No último dia juntos, deixei Vincent na mesma esquina que eu o busquei.
"Obrigado por tudo." - Vincent disse enquanto tirava um livro da mochila e me entregava.
"Eu que sou grato, tenho certeza de que isso só foi possível porque você teve mais coragem do que eu de compartilhar os seus sentimentos."
"Quero que você fique com esse livro. Escrevi uma dedicatória antes de irmos pra casa de campo com os pensamentos que eu tive antes de saber se ficaríamos juntos. Decidi que te entregaria o livro se os nossos planos se realizassem, então estou cumprindo a promessa que fiz a mim mesmo. Mas só leia a dedicatória quando chegar em casa, ok?"
"Você sempre me surpreende. Obrigado."
O beijei tentando registrar na memória o toque dos seus lábios ao máximo. Eu queria me lembrar da sua pele, do seu calor e da sua respiração depois que a gente se despedisse. Vincent saiu do carro e acenou para mim. Vê-lo pelo retrovisor do carro foi minha última memória visual dele naquela época.
Mais tarde, Vincent me mandou uma mensagem de boa noite, então conversamos até ele dormir. Passei a madrugada em claro, pensando sobre como agir. Eu estava de volta à minha casa e principalmente à rotina.
Eu precisava reencontrar Vincent e dizer a ele que não deveríamos nos envolver mais, seria melhor para nós dois. Mas como eu o convenceria de que essa era a decisão certa depois de tudo o que vivemos? Como seria encarar seus olhos verdes e dizer cada uma dessas palavras?
Vincent me enviou uma mensagem.
"Bom dia. Acordei pensando em você, acredita?"
"Bom dia. Ah é, e no que estava pensando?"
"Em como sou sortudo por ter você na minha vida. Valeu a pena sofrer por você, porque a recompensa me fez esquecer de qualquer momento triste. Estar com você me deixa em um estado de alegria permanente."
Quanto mais eu lia as palavras gentis e carinhosas de Vincent, mais eu me sentia angustiado e triste. Eu sabia que eu partiria o seu coração, e eu não queria fazer aquilo. Ele não merecia nenhuma palavra negativa, nada que o deixasse triste.
Durante todo aquele dia pensei em várias formas de abordar Vincent para a nossa conversa, eu precisava me preparar para aquela situação. Ele me mandou algumas mensagens ao longo do dia, mas dei respostas curtas e demoradas, eu não conseguia respondê-lo direito.
Não, Vincent não merecia aquele comportamento da minha parte. Decidi que era preciso chamá-lo para conversarmos pessoalmente.
"Espero que o seu dia tenha sido bom. Eu acho que já vou dormir, mas queria te dizer uma coisa antes." - ele disse no começo da madrugada.
"Eu também queria conversar com você sobre uma coisa."
"Quer falar primeiro?"
"Não, prefiro que você fale, Vincent." - talvez ele desistisse de falar o que queria se eu fosse o primeiro.
"Pensei se estava muito cedo pra dizer isso, mas considerando o que vivemos e como foi esse primeiro dia longe de você, cheguei à conclusão que eu tinha que ser sincero. Eu te amo."
Não consegui mais respondê-lo. Nunca ninguém tinha me dito antes que me amava romanticamente, e por mais que normalmente eu não me importasse com esse tipo de demonstração de afeto, aquela declaração tinha me acertado em cheio.
No dia seguinte, Vincent me mandou mais mensagens me perguntando se tinha dito algo errado, me pedindo desculpas por coisas que ele não fez, me dizendo que ele seria uma pessoa melhor se eu o respondesse. Quanto mais eu o deixava sem resposta, mais ele me mandava mensagens, o que me fazia sentir culpado e uma pessoa horrível.
Tentei escrever para ele algumas vezes, mas toda vez que eu começava a digitar, não conseguia organizar os meus pensamentos, não sabia se o que eu estava escrevendo era o certo… Com o tempo, eu estava chegando à conclusão de que nada do que eu dissesse poderia fazê-lo se sentir melhor.
Alguns dias depois, recebi uma mensagem do seu irmão nas minhas redes sociais. Ele já sabia do meu envolvimento com Vincent e perguntou por que eu não o respondia. Ele estava irritado, dizendo que se soubesse que eu agiria com Vincent daquela forma, nunca teria me convidado para a formatura.
Meu silêncio tinha transformado tudo em um verdadeiro caos. Eu sabia que Vincent estava muito chateado, e talvez fosse pior encontrá-lo pessoalmente naquele momento. Por mais que eu estivesse sendo um babaca, eu ainda queria que ele guardasse uma última memória positiva de nós dois juntos.
O melhor que eu poderia fazer por Vincent era desaparecer completamente da sua vida e torcer para que o tempo curasse as cicatrizes que eu tinha aberto em seu peito. Deletei meus perfis nas redes sociais, troquei o meu número de celular e recusei o emprego como professor efetivo na escola.
Quando Vincent apareceu na porta do meu apartamento me pedindo para falar com ele, não o respondi. Me sentei no chão da sala, tentando ouvir sua voz uma última vez.
"Eu não sei por que você está fazendo isso comigo. Eu sou alguém tão detestável assim para você não querer nem olhar mais para a minha cara?" - essas foram as últimas palavras de Vincent.
Na semana seguinte, me mudei de apartamento.