus. — respondeu ela, com aquele tom calmo que me desarmava. — Hoje passo o dia no hospital, mas antes ficarei com o seu avô, ajudando na fisioterapia. À noite, a enfermeira dorme com ela, e eu volto para cá.
Meu avô observava em silêncio, como se lesse o que eu tentava esconder.
— Vai tomar café, Anthony? — perguntou.
— Não, vovô. Vou tomar um banho primeiro.
— Banho? — ele arqueou uma sobrancelha, divertido. — Mas se dormiu no apartamento, por que precisa se banhar aqui?
Sorri, tentando soar natural.
— Porque as roupas que quero usar hoje estão aqui.
Ele riu, aquele riso rouco que eu conhecia desde a infância.
— Ah, Anthony… você mente m*l quando o coração está inquieto.
Hope desviou o olhar, mas pude ver o sorriso leve em seus lábios.
E naquele instante, eu soube que ele tinha razão.
O coração estava inquieto — e pela primeira vez em muito tempo, eu não sabia mais como silenciá-lo.