Melina Sullivan
Nada na minha vida jamais veio em dose moderada. Desde que me entendo por gente, nunca houve meio-termo: ou era tudo ou era nada. Cresci sendo empurrada para decisões que vinham sempre com cara de agora ou nunca, e isso - por mais torto que pareça - acabou moldando quem eu sou hoje.
Tudo bem, eu admito: às vezes minha racionalidade tira férias sem avisar. Tem momentos em que ajo como uma adolescente atravessada por hormônios e drama, e outros em que pareço uma senhora de oitenta anos, conservadora até o osso, tomando chá na varanda enquanto vigia discretamente a vida dos vizinhos como se fosse minha série favorita.
Costumo dizer que nada acontece por acaso, que o universo - ou seja lá qual entidade cósmica esteja nos observando com ar de deboche - tem seus planos. Talvez sejamos apenas peças minúsculas num tabuleiro de xadrez cósmico. Ou talvez eu só tenha fumado demais e a brisa resolveu fazer uma festa no meu cérebro. Quem vai saber, né?
De qualquer forma, assim como minhas decisões sempre duvidosas, é claro que minha vida seria um reflexo disso. Vide o incidente que me fez atravessar o paÃs inteiro para uma cidade completamente diferente, tentando recomeçar quando tudo à minha volta parecia um caos ambulante.
Reconstruir-se... ah, isso é outra história. Não existe mapa, não existe trilha dourada, e mesmo quando a estrada aparece, a coragem às vezes tira o mesmo ônibus da minha racionalidade.
É esse tipo de pensamento que me acompanha enquanto caminho pelas ruas de Los Angeles. O vento bagunça meus cabelos, o sol ameaça derreter meu segundo sorvete com a mesma crueldade que destruiu o primeiro, e eu só observo.
LA é tudo que Boston não é. Claro, as duas são grandes, pulsam, respiram vida - mas Los Angeles vibra num ritmo próprio, mais vivo, mais espalhafatoso, quase excêntrico. Aqui o sol não só brilha: ele performa. As pessoas são bronzeadas, sorridentes e parecem ter saÃdo de algum clipe dos anos 2000 que a MTV insiste em reprisar no meu inconsciente.
Nessas poucas - ok, não tão poucas assim - horas de caminhada, depois de visitar possÃveis espaços para alugar ou comprar, nada parece se encaixar naquilo que eu imagino. Um era pequeno demais, outro tinha um preço que faria até milionário repensar prioridades. Alguns ficavam tão longe que eu precisaria de GPS e fé. Outros... bem, outros ficavam em bairros onde um estúdio de tatuagem seria tão bem-vindo quanto um trovão em dia de praia.
A exemplo do último imóvel que visitei: um bairro daqueles que parecem saÃdos de um filme onde todas as casas são iguais, o silêncio reina absoluto, mães fazem Pilates à s seis da manhã e qualquer coisa minimamente alternativa é vista como ameaça à ordem pública. Sem exageros: abrir um estúdio de tatuagem ali seria desperdiçar tinta, energia e paciência.
O espaço em si? Amplo. Tinha sido uma locadora nos anos dourados do VHS e, depois de fechar, ficou ali, largada e à venda. Tinha potencial, claro. Tinha aquele ar nostálgico de "histórias que já passaram por aqui". Mas as regras da vizinhança... ah, as regras. Sem barulho depois das 22h, sem motos, sem som alto, sem alma, sem vida. Uma lista tão extensa de proibições que me fez desistir antes mesmo de terminar a leitura. Se fosse pra viver assim, eu preferia transformar a garagem do Daniel em estúdio e pronto - pelo menos lá eu poderia espirrar sem risco de multa.
Agora estou na minha quinta - ou talvez sexta - visita do dia. Perdi a conta. O bairro atual é considerado um dos mais artÃsticos de Los Angeles, e eu concordaria... se "artÃstico" fosse sinônimo de "levemente insano". Parecia que todo mundo ali tinha escapado de um clipe pop cliché dos anos 2000, com direito a brilho nos olhos e looks duvidosos.
E antes que você pergunte: não, eu não vim andando do último imóvel até aqui. Eu peguei um táxi, como a pessoa perfeitamente comum e sedentária que sou. Só desci algumas quadras antes para comprar um sorvete - que, obviamente, o sol está tentando sabotar desde então.
Mas nesses curtos - ou longos, depende de quem caminha - dez minutos, eu vivi de tudo. Fui "evangelizada" por um cara que me garantiu que a terra estava me chamando. Por um segundo, juro que quase acreditei... até ele sair correndo descalço pelo meio da rua como se tivesse ouvido outro chamado muito mais urgente.
Vi um frango e um jacaré - ou era um dinossauro? - andando de patins. Dois adultos fantasiados rodopiando como se fosse a coisa mais normal do mundo. Em outra esquina, um saxofonista me prendeu pelo ouvido, e precisei parar para ouvir, porque alma é isso aÃ: se alimenta do que aparece.
Também vi mulheres desfilando com cachorros minúsculos em bolsas enormes, dignÃssimas das Patricinhas de Beverly Hills. E um grupo de pessoas vestidas inteiramente de preto, da cabeça aos pés, como se tivessem acabado de sair de um filme gótico... ou de uma convenção da FamÃlia Addams. O que me fez pensar: como raios eles suportam esse calor? Eu já estava derretendo vestida de cores claras; imagina de preto?
Ao longe, avisto meu corretor. Todo engomado, usando um terno caro e ostentando um bronzeado laranja que, sinceramente, desafia a paleta natural da espécie humana. Ok, parei. Já julguei demais por hoje. Mas é impossÃvel não olhar - o homem até seria atraente se não parecesse uma cenoura executiva.
Ele me cumprimenta com aquela cordialidade ensaiada que vem repetindo o dia todo, e entramos no novo espaço. Compacto. Pequeno. Apertado.
O bairro é incrÃvel, posso ver meu estúdio florescendo ali. Mas esse imóvel? Esse não tem chance. Mesmo sem precisar de reformas, seria insustentável.
- Esse é o único disponÃvel nessa área? - pergunto, analisando cada canto como quem procura vida em Marte.
- Ainda tenho outros dois - ele responde, já puxando uma pastinha impecável. - Um deles era uma antiga oficina. O dono está vendendo por mudança de paÃs. É um prédio de dois andares, arquitetura industrial...
Ele espalha fotos sobre uma pequena mesa embutida, cada imagem mais promissora que a anterior. De cara, o lugar parece diferente: amplo, interessante, cheio de personalidade. Guardamos esse por último - talvez para preservar a surpresa, talvez para evitar uma decepção. Só sei que, pelas fotos, é o melhor da lista. Talvez o melhor do dia.
》☆《
De todos os lugares que visitei hoje, nenhum carregava tanto potencial quanto o edifÃcio diante de mim. Não era um espaço minúsculo, nem um único andar espremido entre prédios cansados.
Era mais que isso.
Ali estivera, um dia, uma oficina. Agora, abandonada por tempo demais, o prédio de três andares parecia pedir uma segunda chance. Havia espaço de sobra para o meu estúdio nos dois primeiros pisos e, no topo, um pequeno loft onde eu já me via morando - um miniapartamento com um terraço aberto para o céu, como uma promessa particular.
Claro, ele não estava decorado, nem remotamente pronto. O que eu via era o futuro. Ainda havia muito trabalho pela frente: reboco nas paredes, piso novo, pintura, portas, janelas - uma lista interminável. Mas tudo isso parecia pequeno diante do potencial e da localização do imóvel.
- O dono colocou à venda esta semana. - a voz do corretor ecoa, polida e profissional. - Ele quer uma venda rápida, sem burocracias. Está se mudando de paÃs.
- É exatamente o que eu procuro - respondo, observando as paredes grafitadas como se fossem quadros urbanos. - Quanto ele está pedindo?
- O valor é de oitocentos e cinquenta mil dólares. - ele enche o peito ao dizer o número e me encara, sobrancelhas erguidas.
- Alguém já fez oferta? - pergunto, sentindo aquela convicção silenciosa que sussurra: esse lugar já é meu.
- Há um comprador em potencial - diz com calma. - Estão negociando seiscentos e setenta e cinco mil dólares e...
Eu o interrompo antes que termine:
- Pago setecentos e cinquenta mil dólares para fecharmos hoje. - minha voz sai firme, treinada por anos de quedas e reerguimentos. - Ligue para o proprietário. Tenho pressa.
A boca do corretor abre e fecha por alguns segundos - como um peixe elegante e chocado. Ele pede licença, se afasta e liga. Eu escuto apenas fragmentos, mas o sorriso que nasce em seus lábios já me entrega o desfecho.
E não, não estou sendo precipitada ao oferecer setenta e cinco mil a mais. Um prédio como esse, por esse preço e nesse bairro, é um achado quase insolente. Imóveis desse porte, normalmente, ultrapassam um milhão.
O espaço é perfeito para o meu estúdio - e ainda sobra. Sim, gastarei com reformas e equipamentos, mas as paredes são firmes, a fundação é sólida. Isso já me poupa tempo, dinheiro e algumas dores de cabeça.
- Senhorita Sullivan - a voz do corretor me puxa de volta. - O senhor Osborne, proprietário, gostaria de encontrá-la com seus advogados para prosseguir com a venda.
- Perfeito. Hoje à noite, em um jantar. - digo, vestindo minha melhor postura de mulher de negócios. - Diga a ele que escolha o local e entre em contato comigo. Estarei lá com meu advogado.
- Perfeito - ele sorri, largo, o sorriso tÃpico de quem já está calculando a comissão.
Ele estende a mão. Eu aperto, segura.
- É um prazer fechar negócio com você, senhorita Sullivan.
- O prazer é meu, Francis.