A manhã amanhecia cinzenta na Filadélfia, e o sino da pequena capela do Our Lady of Mercy Home ecoava sobre o pátio molhado pela garoa fina. O cheiro da terra molhada misturava-se ao da cera de igreja e do pão recém-assado que vinha da cozinha das freiras. Para a maioria dos que viviam ali, era apenas mais um dia comum, marcado pela rotina silenciosa de orações, estudos e pequenos trabalhos. Mas, para duas jovens, aquele era o dia em que o mundo se abriria além dos muros altos do orfanato onde haviam passado toda a vida.
Faith e Hope Salazar estavam de mãos dadas diante da porta pesada de madeira que levava à saída principal. Suas respirações eram curtas, irregulares, denunciando a mistura de ansiedade e medo. Haviam completado dezoito anos, e agora não havia mais desculpas: precisavam trilhar o próprio caminho.
À frente delas, com o hábito impecavelmente alinhado e os olhos marejados, estava a irmã Teresa Salazar. Pequena de estatura, mas gigante em ternura, ela havia sido a protetora, conselheira e quase mãe das duas desde que chegaram, ainda bebês, ao orfanato. Fora ela quem escolhera seus nomes — Fé e Esperança — e lhes dera o próprio sobrenome, porque acreditava que o amor também podia ser herdado.
— Minhas filhas… — a voz da freira tremeu, e suas mãos trêmulas estenderam um pequeno envelope pardo. — Este dinheiro não é muito. Foram as irmãs que juntaram, moeda por moeda, pensando em vocês. Nós alugamos um pequeno lugar para morarem e pagamos o primeiro mês.
Hope apertou os olhos verdes, marejando. Faith, mais tímida, escondeu o rosto contra o ombro da irmã de coração, como se quisesse se proteger do peso da despedida.
— Também conseguimos um emprego para vocês — continuou a freira, agora tentando se recompor, a voz firme como sempre. — Uma lanchonete no shopping, lugar honesto, seguro. Vocês vão poder trabalhar lado a lado, como sempre sonharam.
Ela se aproximou, levantou as mãos finas e desenhou o sinal da cruz sobre as testas das duas.
— Só lhes peço uma coisa: não se percam. Mantenham-se firmes na fé, estudem, sigam seus sonhos. Nunca esqueçam que eu fui e sempre serei sua madrinha, mesmo sem poder ser mãe de sangue. Sempre que puderem, voltem para me visitar.
Faith ergueu o rosto pálido, forçando um sorriso apesar da emoção.
— A senhora foi nossa mãe do coração, irmã Teresa. Sempre será.
Hope, que parecia mais forte mas carregava nos ombros a responsabilidade das duas, respondeu com voz baixa e firme:
— Nós vamos honrar o que a senhora fez por nós.
A freira as puxou para um abraço longo. Havia cheiro de incenso impregnado em suas vestes, e aquele abraço parecia o último pedaço de infância que poderiam guardar.
O portão se abriu, e as duas atravessaram o pátio pela última vez. A pequena mala de roupas de cada uma parecia pesada como chumbo. Do lado de fora, um táxi as esperava, pago pelas próprias freiras.
Durante o trajeto, a cidade parecia imensa. Para meninas que nunca haviam andado pelas ruas sozinhas, cada prédio parecia uma montanha, cada pessoa um mistério. O barulho dos carros, buzinas e vozes contrastava com o silêncio do orfanato.
— Está pronta? — perguntou Hope, tentando soar confiante.
Faith deu de ombros, olhando a chuva fina no vidro.
— Não sei… Mas se você estiver comigo, eu acho que sim.
Hope apertou a mão dela.
— Sempre vou estar.
A kitnet ficava em um prédio antigo, no quinto andar, sem elevador. As escadas cheiravam a mofo e cigarro, mas quando abriram a porta do pequeno apartamento, seus olhos brilharam.
O espaço era minúsculo: uma cama de solteiro encostada na parede, um sofá gasto, uma mesa com duas cadeiras e uma cozinha apertada com fogão de duas bocas. Havia uma janela que dava para os fundos de outro prédio, onde se via apenas tijolos vermelhos e roupas estendidas em varais improvisados.
