O Início

1585 Words
O CHAMADO DO ESTILO Lívia havia acabado de completar 22 anos. Estudava Design de Moda em uma faculdade pública e trabalhava à noite como balconista em uma loja de acessórios. Seus dias eram longos, cansativos, mas sua paixão por criar seguia intacta. Desenhava em guardanapos, bordava à mão em roupas que ninguém valorizava e sonhava com um lugar onde pudesse mostrar quem era. Alícia, por outro lado, havia se formado na renomada Central Saint Martins de Londres, mas recusava o caminho óbvio da elite. Ao invés de trabalhar na empresa da família, queria construir algo autêntico. Voltou para a Inglaterra trazendo ideias, contatos... e saudades de Lívia. Elas se reencontraram em um café no centro de Londres. — Você está maravilhosa, Lili! — disse Alícia, emocionada, ao vê-la entrar com o mesmo sorriso tímido de sempre. — E você... parece que saiu de uma revista. E fala francês agora, é? — respondeu Lívia, com uma risada. O abraço entre elas foi longo. Verdadeiro. Como se o tempo não tivesse passado. Enquanto tomavam café, falaram da faculdade, dos projetos, da vida. Mas foi Alícia quem trouxe a primeira fagulha de destino: — Estou abrindo uma linha experimental de design dentro da Aurora Maciel. Lívia arregalou os olhos. — Aquela Aurora Maciel? — A própria. Eles estão investindo em novos talentos e querem renovar a identidade da marca para atrair o público jovem. Minha mãe tem uma ligação com uma das diretoras e me indicou. Lívia sentiu um arrepio. Aquele nome — Aurora — ainda ecoava em sua mente como um sussurro antigo. — Eles estão contratando estagiárias... — continuou Alícia. — E eu já falei de você. Mostrei seus desenhos. — O quê?! — Eles querem te conhecer, Lili. Lívia piscou várias vezes, tentando conter as lágrimas. Era tudo o que sempre quis. Mas havia algo mais... algo dentro dela que queimava. — Por que esse nome me afeta tanto? Eu não conheço essa marca... mas parece que ela me conhece. Alícia franziu o cenho. — Eu também sinto isso. Tem algo... estranho. Com sua história. Com a minha. Com tudo isso. — O que você quer dizer? — Que talvez essa vaga seja mais do que um emprego, amiga. Talvez seja o começo da verdade. Dias depois, Lívia atravessou as portas douradas da sede da Aurora Maciel pela primeira vez. Paredes de vidro, arte moderna, um perfume sofisticado no ar — como se o prédio respirasse elegância. Ela não sabia, mas seus pés estavam pisando no chão onde havia sido fotografada pela última vez com um ano de idade. Cada detalhe daquele lugar a chamava. As estampas. As vitrines. Os rostos. E então, em um corredor, ela esbarrou com Ana Camilla de Maciel. Ambas se encararam por um segundo longo demais. — Perdão — disse Camilla, gentil. Mas havia algo estranho em seu tom. Como se ela... reconhecesse. E pela primeira vez, Lívia viu alguém que se parecia demais com ela mesma. CAPÍTULO 6: A SOMBRA E O ESPELHO Três meses se passaram desde que Lívia e Alícia iniciaram seus trabalhos na Aurora Maciel. A rotina era intensa, mas empolgante. Cada dia revelava uma nova peça de um quebra-cabeça invisível. Ana Camilla de Maciel, agora diretora criativa da marca, observava Lívia com atenção crescente. Algo naquela garota a deixava inquieta. Não era apenas o talento inegável — era o modo como ela andava pelos corredores, como conhecia os tecidos antes mesmo de tocá-los, como falava de moda com paixão quase genética. — Você já fez cursos fora? — perguntou Camilla, em um dia comum de trabalho. — Não. Nunca saí do país. — respondeu Lívia, confusa. — Estranho. Você parece... parte disso tudo. Camilla não sabia, mas a irmã que julgava morta estava ali, diante dela. E o instinto falava antes da razão. --- Enquanto isso, em uma ala mais reservada da empresa, Maria Paula de Maciel retomava aos poucos suas visitas à sede. Após anos afastada, agora participava de decisões estratégicas — e aproveitava para observar a nova geração de talentos. Foi Alícia quem a apresentou à jovem designer promissora. — Essa é Lívia Lopes, uma das nossas mentes mais criativas. O mundo de Paula parou por um instante. Os olhos. O sorriso. O jeito com que ajeitou os cabelos. Seu coração tropeçou, mas ela disfarçou. Apertou a mão de Lívia com um leve tremor. Sentiu um arrepio. Mas não demonstrou. — É um prazer, Lívia. — disse, com um sorriso gentil. — Você me lembra alguém. Lívia sorriu. Mas por dentro, a voz antiga sussurrava mais forte do que nunca. Aurora. --- Naquele mesmo mês, Fernanda Maciel voltava de uma viagem à França. Agora uma advogada determinada, especialista em crimes patrimoniais e familiares, ela estava prestes a casar-se com Felippe Montenegro, sócio e amigo