đŸ„€CapĂ­tulo 5.đŸ„€

1221 Words
Melina Sullivan. Seguro minha taça com uma das mĂŁos, e deixo o olhar vagar pelo salĂŁo. As pessoas riam, bebiam, trocavam confidĂȘncias em pequenos grupos, com aquela elegĂąncia ensaiada tĂ­pica de eventos assim. Garçons circulavam com passos precisos, oferecendo taças de champanhe que tilintavam discretamente no ar perfumado. A mĂșsica ao vivo embalava o ambiente num ritmo agradĂĄvel - mais leve que a mĂșsica clĂĄssica, mas ainda assim sofisticado o bastante para nĂŁo quebrar o encanto do lugar. Num dos cantos do imenso salĂŁo, sob o brilho dourado de um lustre imponente e entre janelas de cortinas pesadas, uma mesa farta exibia aperitivos cuidadosamente dispostos. No lado oposto, algumas mesas estavam estrategicamente posicionadas para os que preferiam a comodidade de sentar a ter de socializar em pĂ©. Ao meu lado, Daniel parecia Ă  vontade - mĂŁos nos bolsos da calça social preta, camisa social branca, colete combinando e os sapatos sempre impecĂĄveis. Eu, por outro lado, havia optado pelo simples. Um vestido preto de alças finas que se ajustava ao corpo e descia atĂ© os joelhos, com uma f***a lateral discreta. Os cabelos, meio presos, deixavam os cachos das pontas caĂ­rem de leve sobre os ombros. Um conjunto singelo de gargantilha e brincos de prata completava o visual. Nos pĂ©s, um salto baixo - o suficiente para manter a postura sem o desejo constante de arrancĂĄ-los no meio da noite. Eu detesto saltos. Ainda mais agora, com a perna que passou meses engessada e teima em reclamar de vez em quando. - Aquele ali Ă© o juiz Thompson - a voz de Daniel me puxa de volta. - A mulher ao lado dele Ă© Katherine, promotora da vara da famĂ­lia. - Interessante - comento, observando o casal ao longe. - EstĂŁo em processo de divĂłrcio. Assim como o Henry, nenhum dos dois parece disposto a ceder um milĂ­metro. - Ele balança a cabeça, num gesto de reprovação. - Mesmo assim, continuam aparecendo juntos, mantendo as aparĂȘncias... - Espera aĂ­, O'Connor, um divĂłrcio? - arqueio a sobrancelha, surpresa. - Quanto tempo eu dormi, exatamente? NĂŁo que eu esteja preocupada com ele - por mim, que se exploda; eu seria a responsĂĄvel por soltar os fogos no dia do funeral. É sĂł que Ă© difĂ­cil imaginar alguĂ©m daquele calibre casado, e mais ainda Ă  beira de um divĂłrcio. - Deixa isso pra lĂĄ, Mel. - Ele fala, um pouco sem jeito. - Nem devia ter tocado no assunto. - Se vocĂȘ insiste. - Dou de omros, desinteressada. A festa segue mansa, atĂ© demais pro meu gosto: casais dançam, outros riem, e o tĂ©dio jĂĄ foi coroado rei da noite hĂĄ muito tempo. Em certo ponto eu aderi Ă  regra dos pinguins de Madagascar - apenas sorria e acene. - Daniel, meu rapaz, que bom que vocĂȘ pĂŽde vir. - A voz masculina, carregada de anos, me arranca do piloto automĂĄtico. - Adrian, feliz aniversĂĄrio, velho amigo. - Daniel responde leve. - Jamais perderia a comemoração de uma data dessas. - Procuramos por vocĂȘ a noite toda. Vejo que estĂĄ acompanhado. Qual o nome da bela dama? O homem Ă  nossa frente parece ter uns cinquenta anos: cabelos grisalhos, terno bem cortado e um ar despretensioso, o rosto aberto quando fala. - Esta Ă© Melina, minha irmĂŁ - diz Daniel, apontando para mim. - OlĂĄ, senhor Miller. Feliz aniversĂĄrio - digo, polida. Estendo a mĂŁo; ele, Ă  maneira de um cavaleiro antigo, deposita um beijo no dorso dela. - Daniel falou muito bem de vocĂȘ, garota. - Sua voz tem sinceridade, e por um instante quase viro o rosto pra encarar o irmĂŁo. - Ele disse que vocĂȘ Ă© artista... mas parece bem mais jovem que ele. Diga-me: qual Ă© sua idade? - Faço vinte e quatro em alguns meses, senhor. - Respondo, honesta, e o sorriso dele se alarga em seguida. .