Mas para elas, aquele lugar era um castelo. Faith correu até a janela, abriu-a e riu com a chuva respingando em seu rosto.
— Nosso lar, Hope! Nosso lar!
Hope largou a mala no chão e suspirou fundo.
— É pequeno… mas é nosso.
Naquela noite, improvisaram a cama: as duas se apertaram no colchão estreito, abraçadas como sempre. Antes de dormir, conversaram sobre tudo o que desejavam fazer. Faculdade. Um carro. Uma vida diferente.
— Qual curso você quer? — perguntou Faith, sonolenta.
— Direito — respondeu Hope sem hesitar. — Quero defender pessoas que, como nós, não têm voz.
— Eu quero ser professora — disse Faith, sorrindo. — Ensinar crianças. Talvez eu consiga evitar que alguém se sinta sozinho como eu me senti.
Hope acariciou os cabelos cacheados da irmã.
— Você nunca esteve sozinha. Eu estava aqui.
Faith fechou os olhos e murmurou:
— E sempre vai estar.
Os dias seguintes foram de descoberta. O trabalho na lanchonete do shopping era cansativo, mas as duas riam juntas nos intervalos, aprendendo a lidar com clientes m*l-humorados e bandejas pesadas. O uniforme — uma camisa branca e calça preta — não escondia a alegria que sentiam por terem emprego fixo.
À noite, sentavam-se à mesa minúscula, contavam as gorjetas, e guardavam cada dólar em uma caixinha de lata que chamavam de “futuro”.
— Vamos conseguir, Hope. Vamos entrar na faculdade juntas. — Faith sorria com os olhos brilhando.
— Vamos, sim. — Hope sempre respondia com firmeza, como se estivesse selando um pacto eterno.
Mas os meses foram passando, e as primeiras sombras começaram a surgir. Faith, que sempre teve energia e riso fácil, começou a se sentir estranha. Primeiro vieram as tonturas. Depois, os desmaios. Ela emagreceu rápido demais, perdendo o brilho da pele e a força nas mãos.
Hope notava cada detalhe. No trabalho, corria para amparar a irmã quando ela cambaleava. Em casa, forçava-a a comer, mesmo quando a comida parecia não descer.
— Você está diferente, Faith. Precisamos ir ao médico. — Hope insistia.
— É só cansaço. — Faith tentava disfarçar, mas as olheiras profundas denunciavam a gravidade.
Finalmente, depois de um desmaio em pleno corredor do shopping, Hope não aceitou mais desculpas. Pegou o dinheiro da caixinha — cada nota que era sonho de faculdade — e levou Faith ao hospital.
Os exames demoraram, e cada espera parecia um século. Até que o médico entrou na sala, segurando uma pasta. Seu olhar compadecido fez com que Hope soubesse, antes mesmo de ouvir, que algo terrível estava por vir.
— É câncer — disse ele, devagar. — Um tumor no intestino. E sinais preocupantes no fígado.
Faith arregalou os olhos. Hope sentiu o mundo girar.
— Mas… com cirurgia… ela pode se recuperar? — a voz de Hope era quase um sussurro.
— Sim, há chances. Mas é urgente. E o tratamento será longo e caro.
Hope olhou para a irmã, que chorava em silêncio. Apertou a mão dela e, com a voz embargada, prometeu:
— Nós vamos conseguir, Faith. Eu vou dar um jeito.
Naquela noite, de volta à kitnet, Faith encolheu-se no sofá, os olhos perdidos. Hope sentou-se ao lado dela, segurando sua mão.
— Não gaste sua vida por mim — murmurou Faith, a voz fraca.
Hope a puxou para um abraço apertado.
— Você é a minha vida. Se você desistir, eu também acabo. Então eu vou lutar. Nem que eu tenha que vender a minha alma, eu vou te salvar.
O silêncio que se seguiu foi pesado, quebrado apenas pelo barulho distante da cidade. A promessa de Hope ecoou como uma sentença.
E, mesmo sem saber, naquela noite a vida das duas já começava a mudar para sempre.