de Rodrigo Baronni, um jovem advogado recém-chegado à empresa para atuar na parte de contratos e sucessões. Fernanda ainda carregava um vazio. Nunca parou de procurar pela irmã. Quando Rodrigo mencionou que duas novas funcionárias vinham chamando atenção na Aurora Maciel, Fernanda pediu para ver os registros de RH. Um nome chamou sua atenção: Lívia Lopes. Algo ressoou em seu peito. E foi Rodrigo quem notou a semelhança nas fotos de uma antiga pasta do caso Aurora. — Fernanda, olhe isso. O sinal de nascença da Aurora... e essa foto da Lívia, num desfile interno. Isso aqui, na nuca. Fernanda empalideceu. — É ela. Meu Deus... Rodrigo, eu acho que é ela. E ali, a investigação começou — discreta, minuciosa, com a ajuda de Felippe. Era hora de seguir as pistas que o destino escondia há 21 anos. --- Mas o golpe final desse capítulo viria em um evento de gala beneficente, promovido pela própria Maria Paula. O salão de cristais da Aurora Maciel estava repleto de figuras da alta sociedade. Lívia, usando um vestido de sua própria criação, desfilava com confiança ao lado de Alícia. Era a primeira vez que se sentia pertencente. E entre os convidados, chegou Mariana Santos. Rodeada de bajuladores, ela entrou com seu habitual ar de superioridade... até que seus olhos cruzaram com os de Lívia. Seu corpo enrijeceu. O sangue gelou. O copo escorregou da mão, espatifando-se no chão. Ela estava ali. A menina que ela mandou sumir. Viva. Adulta. Dentro do império Maciel. — Mariana, o que foi? — perguntou uma socialite ao seu lado. Mariana m*l conseguia respirar. Recobrou a postura com esforço. — Nada... nada. Apenas uma coincidência... Mas por dentro, o pânico começava a corroer. Ela sabia: a verdade estava voltando. E desta vez, ela não conseguiria enterrar. CAPÍTULO 7: A VERDADE COMEÇA A SANGRAR Rodrigo analisava documentos antigos no escritório de sua casa, enquanto Fernanda caminhava de um lado para o outro, impaciente. — Você tem certeza que não quer esperar mais? Um passo errado e Mariana pode enterrar todas as provas. — disse ele, preocupado. — Rodrigo, eu a vi. Olhei nos olhos dela. E vi a minha irmã. Ela falava de Lívia, mas o nome Aurora já começava a sair naturalmente em seus pensamentos. Desde aquele primeiro encontro, a cabeça de Fernanda andava em espirais. E os pesadelos voltaram. No meio da noite, suava frio ao reviver fragmentos: Um jardim. Um grito. Uma boneca caindo. E a voz abafada de uma mulher. "Você sabe o que fazer. Leve a menina. Agora." Aquela voz era clara, firme, envenenada de desprezo. Na manhã seguinte, Rodrigo chamou um hipnoterapeuta amigo da família para uma sessão experimental. Fernanda estava disposta a tentar qualquer coisa. Durante a regressão, aos poucos, ela viu Mariana. Não com clareza física, mas com nitidez emocional. Sentiu o ódio. O desprezo. O comando frio. — "Ela nunca vai se lembrar..." — murmurou Fernanda, ainda em transe. — "... mas eu ouvi. Eu ouvi Mariana dizer pra entregarem a bebê." Quando despertou, chorava. — Rodrigo... fui a única testemunha. Eu bloqueei tudo. Mas agora está voltando. --- Enquanto isso, Mariana Santos, tomada pelo medo após o evento, agia. Procurou um antigo contato em uma clínica privada, alguém que lhe devia favores — e muito dinheiro. — Preciso de um exame de DNA... mas com o resultado certo. Entendeu? — disse, entregando uma foto de Lívia. — E o que quer que o teste diga? — Que ela não é da família Maciel. Nunca foi. Isso precisa ficar claro. O homem hesitou, mas o olhar de Mariana era veneno puro. — Se essa menina for reconhecida, tudo que eu construí... tudo que tirei daquela mulher... vai pelos ares. Na Aurora Maciel, a relação entre Lívia e Maria Paula se fortalecia discretamente. Paula se pegava observando-a mais do que devia. Reparava como Lívia mexia no cabelo da mesma forma que Aurora fazia. Como franzia a testa para se concentrar. Como sorria... igual a ela mesma, há 20 anos. — Lívia... me desculpe a pergunta. Mas você foi adotada? A jovem parou por um instante. — Não. Não oficialmente. Mas... eu sempre senti que meus pais escondem algo. Desde que me entendo por gente. Paula tentou não demonstrar, mas sua voz falhou levemente: — Se um dia quiser me contar mais... estou aqui. No mesmo dia, Camilla confidenciou a Paula: — Mãe... eu acho que ela é a Aurora. — Eu também acho. À noite, Lívia recebeu uma ligação anônima. — Se você for esperta, vai se afastar da família Maciel. Eles não são quem você pensa. — Quem está falando? — perguntou ela, tensa. Mas a ligação caiu. A voz... parecia disfarçada. Fria. Familiar. Era Mariana. Iniciando sua guerra.
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