Melina Sullivan.
O táxi estaciona em frente ao S&O Nexus Law Group, o escritório de advocacia do meu irmão. Pago a corrida, saio do carro e entro no lobby do prédio de quatro andares. Me apresento na recepção. A recepcionista me encara como quem não acredita muito no que eu digo.
Mesmo assim, ela liga para a sala do Daniel e, logo depois, informa que minha entrada está liberada. Indica o andar. Sigo até o elevador e aperto o botão do quinto. Não demora para as portas se abrirem. O espaço é amplo: sala de espera, TV, ar-condicionado gelado demais, tudo em tons monocromáticos - com alguns quadros bizarros nas paredes. Coisas do Daniel, sem dúvida.
Há algumas portas, quatro para ser mais exata. Em uma delas, uma placa diz "Dr. Sullivan". Na outra, "Dr. O'Connor", que eu presumo ser o escritório do encosto. As duas restantes eu simplesmente ignoro. Não estou curiosa o suficiente.
Caminho até a porta da sala do Daniel, bato duas vezes e entro sem esperar resposta. O que encontro é um ambiente monocromático, cinza e preto, móveis planejados e uma mesa no centro. Meu irmão está sentado, cabeça apoiada no encosto da poltrona e olhos fechados.
- Niel? - chamo, fechando a porta atrás de mim. - Está tudo bem?
- Fala, pirralha - ele diz, com a voz baixa. - Estou no horário de almoço e uma enxaqueca resolveu me escolher como vítima. Mas entra, Mel. Fica à vontade.
Ele aponta para o sofá no canto e para a cadeira à frente de sua mesa - convite claro para eu me sentar.
- Você tem algum remédio? - pergunto, sentindo a preocupação se infiltrar sem pedir licença.
Daniel costumava ter dores de cabeça constantes quando a gente crescia. Muitas vezes fortes o suficiente para fazê-lo gritar de dor. Lembro vagamente de uma época em que ele precisou fazer uma cirurgia, algo relacionado às dores. Nunca soube exatamente para quê. Ele nunca contou. Mas aprendi a reconhecer os sinais - e a me preocupar com eles.
- No móvel, no canto da sala - ele diz, ainda com a voz baixa. - Segunda gaveta. É a única cartela que tem.
Vou até onde ele indicou. O móvel é basicamente um organizador de arquivos de madeira polida. Abro a segunda gaveta e não encontro nada. Abro a próxima. Depois outra. Sigo procurando o remédio.
- Não tem nada aqui, Dan - minha voz sai um pouco mais histérica do que eu gostaria.
- Ca... calma, Mel... - ele diz, a voz baixa, quase um sussurro. - Vai até a sala do Henry, segunda porta. Ele... ele geralmente tem remédios na mesa.
Eu me viro para sair, mas a voz dele me chama de novo.
- Mel.
Olho para ele.
- É só uma enxaqueca. Você não precisa se preocupar.
Não respondo. Só saio da sala e sigo para a porta ao lado. Bato duas vezes antes de entrar. A sala de O'Connor é praticamente uma cópia da do Daniel - só muda o cheiro. Aquele perfume enjoativo que ele insiste em usar toma conta do lugar.
Outra diferença: enquanto meu irmão parece estar morrendo na cadeira, O'Connor está largado no sofá, camisa com as mangas dobradas até os cotovelos, olhos fechados como se o universo inteiro estivesse dando folga pra ele.
Os olhos dele se abrem por um instante, me encaram, e a expressão passa de paz para irritação automática.
- Que diabos você está fazendo aqui? - a voz sai baixa, rouca, carregada daquele mau humor habitual.
- Eu poderia dizer que vim apreciar o show da sua ressaca - respondo, na voz mais doce que consigo, com veneno suficiente para temperar. - Mas o Niel está com uma enxaqueca forte e o remédio dele acabou. Ele mandou eu vir buscar.
- Hum. - ele resmunga, apontando para a mesa no centro da sala. - Primeira gaveta, lado direito.
Dou de ombros e vou até a mesa. Abro a gaveta. Lá está uma cartela de comprimidos de marca famosa. Pego, fecho a gaveta e saio sem cerimônia.
Volto para a sala do meu irmão, coloco um copo de água - que peguei na sala de espera - em sua mão, junto com o comprimido.
》☆《
- Você tem certeza de que o local vale esse valor? - a voz de Daniel ecoa, um tanto cética, enquanto analisa as imagens à sua frente.
Ele tinha tomado o remédio, e eu o aconselhei a deitar um pouco no sofá, com o escritório às escuras, para que o efeito finalmente viesse.
Ele fez isso.
Já se passaram quase duas horas. Agora são exatamente 14h37. Ele está um pouco melhor, e nós estamos verificando a documentação do imóvel que eu pretendo adquirir.
- É promissor, Mel - ele diz, olhando os papéis com a localização. - Ainda assim, precisamos levar alguns empreiteiros lá. Só para ter certeza de que a estrutura está sólida, e se não vai precisar de uma reforma mais profunda do que parece nas fotos.
