18h47.
O corredor parecia mais frio agora.
Não era apenas impressão. Algo realmente havia mudado.
Talvez fosse o silêncio.
Talvez fosse o peso das palavras que Lia acabara de ler.
Ou talvez fosse a sensação terrível de que o destino, que até poucos minutos antes ameaçava Daniel, agora havia voltado seus olhos para ela.
Daniel ainda estava parado ao lado dela, olhando para o bilhete.
— Isso… isso não pode ser sério.
Sofia pegou o papel da mão de Lia e releu as palavras lentamente.
O dia ainda não terminou.
Às 23h17, Lia morrerá.
Sofia levantou os olhos.
— Quem escreveu isso?
Rafael continuava olhando para o bilhete com uma expressão que Lia nunca tinha visto antes.
Confusão.
Medo.
— Eu… não sei — disse ele finalmente.
Daniel cruzou os braços.
— Não sabe?
A voz dele tinha um tom mais duro agora.
— Até agora todos os bilhetes vieram de você.
Rafael balançou a cabeça.
— Não este.
Lia observava cada detalhe do rosto dele.
E percebeu algo importante.
Ele realmente parecia surpreso.
— Se você não escreveu… — disse Sofia lentamente — então quem escreveu?
O silêncio no corredor pareceu crescer.
Ninguém tinha resposta.
Lia respirou fundo.
— Há quanto tempo você lembra do futuro?
Rafael respondeu:
— Apenas até agora.
— O quê? — Daniel perguntou.
— As memórias que eu tive depois do acidente só iam até o momento em que você sobrevivia à queda.
Ele olhou para o relógio na parede.
18h49.
— Depois disso… tudo fica vazio.
Lia sentiu um arrepio.
— Então esse bilhete vem de alguém que sabe mais do futuro do que você.
Rafael assentiu lentamente.
— Exatamente.
Daniel passou a mão pelo cabelo.
— Isso significa que existe outra pessoa envolvida.
Sofia respondeu:
— Ou outra coisa.
O silêncio voltou.
Mas desta vez havia algo diferente nele.
Medo.
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19h02
Eles haviam se movido para fora do prédio.
A noite começava a cair lentamente sobre a cidade. As luzes dos postes acendiam uma a uma, espalhando círculos dourados pelas calçadas.
Lia caminhava em silêncio.
A mochila parecia mais pesada do que nunca.
Daniel caminhava ao lado dela.
— Como você está?
Ela respondeu sem olhar para ele.
— Tentando não pensar muito nas próximas quatro horas.
Daniel suspirou.
— Nós vamos impedir isso.
Sofia, que caminhava alguns passos à frente, virou-se.
— Primeiro precisamos descobrir como você vai morrer.
Rafael completou:
— E quem escreveu o bilhete.
Lia olhou novamente para o papel.
As palavras continuavam ali.
Imutáveis.
Às 23h17, Lia morrerá.
Nenhum detalhe.
Nenhuma pista.
Nada.
— Esse é diferente — disse ela.
Rafael concordou.
— Os outros sempre tinham instruções.
Sofia cruzou os braços.
— Este só anuncia o resultado.
Daniel murmurou:
— Como se fosse inevitável.
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19h21
Eles pararam em um pequeno café aberto na esquina.
O lugar estava quase vazio.
Uma música baixa tocava no fundo.
Lia sentou-se perto da janela.
O relógio do celular marcava 19h21.
Ainda faltavam quase quatro horas.
Quatro horas para impedir algo que eles nem sabiam o que era.
Sofia colocou dois cafés sobre a mesa.
— Beba.
Lia segurou o copo quente.
— Obrigada.
Rafael abriu um caderno que havia trazido.
— Precisamos pensar de forma lógica.
Daniel respondeu:
— Nada disso é lógico.
Rafael ignorou o comentário.
— Vamos analisar os fatos.
Ele começou a escrever.
1. Alguém escreveu um novo bilhete.
2. Essa pessoa sabe o futuro.
3. Essa pessoa sabe que Lia morrerá às 23h17.
Ele levantou os olhos.
— E provavelmente sabe como.
Sofia perguntou:
— Mas por que não escrever isso também?
Rafael respondeu:
— Talvez porque queira ver se conseguimos descobrir.
Daniel olhou para Lia.
— Ou talvez queira garantir que aconteça.
Lia sentiu um calafrio.
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20h03
Uma hora havia passado.
Nenhum novo bilhete apareceu.
Nenhum evento estranho.
Mas a tensão só aumentava.
Porque o tempo continuava avançando.
Daniel olhava o relógio a cada poucos minutos.
Sofia observava cada pessoa que entrava no café.
Rafael analisava padrões possíveis.
Lia apenas pensava.
Pensava no acidente dele.
Pensava nos bilhetes.
Pensava no fato de que alguém parecia estar um passo à frente de todos.
Então algo aconteceu.
Um som leve.
Quase imperceptível.
Um deslizar de papel.
Lia congelou.
A mochila.
Ela abriu lentamente.
E lá estava.
Outro bilhete.
As mãos dela tremiam enquanto abria o papel.
Daniel e Sofia se aproximaram.
Ela leu em voz baixa.
Você começou a perceber.
Mas ainda está olhando no lugar errado.
Sofia franziu a testa.
— Lugar errado?
Rafael parecia pensativo.
— Isso significa que a resposta está mais perto do que imaginamos.
Daniel perguntou:
— Mais perto onde?
Lia levantou lentamente os olhos.
E percebeu algo.
Algo que nunca tinha considerado antes.
