📜 Capítulo 10 – Entre Verdades e Mentiras
A manhã em Vila Serena nasceu clara, mas para Gabriel Monteiro o dia parecia encoberto por nuvens invisíveis. Desde o baile, percebia algo diferente em Helena: seus olhos brilhavam menos, seus sorrisos vinham carregados de hesitação, e sempre que ele tentava se aproximar demais, ela desviava o olhar.
No café da manhã da mansão, Rafael falava animadamente com Beatriz sobre negócios da família, enquanto Gabriel permanecia em silêncio. Seus olhos, fixos na xícara de café, refletiam inquietação.
— Está calado demais, Gabriel. — comentou Beatriz, analisando-o com a frieza habitual. — Algo o preocupa?
— Nada que precise ser discutido à mesa. — respondeu, sem erguer a cabeça.
Rafael sorriu de canto, satisfeito. Sabia muito bem o que corroía o primo, mesmo que ele ainda não tivesse provas.
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Na confeitaria, Helena tentava manter a rotina. O cheiro de pães recém-assados e doces cobertos de açúcar pairava no ar, mas dentro dela, o gosto era amargo. Carolina percebeu.
— Helena, você está estranha desde o baile. — disse a irmã, enquanto montava uma bandeja com biscoitos amanteigados. — Isso tem a ver com Gabriel?
Helena hesitou. Por um instante, quis confiar em Carolina, mas algo a impedia. A lembrança da avidez nos olhos da irmã, quando falava sobre Rafael, fazia com que guardasse para si o segredo.
— Estou apenas cansada. — respondeu. — Não é nada.
Carolina arqueou a sobrancelha, desconfiada, mas não insistiu.
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No fim da tarde, Gabriel decidiu enfrentar suas próprias dúvidas. Foi até a confeitaria sem aviso, como sempre fazia, mas dessa vez com um propósito: olhar Helena nos olhos e arrancar a verdade.
Ao entrar, encontrou-a arrumando flores em pequenos vasos. A cena era simples, mas carregada de beleza. Helena, porém, pareceu sobressaltada ao vê-lo.
— Gabriel! Não esperava você agora…
Ele aproximou-se, segurando suas mãos com firmeza.
— Helena, preciso perguntar: está escondendo algo de mim?
Ela congelou. As palavras de Rafael, a carta de Elisa Duarte, a advertência do padre… tudo girava em sua mente.
— Eu… não sei do que está falando. — murmurou.
— Sabe, sim. — insistiu Gabriel, olhando-a nos olhos. — Desde o baile, você não é mais a mesma. Se algo aconteceu, preciso que confie em mim.
Helena desviou o olhar, sentindo as lágrimas subirem.
— Não posso, Gabriel. Não agora.
A dor em sua voz cortou o coração dele. Gabriel a soltou, recuando como se tivesse levado um golpe invisível.
— Então é verdade. — disse, amargo. — Há algo entre você e Rafael, não é?
Helena arregalou os olhos, horrorizada.
— Como pode pensar isso?
— Porque ele não tira os olhos de você. Porque fala de um jeito… provocador. Porque você se cala quando devia me dizer a verdade!
Helena tentou explicar, mas as palavras não saíram. Gabriel virou-se e saiu da confeitaria, deixando para trás o cheiro doce de açúcar misturado à amargura da desconfiança.
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Na rua, o vento da tarde batia forte. Gabriel andava rápido, tomado por pensamentos confusos. Não queria acreditar que Rafael estivesse envolvido, mas cada gesto do primo parecia calculado para provocá-lo.
— O que você está tramando, Rafael? — murmurou, entre os dentes.
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Naquela mesma noite, Rafael apareceu na confeitaria. Trazia o charme costumeiro, mas seus olhos escondiam malícia.
— Vejo que Gabriel saiu daqui abalado. — comentou, ao se aproximar do balcão.
Helena o encarou, furiosa.
— Está tentando nos separar, não é?
Ele sorriu, inclinando-se para mais perto.
— Eu só lhe mostrei a verdade. O que você faz com ela… é escolha sua.
— Não tem direito de mexer com a memória da minha mãe.
— Tenho todo o direito quando o passado dela afeta o presente da minha família. — rebateu Rafael. — Ou prefere que Gabriel descubra sozinho, sem preparo?
Helena sentiu o coração acelerar. Rafael era venenoso, mas suas palavras carregavam lógica c***l. Se Gabriel soubesse das cartas, tudo desmoronaria.
— Por que está fazendo isso? — ela perguntou, quase num sussurro.
Rafael aproximou-se ainda mais, a voz baixa e firme.
— Porque eu quero o lugar que Gabriel ocupa. O respeito, o poder… e talvez até você.
Helena recuou, horrorizada.
— Nunca!
Ele apenas sorriu, satisfeito por plantar mais uma semente de dúvida.
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Enquanto isso, na mansão, Gabriel entrou no escritório do pai falecido, algo que raramente fazia. O cheiro de livros antigos e madeira encerada o envolveu. Sentou-se à escrivaninha, lembrando-se de quando era criança e via Álvaro escrever longas cartas.
Passou os dedos sobre as gavetas, até encontrar uma trancada. Por impulso, forçou-a. A fechadura antiga cedeu, e dentro havia papéis amarelados, alguns com a caligrafia que reconheceu de imediato: a do pai.
Folheou rapidamente, mas não havia nada claro — apenas bilhetes cifrados, frases vagas sobre encontros e promessas. Suficiente, porém, para alimentar sua desconfiança.
— Maldito seja, Rafael… — murmurou, com os olhos sombrios. — Se sabe de algo, vou descobrir.
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Na igreja, Padre Augusto rezava em silêncio quando Helena entrou, aflita.
— Padre, não sei mais o que fazer. Gabriel desconfia de mim.
O sacerdote olhou-a com compaixão.
— A verdade sempre encontra seu caminho, Helena. Mas às vezes precisamos escolher se seremos nós a revelá-la… ou se deixaremos que outros a usem contra nós.
— E se a verdade destruir tudo?
Padre Augusto suspirou.
— O silêncio também destrói, filha. Apenas mais devagar.
Helena sentiu o peso da escolha esmagá-la.
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Na varanda da mansão, Rafael observava a cidade iluminada pela lua. Beatriz aproximou-se, séria.
— Não sei o que está tramando, Rafael. Mas aviso: se colocar Gabriel em risco, não terá meu perdão.
Ele ergueu a taça de vinho, sorrindo.
— E se for ele quem coloca todos em risco, tia? E se Gabriel estiver cego por um amor que não deveria existir?
Beatriz estreitou os olhos, alarmada.
— Do que está falando?
— Ah… nada que a senhora já não saiba. — respondeu, com ironia. — O passado sempre volta, não é mesmo?
Beatriz gelou. Sabia que Rafael sabia mais do que deveria.
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Naquela noite, Gabriel não conseguiu dormir. Caminhou pela mansão, perturbado, até parar diante da janela. A lua cheia iluminava Vila Serena, mas para ele só havia escuridão.
As palavras de Helena ecoavam em sua mente: “Não posso, Gabriel. Não agora.”
Para um homem como ele, acostumado a enfrentar inimigos declarados, a pior batalha era contra segredos invisíveis.
— Se há uma verdade escondida… vou encontrá-la. — prometeu, olhando para a noite.
E naquele instante, o destino começava a armar sua próxima jogada: um confronto inevitável entre amor e mentira, entre sangue e desejo, entre o passado e o presente.
Nada em Vila Serena seria mais inocente.