A primeira previsão sombria

1369 Words
Lia ainda segurava o bilhete quando o autocarro parou no próximo ponto. O mundo parecia diferente agora. As pessoas continuavam falando, algumas olhando os celulares, outras conversando sobre assuntos triviais. Para todos ali, aquela era apenas mais uma manhã comum. Mas para Lia… nada parecia comum. Seu olhar voltou para as palavras escritas no papel. > Amanhã alguém vai morrer. Ela leu a frase mais uma vez. Depois outra. Seu coração batia forte dentro do peito. — Isso não pode ser real… — murmurou. Talvez fosse uma coincidência. Talvez alguém estivesse pregando uma peça muito elaborada. Mas o primeiro bilhete tinha se cumprido exatamente. Cada detalhe. Cada palavra. Até a reação do homem cuja camisa agora estava manchada de café. Lia olhou novamente para ele. Ele ainda estava no autocarro, alguns passos à frente. Parecia completamente tranquilo, conversando com uma senhora idosa que estava sentada perto da janela. Nada nele parecia suspeito. Nada nele parecia conectado àquele bilhete. Mesmo assim, Lia sentia uma inquietação estranha. Como se algo estivesse fora do lugar. Ela dobrou o papel cuidadosamente e guardou no bolso interno da mochila. Sua mente estava cheia de perguntas. Quem estava escrevendo os bilhetes? Como eles apareciam dentro da mochila? E por que estavam avisando sobre acontecimentos futuros? O autocarro continuava avançando pelas ruas da cidade. Através da janela, Lia observava os prédios passando lentamente. O céu estava limpo agora, completamente diferente da tempestade da tarde anterior. Era difícil acreditar que tudo tinha começado apenas com um acidente. Ou talvez… Talvez o acidente não tivesse sido apenas um acidente. Essa ideia fez um arrepio percorrer sua espinha. Ela tentou afastar o pensamento. — Estou pensando demais — disse para si mesma. Mas era impossível ignorar. Porque agora havia uma nova mensagem. Uma previsão. Alguém iria morrer. A pergunta era: Quem? E quando? E será que Lia poderia impedir? --- Quando o autocarro finalmente chegou perto da universidade, Lia desceu quase automaticamente. Suas pernas se moviam, mas sua mente estava distante. Ela atravessou o portão do campus. Os jardins estavam cheios de estudantes espalhados na grama, conversando ou revisando anotações. Tudo parecia tão normal que chegava a ser perturbador. Como se apenas ela soubesse que algo terrível estava prestes a acontecer. — Lia! A voz familiar fez com que ela levantasse os olhos. Sofia vinha correndo em sua direção. — Você sumiu ontem! — disse ela, ofegante. — Eu tentei te ligar. Lia piscou algumas vezes. — Ah… eu… sofri um pequeno acidente. Os olhos de Sofia se arregalaram. — O quê?! — Foi só um susto — respondeu Lia rapidamente. — Um carro quase me atropelou. — Quase?! — Estou bem, juro. Sofia cruzou os braços. — E você acha que isso não é motivo para avisar sua melhor amiga? Lia tentou sorrir. Mas o sorriso não chegou aos olhos. Sofia percebeu imediatamente. — O que aconteceu? — perguntou, mais séria agora. Lia hesitou. Contar sobre os bilhetes parecia… absurdo. Quem acreditaria nisso? Ela mesma ainda não tinha certeza se acreditava. — Nada… só estou um pouco cansada — disse finalmente. Sofia inclinou a cabeça, analisando-a. — Você tem certeza? — Tenho. Sofia suspirou. — Se você diz. As duas começaram a caminhar em direção ao prédio principal da universidade. Mas Lia m*l prestava atenção no caminho. Sua mente continuava presa às palavras do bilhete. Amanhã alguém vai morrer. Ela sentiu o bolso da mochila, certificando-se de que o papel ainda estava ali. Uma pergunta surgiu lentamente em sua mente. E se o bilhete não estivesse apenas avisando… Mas pedindo ajuda? --- A primeira aula do dia parecia interminável. O professor falava sobre teorias de comunicação, escrevendo conceitos no quadro. Lia normalmente gostava daquela matéria. Mas naquele momento, não conseguia se concentrar. Seu olhar voltava constantemente para o relógio na parede. Cada minuto parecia passar mais devagar. Ela abriu o caderno. Tentou anotar algo. Mas sem perceber, começou a escrever apenas uma frase repetidamente: Quem vai