Ela olhou para Rafael.
Depois para Sofia.
Depois para Daniel.
E disse baixinho:
— E se o problema não for quem escreve os bilhetes?
O silêncio caiu novamente.
Daniel perguntou:
— Então qual seria?
Lia respondeu:
— Quem recebe.
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O relógio marcava 20h09.
E ainda faltavam 3 horas e 8 minutos para 23h17.
O silêncio que se seguiu às palavras de Lia parecia mais pesado do que qualquer coisa que havia acontecido naquele dia.
Daniel foi o primeiro a reagir.
— Espera… — ele disse lentamente — o que você quer dizer com quem recebe?
Lia passou a mão pelo cabelo, tentando organizar os pensamentos que pareciam correr desordenados dentro da sua cabeça.
— Pensem comigo — disse ela. — Todos os bilhetes apareceram na minha mochila.
Sofia assentiu.
— Sim.
— E mesmo quando os bilhetes falavam do Daniel… — Lia continuou — eles ainda vinham para mim.
Rafael inclinou-se um pouco para frente na cadeira, interessado.
— Você acha que o alvo sempre foi você?
Lia respirou fundo.
— Talvez.
Daniel franziu a testa.
— Mas o primeiro bilhete falava da minha queda.
— Sim — respondeu Lia — mas quem precisava agir para impedir era eu.
O silêncio voltou à mesa.
Sofia parecia pensativa.
— Então… — ela disse devagar — você acha que alguém está tentando testar você?
Lia não respondeu imediatamente.
Porque aquela ideia começava a parecer mais plausível do que ela gostaria.
Rafael fechou o caderno lentamente.
— Isso explicaria algumas coisas.
Daniel cruzou os braços.
— Como o quê?
Rafael apontou para a mochila.
— O fato de que os bilhetes nunca aparecem quando você não está olhando diretamente para ela.
Lia piscou.
— O quê?
Sofia virou-se para Rafael.
— Espera… você percebeu isso?
Rafael assentiu.
— No corredor, mais cedo. Toda vez que um bilhete aparecia, Lia estava distraída ou olhando para outro lugar.
Lia tentou lembrar.
E sentiu um frio percorrer seu corpo.
Ele estava certo.
Ela nunca tinha visto o momento exato em que os bilhetes apareciam.
Eles simplesmente… estavam lá.
Daniel soltou um suspiro nervoso.
— Isso está ficando cada vez mais estranho.
Sofia pegou novamente o último bilhete e releu.
Você começou a perceber.
Mas ainda está olhando no lugar errado.
Ela levantou os olhos lentamente.
— Talvez isso signifique que a resposta está literalmente diante de nós.
Rafael apoiou os cotovelos na mesa.
— Ou dentro de nós.
Daniel olhou para ele.
— O que você quer dizer com isso?
Rafael hesitou por um momento antes de responder.
— Quando acordei depois do acidente, eu não apenas lembrava de coisas que ainda não tinham acontecido.
Ele olhou diretamente para Lia.
— Eu também lembrava de você.
Lia franziu a testa.
— De mim?
— Sim.
Sofia estreitou os olhos.
— Lembrava como?
Rafael parecia escolher as palavras com cuidado.
— Em várias das memórias… você estava lá.
Daniel soltou uma pequena risada nervosa.
— Isso não é exatamente surpreendente. Nós somos amigos.
Rafael balançou a cabeça.
— Não é isso.
O silêncio voltou.
Lia sentiu o coração acelerar.
— Então o que é?
Rafael respondeu devagar:
— Em algumas dessas memórias… você também tinha os bilhetes.
O ar pareceu desaparecer da mesa.
Sofia foi a primeira a falar.
— Espera.
Ela se inclinou para frente.
— Você está dizendo que isso já aconteceu antes?
Rafael não respondeu imediatamente.
Mas o silêncio dele foi resposta suficiente.
Daniel passou a mão pelo rosto.
— Isso é impossível.
Lia sentia o coração bater mais rápido.
— O que acontecia comigo nessas memórias?
Rafael olhou para o relógio do café.
20h14.
Então voltou a olhar para ela.
— Eu não sei.
Sofia franziu a testa.
— Como assim não sabe?
— Porque todas as memórias terminavam… — ele disse lentamente — antes das 23h17.
Um frio profundo percorreu o corpo de Lia.
Daniel falou quase num sussurro:
— Então você nunca viu o que acontece depois?
Rafael balançou a cabeça.
— Nunca.
Sofia apoiou-se na cadeira.
— Isso significa que, em todas as versões que você lembra… o futuro simplesmente para naquele horário.
Lia sentiu o peso das palavras cair sobre ela.
O futuro parava.
Às 23h17.
Ela pegou novamente o bilhete.
As palavras pareciam mais pesadas agora.
Às 23h17, Lia morrerá.
Daniel falou baixinho:
— Talvez esse seja o ponto onde tudo muda.
Rafael respondeu:
— Ou o ponto onde tudo sempre acaba.
Lia olhou para a janela do café.
A noite já estava completamente escura.
Os carros passavam na rua.
Pessoas caminhavam.
Riam.
Conversavam.
Viviam suas vidas normalmente.
Sem ideia de que, em algum lugar da cidade, um relógio invisível contava os minutos até 23h17.
Ela voltou a olhar para os três.
E disse algo que fez todos ficarem em silêncio.
— Então temos apenas uma opção.
Sofia perguntou:
— Qual?
Lia respondeu:
— Descobrir o que acontece às 23h17.
O relógio do café mudou novamente.
20h16.
E a contagem continuava.