— E tem ideia de quantas princesas eu mataria para ser apenas uma das moças comuns agora? O peso da coroa me assusta. — Khiera suspirou, olhando sonhadoramente para as luzes distantes do condado — Tem ideia de como isso seria mágico? Andar por aí, sem saber quem iria ser meu futuro marido? Eu poderia conhecer um lindo rapaz, e com o tempo, poderia ser feliz enquanto o observava tentando me conquistar. Então só depois de algum tempo, depois que eu tivesse certeza sobre o amor, nos casaríamos. Isso não lhe soa perfeito? Isso é como suas histórias deveriam ser.
— Princesas se casam com príncipes.
A expressão de Khiera se fechou novamente.
— Eu realmente não quero enfiar o dedo no seu olho, Abadia. Na verdade,
talvez eu queira. A questão, é que você não está facilitando as coisas...
A serva apenas dispensou Khiera com um gesto de mãos.
— Vamos, Khiera. Você precisa descansar sua Teimosia Real para que ela
esteja bem apresentável amanhã. E também não se esqueça de que o rosto amassado de uma princesa é uma das primeiras coisas que costumam espantar um príncipe!
Khiera não conseguiu impedir o sorriso enquanto voltava para a cama.
— Oh, eu sou uma porta! Você acaba de me dar uma ótima ideia, Abadia! Talvez o príncipe apenas me recuse e corra assustado quando eu chegar amassada como um pedaço de pergaminho diante dele amanhã! Pense nisso!
Foi a vez de Abadia rolar os olhos.
— Trate de arrastar logo esse traseiro real até a cama antes que eu mesma tenha que fazer isso por você, Vossa Petulância. — Abadia murmurou enquanto afastava os lençóis, aninhando uma Khiera carrancuda entre os travesseiros, após fechar os cortinados de linho.
Apesar de tudo, Khiera adorou o fato de Abadia lhe oferecer tanto cuidado enquanto a punha para dormir. Tinha que admitir e adorar o fato de ser
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mimada por Abadia desse jeito. Agradecia por sua fiel serva se manter ao seu lado mesmo em um momento tão receoso da sua vida como aquele. Suas desculpas extravagantes e um tanto triviais sempre conseguiam manter Abadia longe do trabalho pesado, e isso era bom.
Quando Abadia voltou a sentar sobre sua cadeira, balançando suavemente enquanto as sombras se tornavam mais densas, Khiera sentiu uma paz profunda invadindo as rachaduras de seu escudo protetor.
Ela suspirou contra os travesseiros enquanto sentia os olhos pesarem. — Abadia?
— Pois não?
— E se ele for barrigudo?
Houve um esgar.
— O quê?
— Já pensou se ele não tiver os dois dentes da frente? Como ele vai comer
cenouras? Estou falando sério, Abadia, meu marido precisa gostar de cenouras... Apenas um segundo se passou antes que a velha serva caísse na gargalhada
novamente.
— Quanto a isso, posso afirmar que a princesa não precisa se preocupar.
Rhajaran é jovem, bonito e forte.
Khiera adormeceu ainda pensando nas palavras de Abadia. Apesar de ser
praticamente uma criança, já era madura o suficiente para saber que beleza não era promessa de amor. Era apenas uma fachada para permear a situação que a encurralava.
Pessoas belas podiam carregar um coração n***o.
— Não quero que meu marido seja belo — ela suspirou — E nem que se case comigo por obrigação de um voto feito enquanto ainda éramos bebês. Só quero... que me ame.
Abadia sorriu suavemente.
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— Qualquer um poderia ama-la, Khiera.
Khiera não conseguiu se impedir de soltar um sorriso travesso.
— Talvez sua opinião mude pela manhã, Abadia.
A serva lhe enviou o costumeiro olhar preocupado.
O mesmo olhar que ela enviava quando sabia que Khiera estava armando
algo. E essas coisas costumavam não serem nada agradáveis...
— Bom dia, flor do dia!
Khiera exclamou alguma reclamação atordoada quando sentiu a claridade tapeando seu rosto. Ela abriu os olhos, se deparando com as lascas de luz pura que ultrapassavam as janelas recém-abertas por Suheila, sua camareira. A garota era uma das servas mais felizes que Khiera já tivera a sorte de encontrar, e promovê-la a camareira havia sido com certeza uma decisão certa.
Exceto quando Suheila decidia acorda-la de um modo tão irritante como aquele.
Khiera enfiou o rosto entre os travesseiros enquanto Suheila dançava uma dança exótica ao redor de sua cama.
— “Com quem será? Com quem será que Vossa Alteza casará? Dependerá. Dependerá. Dependerá, se O Príncipe aceitar! ”
Khiera lhe enviou um olhar frustrado.
— Suheila, se você disser mais uma palavra sobre isso eu juro que vou lhe chutar até não poder mais!
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Suheila lhe enviou uma vênia respeitosa e debochada enquanto apontava para o criado mudo ao lado da cama, onde seu café da manhã repousava em uma bandeja de prata.
Seus longos cabelos escuros estavam amarrados em uma trança atrás da cabeça, e seus olhos castanhos cintilavam com um brilho inebriante. Por um momento, Khiera chegou a perguntar-se mentalmente sobre como seria ter aquela vida. Por mais que Suheila fosse uma serva, seus deveres deveriam ser menos frustrantes que os dela. Ouro em excesso não lhe rendia exatamente a liberdade de comandar seus próprios passos. Apenas luxo a mais por trás de sua cela. Pelo menos, Suheila estava sempre irritantemente feliz, como naquele momento. Khiera tinha uma certa mania de tentar afastar seus criados dos deveres mais difíceis.
Isso lhes dava algum tempo para importuná-la com frequência.
Khiera bocejou enquanto se alongava na cama, ainda pensando sobre a sorte da amiga camareira.
— Onde está Abadia?