morrer? Quando percebeu, a página inteira estava cheia dessas mesmas palavras. Ela fechou o caderno rapidamente. Seu coração batia forte. — Lia? Ela levantou o olhar. O professor estava olhando diretamente para ela. — Gostaria de compartilhar algo com a turma? Alguns estudantes riram. Lia sentiu o rosto esquentar. — Não, professor… desculpe. Ele apenas assentiu e voltou para a explicação. Sofia inclinou-se na cadeira ao lado. — Você está muito estranha hoje — sussurrou. — Eu sei. — Quer conversar depois da aula? Lia hesitou. Talvez contar para Sofia fosse uma boa ideia. Ou talvez fosse exatamente o tipo de coisa que faria sua amiga pensar que ela tinha enlouquecido. Mesmo assim, Lia apenas assentiu. — Depois. --- Quando a aula terminou, os estudantes começaram a sair da sala. Sofia puxou Lia pelo braço. — Vamos tomar um café. Lia quase riu com a ironia da frase. Café. Depois do que tinha acontecido no autocarro. Mas concordou. Elas caminharam até a mesma cafeteria onde Lia tinha estado mais cedo. O lugar estava menos cheio agora. Elas escolheram uma mesa perto da janela. Sofia cruzou os braços e olhou fixamente para ela. — Agora você vai me contar o que está acontecendo. Lia respirou fundo. — Você vai achar que eu estou louca. — Eu já achei isso antes — respondeu Sofia com um sorriso. — Nada novo. Lia pegou a mochila. Abriu o zíper. Retirou o bilhete. E colocou sobre a mesa. Sofia olhou para o papel. — O que é isso? — Leia. Sofia pegou o bilhete. Seus olhos percorreram as palavras lentamente. — "Se você está lendo isso significa que o primeiro bilhete se confirmou…" — ela leu em voz baixa. Ela levantou os olhos. — Primeiro bilhete? Lia então tirou o outro papel. O primeiro. Sofia leu também. Quando terminou, ficou em silêncio por alguns segundos. — Isso é algum tipo de jogo? — perguntou finalmente. — Eu queria muito que fosse. — Você escreveu isso? — Não. — Mas a letra é sua. — Eu sei. Sofia analisou os papéis novamente. — E a primeira previsão… aconteceu? Lia assentiu. — Exatamente como está escrito. Sofia franziu a testa. — Isso é impossível. — Eu sei. — Então alguém está brincando com você. — Como essa pessoa colocou os bilhetes na minha mochila? Sofia ficou em silêncio. Essa pergunta parecia não ter resposta fácil. — Talvez durante o acidente — sugeriu ela. — O primeiro, talvez. Mas o segundo apareceu depois. Sofia olhou para a mochila. Como se esperasse que outro bilhete surgisse ali naquele momento. — Isso é assustador — disse finalmente. — Eu sei. Sofia devolveu os papéis. — E agora? Lia respirou fundo. — Agora temos que descobrir quem vai morrer. Sofia piscou. — Você está falando sério? — O bilhete diz "amanhã". — Amanhã é hoje. As duas se olharam. Uma tensão silenciosa pairou sobre a mesa. — Então talvez ainda haja tempo — disse Lia. — Tempo para quê? — Para impedir. Sofia inclinou-se na cadeira. — Lia… você percebe que estamos falando de algo completamente absurdo, certo? — Sim. — Mas se… se isso for verdade… Sofia não terminou a frase. Não precisava. As duas sabiam exatamente o que aquilo significava. Se os bilhetes realmente previam o futuro… Então alguém estava em perigo. Muito perigo. E o relógio continuava correndo. --- Do lado de fora da cafeteria, um homem observava pela janela. Ele estava parado do outro lado da rua. As mãos nos bolsos do casaco. Seus olhos estavam fixos na mesa onde Lia e Sofia conversavam. Ele viu quando Lia mostrou os bilhetes. Viu a expressão de choque no rosto de Sofia. Um leve sorriso surgiu em seus lábios. — Então você começou a entender… — murmurou. Ele olhou para o relógio de pulso. Ainda havia tempo. Muito tempo. Mas não muito. Ele virou-se e começou a caminhar pela calçada movimentada. Misturando-se entre as pessoas. Desaparecendo na multidão. Enquanto isso… na mochila de Lia… um terceiro bilhete começava a aparecer lentamente. Como se uma mão invisível estivesse escrevendo. Palavra por palavra. Letra por letra. Até formar uma nova frase. Uma frase muito mais assustadora. > Você ainda não percebeu… mas a morte que precisa impedir… está mais perto do que imagina.
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