O relógio na parede marcava aquele horário "18h42", com um som seco e metálico que parecia ecoar por todo o corredor.
Tique.
Tique.
Tique.
Tique.
Para Lia, cada segundo daquele dia parecia ter durado uma eternidade. Desde o momento em que o primeiro bilhete apareceu em sua mochila, tudo havia se transformado em um tremendo pesadelo consciente, uma sequência de acontecimentos impossíveis que a obrigaram a questionar a própria realidade.
Agora, diante dela, a silhueta finalmente saía das sombras.
Daniel ainda respirava de forma irregular ao lado de Sofia. O rosto dele estava pálido, os olhos arregalados, como se o corpo ainda não tivesse compreendido completamente que ele tinha sobrevivido.
— Acabou... — Daniel murmurou, quase sem voz.
Mas Lia não respondeu.
Porque ela sabia que não tinha acabado.
A figura deu mais um passo para frente, deixando a luz do corredor iluminar parcialmente seu rosto.
Por um momento, ninguém disse nada.
O silêncio era pesado.
Denso.
Irreal.
Então Sofia sussurrou:
— Eu sabia...
Daniel franziu a testa.
— Sabia o quê?
Sofia engoliu em seco.
— Que não era um estranho.
A pessoa diante deles levantou lentamente as mãos, como alguém que não queria parecer ameaçador.
Mas o olhar...
O olhar era diferente.
Calmo demais.
Controlado demais.
— Vocês demoraram mais do que eu imaginei — disse ele.
A voz fez o estômago de Lia se contrair.
Porque ela conhecia aquela voz.
Muito bem.
— Rafael... — ela disse, quase sem acreditar.
Daniel olhou de Lia para o homem à frente.
— Espera... você conhece ele?
Rafael.
Um antigo colega de faculdade.
Alguém que frequentava o mesmo círculo social que eles há alguns anos.
Alguém inteligente.
Quieto.
Observador.
Mas nunca... nunca alguém que pudesse estar por trás de algo assustador assim.
Sofia cruzou os braços, tensa.
— Então era você o tempo todo.
Rafael inclinou a cabeça, como se estivesse analisando cada reação deles.
— Sim.
Daniel deu um passo à frente, incrédulo.
— Você quase me matou!
— Não — respondeu Rafael calmamente. — Eu quase provei algo.
Lia sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
— Provar o quê?
Rafael caminhou lentamente até parar a alguns metros deles.
A luz revelava agora seu rosto por completo.
Ele parecia… tranquilo.
Quase satisfeito.
— Que o futuro pode ser alterado.
O silêncio caiu novamente.
Daniel piscou várias vezes.
— O quê?
Lia apertou a mochila contra o corpo.
— Os bilhetes…
Rafael assentiu.
— Vieram de mim.
Sofia balançou a cabeça.
— Isso é impossível. Você não poderia saber o que iria acontecer.
Rafael sorriu levemente.
— Não sabia.
Ele fez uma pausa.
— Eu vi.
Lia sentiu o coração acelerar.
— Viu?
Rafael apontou para a mochila dela.
— Os bilhetes não são previsões.
O corredor parecia prender a respiração.
— Eles são registros.
Daniel franziu a testa.
— Registros de quê?
Rafael respondeu calmamente:
— Do que já aconteceu.
Um silêncio pesado caiu novamente.
Sofia foi a primeira a falar.
— Isso não faz sentido.
Rafael deu de ombros.
— Não ainda.
Ele olhou diretamente para Lia.
— Mas vai fazer.
Lia apertou os dedos ao redor da mochila.
— Explica.
Rafael observou o trio por alguns segundos antes de falar.
— Há três semanas, eu sofri um acidente.
Daniel franziu a testa.
— Que acidente?
— Um carro me atingiu — respondeu Rafael.
Sofia cruzou os braços.
— E isso tem o quê a ver com os bilhetes?
Rafael respirou fundo.
— Eu acordei dois dias depois no hospital.
Ele fez uma pausa.
— Com uma memória que não era exatamente uma memória.
Lia sentiu um frio subir pela espinha.
— O que você quer dizer?
Rafael respondeu:
— Eu lembrava do futuro.
Daniel soltou uma risada nervosa.
— Isso é absurdo.
Mas Lia não estava rindo.
Porque os bilhetes...
Os horários...
Tudo havia acontecido exatamente como estava escrito.
Rafael continuou:
— Não era como ver visões.
— Era como... lembrar de algo que ainda não aconteceu.
Sofia estreitou os olhos.
— E você decidiu brincar com nossas vidas por causa disso?
Rafael suspirou.
— Não.
Ele apontou para Daniel.
— Eu tentei salvá-lo.
Daniel congelou.
— O quê?
— No futuro que eu lembrava — continuou Rafael — você morria naquela escada.
Um silêncio pesado caiu novamente.
Lia sentiu o ar ficar frio.
— Então... os bilhetes...
Rafael assentiu.
— Foram minha maneira de tentar mudar o resultado.
Sofia balançou a cabeça lentamente.
— Você poderia simplesmente ter avisado.
Rafael riu baixo.
— E vocês acreditariam?
Ninguém respondeu.
Porque a verdade era simples.
Não acreditariam.
Ele continuou:
— Cada bilhete era uma tentativa de empurrar os eventos em uma direção diferente.
Ele olhou para Daniel.
— E funcionou.
Daniel olhou para as escadas.
Depois para Lia.
Depois para Rafael.
— Então… eu deveria estar morto agora?
Rafael respondeu calmamente.
— Sim.
Um silêncio caiu sobre o corredor.
Pesado.
Assustador.
Lia finalmente falou:
— Então acabou?
Rafael ficou em silêncio por alguns segundos.
Então disse:
— Eu pensei que sim.
Lia sentiu um aperto estranho no peito.
— Pensou?
Rafael apontou para a mochila dela.
— O último bilhete.
Lia congelou.
— O quê?
— Abra.
Lentamente.
Muito lentamente.
Lia abriu a mochila.
Os dedos tremiam.
E então ela viu.
Um pedaço de papel que não estava ali antes.
Ela puxou o bilhete.
O coração batia forte.
Muito forte.
Sofia e Daniel se aproximaram.
Lia abriu o papel.
E leu.
"O dia ainda não terminou.
Às 23h17, Lia morrerá."
O mundo pareceu parar.
Daniel falou primeiro.
— Isso é uma piada.
Mas ninguém riu.
Porque todos perceberam algo ao mesmo tempo.
Rafael também estava olhando para o bilhete.
Confuso.
Surpreso.
— Isso… não estava na minha memória.
Lia levantou lentamente os olhos.
— Então quem escreveu?
O silêncio no corredor parecia esmagador.
Rafael respondeu baixinho:
— Eu não sei.
Lia sentiu o estômago afundar.
Porque isso significava apenas uma coisa.
Os bilhetes…
não tinham terminado.
E agora…
o próximo alvo era ela.
Cada um voltou para casa, apreensivo, assustado demais com a notícia.