- Talvez eu tenha sido um pouco impulsiva... e dito que quero fechar negócio ainda hoje - confesso, rindo sem jeito da situação.
- Me diga quando você não é impulsiva, Mel? - ele ri. - Vou pedir a um amigo para ir lá por volta das 16h. Até as 19h teremos uma base para saber se vale a pena ou não seguir com a compra.
- Você é o melhor irmão do mundo, Niel - digo, contornando a mesa para abraçá-lo pelo pescoço, apertado.
- Tudo por você, maninha - ele responde, bagunçando meu cabelo. - Agora, sobre hoje à noite... não tenho certeza se vou poder ir com você ao jantar. Provavelmente não. Estou trabalhando em um caso importante, a audiência é amanhã. Resumindo: não vou sair do escritório tão cedo.
Penso por alguns segundos, avaliando o que posso fazer. Não quero atrapalhar. Na verdade, eu simplesmente posso...
- Vamos dar um jeito, maninha. Não precisa se preocupar - ele diz, com aquele sorriso largo nos lábios.
- Obrigada por tudo, Niel.
- Sempre, pirralha.
》☆《
Finalizo minha maquiagem e me encaro no espelho como quem encara um adversário. Minha imagem me devolve o olhar - cabelos soltos, caindo em ondas suaves, o macacão preto de alfaiataria caindo no meu corpo como um argumento irrefutável. O corte perfeito grita silenciosamente: "adequado à ocasião". Os saltos... bom, os saltos são outra história. Eu odeio essa m***a com todas as fibras do meu ser, mas enfio os pés neles como quem assina um pacto com o d***o sorrindo. A maquiagem é suave - suficiente para eu não parecer uma adolescente recém-formada, mas ainda assim humana e perigosa.
Porque, no fim das contas, ninguém em sã consciência faz negócio com alguém que julga incompetente. E, infelizmente, a aparência continua valendo mais do que a gente admite em voz alta.
Recebi a mensagem de Daniel há alguns minutos. O empreiteiro amigo dele confirmou: o prédio realmente vale o valor pedido - e talvez até mais. Um achado. Daqueles que piscam uma vez e somem. Eu não vou perder isso, nem fodendo. Daniel confirmou também que não poderia vir, ainda estava estudando o caso. Mas disse que mandaria alguém me buscar às 19h30 para o jantar às 20h, em um restaurante conhecido na cidade. Apenas negócios, claro. Só contratos, comida cara, taças tilintando e sorrisos falsos.
Pego minha bolsa e saio do quarto. Desço as escadas, e nos últimos dois degraus eu travo - porque a cena me acerta em cheio.
Ele.
O encosto de terno preto.
O'Connor está jogado no sofá como se a casa fosse dele, como se tivesse nascido ali e eu fosse a visita inconveniente. Relaxe demais. Seguro demais. Irritante pra c*****o.
Eu simplesmente o ignoro. Porque minha sanidade depende disso. Sigo para a cozinha, pego um copo, encho com água e me apoio no balcão, tentando conseguir autocontrole na marra. Tiro o celular da bolsa e disco para Daniel - afinal, já são 19h35 e até agora ninguém apareceu.
O telefone chama, chama... e cai na caixa postal. Ótimo. Maravilha. Perfeito. Tomo alguns goles de água, mando mensagem e fico esperando. Meu estômago está nervoso, minhas mãos também, mas nem fodendo eu vou mostrar isso. Podem me tirar tudo, menos minha postura.
- Ainda vai demorar muito, praga? - a voz de O'Connor corta o silêncio da cozinha. - Temos exatos vinte minutos para chegar ao restaurante. E não é nada legal chegar atrasado em jantar de negócios.
Quase me engasgo com a p***a da água. Tosso, lacrimejo, morro um pouco por dentro enquanto ele ri, o desgraçado, achando tudo muito divertido.
- Como é? - consigo dizer entre as tosses. - Que história é essa de jantar de negócios e que c*****o você tá fazendo aqui?
Ele nem pisca.
- Você realmente acha que o Daniel confiaria a frágil irmãzinha dele a alguém que não fosse eu? - diz, rindo. - Teu irmão te ama demais para deixar qualquer um daqueles idiotas te levar pra esse maldito jantar. Então sobrou pra mim. - O tom dele é de uma hostilidade polida, dessas que dão vontade de jogar um copo na parede. - Agora anda. Eu não tenho a p***a da noite inteira. Vamos acabar logo com isso. Tenho coisas melhores pra fazer.
Ele vira as costas e some pela porta, como se eu fosse parte da mobília.
Fico ali parada, com o copo na mão, encarando o nada, tentando processar a sucessão de escolhas erradas que me trouxeram a esse exato instante.
Eu amo meu irmão, amo mesmo - mas às vezes eu realmente me pergunto se ele pensa. Porque, p**a que pariu, em que universo paralelo O'Connor e eu conseguiríamos coexistir trinta minutos no mesmo espaço sem querermos m***r um ao outro?
Só pode ser brincadeira. E das piores.