- Muito bom, muito bom. - ele diz, sorrindo satisfeito, com aquele tom caloroso de quem realmente gosta de estar cercado de gente. - Isis, querida, poderia vir aqui um momento? A voz dele ecoa com leve entusiasmo, chamando por alguĂ©m em meio ao burburinho do salĂŁo. Meus olhos seguem a direção do seu olhar, e entĂŁo a vejo - no centro de um pequeno grupo de mulheres mais velhas, estĂĄ uma jovem de cabelos loiros e ondulados que refletem o brilho das luzes como fios de ouro polido. O vestido verde-esmeralda, ajustado ao corpo e fluido nas extremidades, a envolve com elegĂąncia quase cinematogrĂĄfica. Ela se vira, e por um instante o mundo parece pausar - eu reconheceria aquele semblante curioso em qualquer lugar. Um sorriso involuntĂĄrio se desenha em meus lĂĄbios, acompanhado pela sensação agridoce das ironias que o destino adora me servir. Seus olhos encontram os meus. HĂĄ um lampejo de reconhecimento, rĂĄpido mas inconfundĂ­vel, e logo o sorriso dela se alarga - quente, genuĂ­no, cheio de vida. Ela murmura algo Ă s mulheres que a cercam e, sem hesitar, começa a caminhar em nossa direção. HĂĄ uma naturalidade felina em seus passos, uma confiança que parece dizer que o mundo inteiro Ă© palco, e ela, o espetĂĄculo principal. Antes que o pai tenha tempo de dizer qualquer coisa, Isis jĂĄ me envolve num abraço apertado - e eu retribuo sem pensar, ignorando por completo o olhar atĂŽnito dos dois homens ao nosso lado. - Mel... que saudades, garota. - ela ri, ainda me apertando forte. - Digo o mesmo, Izzi. - respondo, rindo tambĂ©m. - Quanto tempo faz? TrĂȘs anos? - Um ano e meio, garota! - ela corrige, divertida, afastando-se sĂł o suficiente para me encarar. - E eu amei seu cabelo! O vermelho combina com vocĂȘ e... - Sem querer ser intrometido, meninas, mas... de onde vocĂȘs se conhecem? - a voz de Daniel corta o ar, carregada daquela desconfiança fraternal tĂ­pica dele. - Pai - diz Isis, girando o rosto para o senhor Miller, completamente alheia Ă  tensĂŁo sĂșbita - essa Ă© a Mel. A Melina. Aquela amiga que eu fiz na aula de artes em Boston, quando estive lĂĄ da Ășltima vez. O senhor Miller ri, encantado com a coincidĂȘncia, e começa a fazer perguntas sobre a suposta aula. Enquanto isso, Daniel me lança olhares semicerrados entre uma resposta e outra de Isis, como se tentasse decifrar cada detalhe da histĂłria. Tecnicamente, ela nĂŁo mentiu. Era uma "aula de artes", sim - sĂł nĂŁo mencionou que a arte em questĂŁo envolvia carros turbinados, motores roncando e adrenalina correndo solta nas veias. O evento era um dos maiores do paĂ­s, um paraĂ­so para amantes da velocidade e, claro, para quem gostava de sentir o asfalto vibrar sob as rodas. Quem olha pra aquele rostinho angelical, com os olhos azuis reluzindo como um dia de verĂŁo, jamais imaginaria que ela Ă© um monstro nas pistas. Corremos juntas em alguns rachas memorĂĄveis antes de ela voltar pra Los Angeles - e agora, ao que tudo indica, o universo decidiu brincar de novo com as probabilidades. A filha do sĂłcio do meu irmĂŁo. Claro que sim. Pelo jeito, Daniel nĂŁo estĂĄ mais tĂŁo entusiasmado com a ideia de eu fazer novas amizades essa noite. Mesmo depois que Isis me puxa pela mĂŁo e nos afastamos em meio Ă  multidĂŁo, ainda sinto o olhar dele queimando em nossas costas, enquanto o senhor Miller tenta distraĂ­-lo com uma conversa animada. .
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD